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Fevereiro 25, 2026

Rumo ao abismo: a corrida para explorar minerais no fundo do oceano e o que está em jogo

Por: Oceana

O TEMA: Mineração

 

A cerca de mil metros abaixo da superfície, os últimos vestígios de luz do sol desaparecem na escuridão total. Entre os mergulhadores mais resistentes do oceano, os cachalotes e as tartarugas-de-couro conseguem nadar até o limiar, mas raramente penetram nessas profundezas sem luz. Esta é a “zona da meia-noite”, e entrar nela é como imergir em outro planeta. 

No fundo do mar, os únicos flashes de luz vêm dos animais bioluminescentes. O peixe-pescador, cuja boca enorme abriga dentes longos e afiados, usa uma espécie de varinha luminosa presa à cabeça como chamariz para atrair suas presas. Para as águas-vivas-de-pente-sangrento, a escuridão proporciona camuflagem: sem sol, sua cor vermelha se torna preta como piche. 

A mil metros de profundidade, a temperatura é semelhante à de uma geladeira. Mais ao fundo, o frio e o silêncio aumentam perto do leito oceânico, parcialmente pavimentado com rochas de cor cinza-metálica, semelhantes a ruas de paralelepípedos subaquáticas. Cada rocha começou como algo pequeno, talvez um dente de tubarão ou um pequeno fóssil. Ao longo de milhões de anos, metais como ferro, manganês, cobalto e níquel foram se depositando lentamente, fazendo com que algumas dessas rochas atingissem o tamanho de uma batata. 

Essas rochas são chamadas de “nódulos polimetálicos”, e corporações querem usar os metais contidos nelas para fabricar uma gama enorme de produtos – de computadores e telefones a veículos elétricos e turbinas eólicas.

Empresas de diferentes países estão testando equipamentos para extrair esses nódulos, avaliando se conseguem enviar robôs a profundidades maiores do que as alcançadas pela maioria dos cachalotes ou das tartarugas-de-couro. Elas querem fazer o que a humanidade jamais fez: explorar o fundo do mar em grande escala. 

Nódulos polimetálicos encontrados no Pacífico Sul. © Hannes Grobe/AWI

Desvendando as profundezas dos oceanos 

Durante séculos, os cientistas presumiram que não havia vida no fundo gelado do mar. Agora sabemos que essa região (geralmente entre 200 e 10 mil metros de profundidade) é o maior lugar habitável do planeta. Mas a grande maioria das espécies que vivem lá é nova para os cientistas, e menos de 10% delas têm nome. À medida que as empresas intensificam a busca por minerais debaixo d’água, os cientistas aumentam seus esforços para documentar os seres habitantes dessas regiões e investigam o impacto que a mineração pode causar em seus habitats. 

Em 2024, usando um robô capaz de mergulhar a mais de 4 mil metros de profundidade, cientistas exploraram os montes submarinos da cadeia Nazca e Salas y Gomez, na costa do Chile. Um deles afirmou ser impressionante o número de novas espécies avistadas. Eles testemunharam um grande grupo de lulas-de-Humboldt se alimentando e uma poliqueta que alguns descrevem como “uma bola de espelhos de discoteca, só que viva”. 

As espécies de águas profundas vivem em vários habitats diferentes. Existem montes submarinos vibrantes (como os encontrados na costa do Chile), repletos de corais, esponjas e peixes, bem como fontes hidrotermais, às vezes comparadas às águas termais que vemos em terra, mas no fundo do oceano. Ambos os habitats são repletos de minerais de interesse comercial. Os montes submarinos têm crostas de cobalto, ferro, níquel e manganês, ao passo que as fontes hidrotermais produzem pequenas estruturas ricas em ouro, níquel, cobre e outros metais. 

Atualmente, os holofotes internacionais não estão direcionados aos montes submarinos ou às fontes hidrotermais.

Em vez disso, os olhares se voltam a um terceiro habitat: as planícies abissais. Lar dos cobiçados nódulos polimetálicos, essas áreas planas e amplas também são impressionantes, embora provavelmente não sejam tão densas em vida. Pequenos animais como corais, vermes e esponjas vivem diretamente sobre esses nódulos. 

Para alcançar os nódulos, empresas de mineração em águas profundas estão testando tecnologias robóticas. A canadense The Metals Company (TMC) desenvolveu um sistema no qual um veículo, aproximadamente do tamanho de um ônibus, desceria debaixo d’água para coletar os nódulos e os enviaria por um tubo vertical até um navio na superfície. Alguns apelidaram a tecnologia de “o maior aspirador de pó do mundo”, enquanto especialistas, incluindo o renomado cientista pesqueiro e membro do Conselho da Oceana, Daniel Pauly, a descrevem como um “trator de esteira”, destruindo as esponjas e os corais que vivem sobre os nódulos. 

Qualquer atividade industrial inevitavelmente perturba a tranquilidade das profundezas do mar, dizem os estudiosos.

