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Agosto 24, 2026

Danos da pesca de arrasto em montes submarinos chilenos persistem mais de 25 anos depois, aponta estudo

Por: Oceana

Fundo marinho degradado no monte submarino JF2, no Chile, 25 anos após o fim da pesca de arrasto. Foto: Schmidt Ocean Institute/ESMOI-UCN

 

Mais de duas décadas após o fim da pesca de arrasto de fundo nos montes submarinos que cercam o Arquipélago Juan Fernández, no Chile, o primeiro estudo científico publicado sobre os efeitos de longo prazo dessas práticas no país revela que esses habitats seguem com sinais claros de degradação.

Liderada por cientistas da Oceana, do Centro para a Ecologia e Gestão Sustentável de Ilhas Oceânicas e do Centro de Estudos Avançados em Zonas Áridas, em conjunto com pesquisadores de várias outras instituições internacionais, a pesquisa foi publicada na revista Deep-Sea Research. Ela compara quatro montes submarinos, monitorados através de um veículo subaquático operado remotamente em profundidades superiores a 700 metros, durante uma expedição realizada em 2024.

Para o estudo, os pesquisadores compararam três montes submarinos com histórico de pesca de arrasto de fundo a um quarto, ecologicamente semelhante, mas onde nunca foi registrado qualquer indício desse tipo de pesca. E o contraste foi marcante.

Enquanto este monte, conhecido como Solito, abriga jardins de corais de águas profundas saudáveis, abundância de esponjas e uma rica diversidade de invertebrados, os demais apresentam menor cobertura de corais vivos, biodiversidade reduzida, estrutura de habitat simplificada e sinais de perturbação do fundo marinho – mesmo após mais de 25 anos sem qualquer atividade de arrasto no local.

“A recuperação permanece extremamente limitada porque muitas das espécies afetadas, especialmente os corais de águas profundas, crescem muito lentamente e podem viver por centenas ou até milhares de anos”, explica Ignacio Petit, cientista da Oceana e autor principal do estudo.

Os corais de águas profundas desempenham um papel fundamental como engenheiros de ecossistemas. Suas estruturas tridimensionais complexas fornecem abrigo, áreas de alimentação e servem de berçário para inúmeras espécies de peixes e invertebrados. No entanto, esses mesmos corais, formados ao longo de séculos, podem ser destruídos pela pesca de arrasto de fundo em questão de horas.

“A presença de corais vivos sustenta uma maior biomassa de invertebrados, incluindo crustáceos de valor comercial, como o caranguejo-dourado chileno (Chaceon chilensis) e a lagosta espinhosa de Juan Fernández (Projasus bahamondei). Portanto, conservar os ecossistemas dos montes submarinos também ajuda a sustentar as pescarias artesanais locais”, aponta Javier Sellanes, coautor do estudo.

Segundo ele, os resultados da pesquisa indicam que os montes submarinos de Juan Fernández ultrapassaram amplamente o limite dos impactos adversos significativos, classificação dada pelas diretrizes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para pescarias de águas profundas cuja degradação ecológica persiste por mais de cinco a 20 anos.

Chile: um líder global na proteção de montes submarinos

As conclusões apresentadas pelo estudo são particularmente relevantes para o Chile, um dos primeiros países do mundo a proibir a pesca de arrasto de fundo em montes submarinos. Uma legislação nacional aprovada pelo país ainda em 2012 protegeu 117 dessas formações marinhas de águas profundas, reconhecendo sua vulnerabilidade ecológica.

Os montes submarinos são montanhas submersas que se elevam a partir do fundo do oceano, sem chegar à superfície. Por causa disso, permaneceram desconhecidos ou pouco estudados pelos cientistas por muitos anos. Muitos têm origem vulcânica e alguns podem chegar a mais de 4 mil metros de altura, funcionando como pontos de concentração de uma impressionante diversidade de vida marinha, abrigando, especialmente, os corais de profundidade.

“As evidências confirmam que proteger esses ecossistemas antes que sejam danificados é, de longe, a estratégia de conservação mais eficaz. Em ambientes onde a recuperação natural pode levar séculos, prevenir a degradação não é apenas um imperativo ambiental, mas também um investimento no futuro da biodiversidade marinha”, acrescentou Petit.

Embora os montes submarinos de Juan Fernández estejam atualmente dentro de Áreas Marinhas Protegidas, Solito permanece desprotegido, e os autores do estudo recomendam medidas de gestão espacial e monitoramento de longo prazo para a sua proteção efetiva.

A pesca de arrasto de fundo continua em algumas partes do Chile, direcionada a várias espécies de pescado e a crustáceos de valor comercial. Os novos resultados do estudo acrescentam ainda mais respaldo científico aos apelos por uma gestão preventiva e pela proteção de ecossistemas de profundidade antes que sejam alterados de forma irreversível.

Uma luta que também acontece por aqui

No Brasil, a Oceana vem defendendo, há anos, políticas que repensem a pesca de arrasto, com estruturas mais rígidas para sua gestão. Um exemplo de como isso pode ser feito é a proibição da modalidade pesqueira no litoral do Rio Grande do Sul, considerada um marco global na conservação marinha por proteger as 12 milhas náuticas do mar territorial gaúcho e seus ecossistemas e, assim, contribuir para a sustentabilidade de pescarias que são fonte de sustento de mais de 20 mil famílias de pescadores artesanais da região.

Segundo o estudo Impactos da pesca de arrasto no Brasil e no mundo, publicado pela Oceana em 2020, a pesca de arrasto é amplamente reconhecida como o principal vetor de impactos negativos de larga escala sobre o fundo marinho, além de gerar a maior parte dos descartes na pesca comercial.

“O fechamento de áreas ao arrasto tem sido uma das soluções adotadas para reduzir parte dos efeitos dos descartes, manter áreas produtivas, contribuir para a recuperação de estoques pesqueiros, proteger espécies ameaçadas e permitir o equilíbrio entre diferentes modalidades pesqueiras”, indica o relatório.