 Em uma carta pública, 15 cientistas marinhos e juristas alertaram para o fato de que a mineração pode destruir habitats em águas profundas, causar a extinção de espécies e introduzir vibrações, ruídos, produtos químicos e nuvens de sedimento no ecossistema. 

Nessas águas, a poluição seria especialmente problemática. Os peixes das profundezas evoluíram para viver nesse ambiente único que, apesar de extremo, é limpo. Ao contrário dos peixes de águas rasas, que são adaptados para lidar com sedimentos que turvam a água, os de águas profundas não precisam tossir a sujeira pelas brânquias, explica Pauly. Assim como os animais das cavernas que ficam cegos, os peixes das profundezas oceânicas provavelmente perderam a capacidade de expelir partículas estranhas de seus corpos. Qualquer perturbação pode ser fatal. 

O equipamento usado para extrair os nódulos criaria nuvens de sedimentos que levariam anos para reassentar. 

Os impactos de alguns dos primeiros testes de mineração em águas profundas do mundo, realizados em 1970, ainda permanecem, o que não é uma boa notícia. 

Há décadas, cientistas vêm trabalhando para mapear os mistérios do fundo do mar, e ainda há muito a aprender. Mas as mineradoras estão ficando inquietas. Elas aguardam que a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês) emita regras que já deveriam existir, permitindo o início de suas operações de extração. Todos os olhares estão voltados para a Zona Clarion-Clipperton, uma área de 4,5 milhões de quilômetros quadrados entre o Havaí e a América Central, que abriga uma grande quantidade de nódulos polimetálicos. 

A zona já foi dividida em uma colcha de retalhos, na qual diferentes países e empresas patrocinadas por eles obtiveram licenças exclusivas para prospectar e, possivelmente em breve, explorar os minérios da região. Ao contrário das tranquilas profundezas do oceano, a conversa em terra está se tornando cada vez mais acalorada. 

Ooteca de pata-roxa (Scyliorhinus canicula) com poliqueta em coral negro de águas profundas (Antipathella subpinnata). Foto: Oceana

Quem governa o fundo do mar?  

Uma linha invisível circunda todos os países costeiros da Terra. Ela marca 200 milhas náuticas a partir da costa, delimitando uma “Zona Econômica Exclusiva”, onde todas as embarcações, a pesca e outras atividades econômicas permanecem sob controle do país em questão. Aventure-se além dessa linha e você estará em águas internacionais, ou seja, em alto-mar. Quase dois terços do oceano do mundo, incluindo a maior parte do mar profundo, estão fora de jurisdições nacionais. A decisão de quem quer que seja sobre a mineração no fundo do mar afeta a todos. 

Um século após a descoberta dos nódulos polimetálicos, os líderes mundiais estavam cada vez mais ávidos por minerais, à medida que fatores geopolíticos impulsionavam os preços dos metais nas décadas de 1960 e 1970. Na Assembleia Geral da ONU de 1967, o diplomata maltês Arvid Pardo fez um discurso insistindo que os promissores minerais (e a riqueza) do oceano pertenciam a toda a humanidade, e não apenas a países mais ricos que conseguissem chegar lá primeiro. 

O discurso de Pardo preparou o terreno para a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS, na sigla em inglês), descrita como a “constituição dos oceanos”, que incluiu critérios para a mineração em águas profundas. Qualquer atividade deveria beneficiar a humanidade de forma ampla, o que significava garantir que os países em desenvolvimento tivessem acesso igual às áreas de mineração. Os países membros também concordaram que todos os esforços deveriam proteger o ambiente marinho. 

Para garantir o acesso equitativo ao leito marinho, a UNCLOS exige que, para cada área de oceano concedida a uma empresa de mineração, outra seja reservada para uso ou em benefício de países em desenvolvimento.

Também exige que pelo menos um país supervisione a empresa para garantir que ela cumpra a lei. 

Porém, algumas das empresas que solicitam permissão para explorar a mineração em águas profundas estão usando uma brecha na regulamentação. A TMC, por exemplo, em vez de ser supervisionada por seu país de origem, o Canadá, buscou Nauru, uma pequena nação insular do Pacífico, com cerca de 12 mil habitantes, como a supervisora de suas atividades.

Essa medida lhe concede a área oceânica reservada para Nauru, além da área à qual a empresa já tinha acesso. Alguns também temem que pequenos países insulares como Nauru sejam menos propensos a denunciar grandes corporações internacionais poderosas por praticarem atividades ilegais ou não protegerem o ambiente marinho. 

Até o momento, o comitê da ISA aceitou todos os pedidos para explorar áreas de mineração em águas profundas, embora ainda não haja uma rota para aprovar a exploração em escala comercial. Mas um país está mudando o cenário. 

Os Estados Unidos avançam rapidamente 

Em abril de 2025, o presidente Trump anunciou uma mudança surpreendente na chamada “corrida do ouro” da mineração em águas profundas. O presidente emitiu um decreto para evadir o direito internacional, instruindo as autoridades do país a acelerar o processo para empresas que queiram praticar mineração, inclusive em águas internacionais. Menos de uma semana após o anúncio, a TMC apresentou ao governo estadunidense uma solicitação de licença de mineração na Zona Clarion-Clipperton. 

Muitas organizações ambientais, cientistas e especialistas em direito criticaram a medida do governo. “Acelerar a tramitação da mineração em águas profundas por meio dos processos regulatórios globais da ISA geraria um precedente perigoso e descumpriria o direito internacional consuetudinário”, afirma Duncan Currie, consultor jurídico da  Deep Sea Conservation Coalition.    

Kathryn Matthews, cientista-chefe e vice-presidente sênior da Oceana, afirma que o decreto prioriza os lucros de curto prazo em detrimento do bem-estar de longo prazo dos oceanos e das pessoas que dependem deles. “Este é um caso claro de priorização da ganância das mineradoras em detrimento do bom senso. Qualquer tentativa de acelerar a mineração em águas profundas sem as devidas garantias só irá acelerar a destruição dos nossos oceanos”. 

E as mudanças climáticas? 

No debate sobre a mineração no mar profundo as mudanças climáticas têm grande importância. Alguns defensores dessa atividade argumentam que ela é necessária para salvar a humanidade do aquecimento global catastrófico já que esses minerais são usados em baterias de carros elétricos, geradores de turbinas eólicas e painéis solares; e, em teoria, ela poderia aliviar a pressão da mineração em terra. 

No entanto, à medida que as tecnologias evoluem rapidamente, a situação parece cada vez menos clara. A tecnologia de baterias para veículos elétricos, por exemplo, está evoluindo para além da necessidade do cobalto ou do manganês que os nódulos polimetálicos oferecem. 

“Do ponto de vista tecnológico, não parece que a mineração em mar profundo seja necessária”, diz a cientista marinha da Oceana Sarah Bedolfe. “As corporações claramente se beneficiariam da extração no fundo do mar, mas não está claro se mais alguém se beneficiaria. E uma coisa que já sabemos é que a vida marinha nesses ambientes sofrerá”. 

Em maio de 2025, mais de 65 empresas, incluindo companhias de tecnologia e fabricantes de veículos elétricos, assinaram uma declaração pedindo cautela em relação à mineração em águas profundas, além de uma pausa temporária, até que se saiba mais sobre como essa atividade pode impactar a vida marinha. 

Alguns cientistas afirmam que a prioridade número um deve ser reduzir a demanda por matérias-primas virgens e aumentar a reciclagem de metais, em vez de buscar novas áreas intocadas para explorar. 

“Não há evidências de que a mineração em águas profundas substituiria a mineração em terra. O mais provável é que ela apenas aumente a poluição total resultante das atividades de mineração”, diz Bedolfe. 

Segundo Matthews, apesar da promessa de aumentar a energia limpa, esse tipo de mineração pode ter o efeito oposto. O oceano profundo é o maior “sumidouro de carbono” da Terra e teve um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas causadas por emissões humanas no passado. Graças a ele, mais de 90% do excesso de calor gerado pelos seres humanos já foi absorvido, afirma ela. “Danificar esses habitats pouco estudados certamente comprometerá a forma como funcionam atualmente e, provavelmente, ameaçará sua capacidade de mitigar as mudanças climáticas”. 

Como tudo relacionado à mineração em águas profundas, o impacto total continua sendo um mistério. 

O movimento por uma moratória 

Enquanto o governo Trump trabalha para acelerar a mineração em águas profundas, ganha força o movimento por uma moratória e, atualmente, mais de 40 países estão pedindo uma pausa na mineração de nódulos polimetálicos. O mesmo ocorre com grupos da indústria de pescado, especialistas em biodiversidade e grandes empresas. Quase mil cientistas de 70 países também pediram uma pausa na mineração em águas profundas em uma carta, afirmando que seus efeitos sobre os ecossistemas marinhos e a biodiversidade “seriam irreversíveis em uma escala de tempo multigeracional”. 

Junto a mais de 130 grupos de conservação oceânica na Deep Sea Conservation Coalition, a Oceana apoia essa moratória e pede uma proibição completa da mineração de fontes hidrotermais e crostas ricas em cobalto. Em vez de abrir uma nova fronteira para a exploração, a coalizão argumenta que os esforços internacionais devem se concentrar em continuar aprendendo mais sobre o fundo do mar enquanto criam sistemas mais responsáveis ​​para a produção, o consumo e a reutilização em terra. 

Os serem humanos conhecem apenas 0,001% do fundo do mar, o equivalente ao tamanho do menor estado dos Estados Unidos, Rhode Island. Destruir esse ambiente marinho sem compreendê-lo adequadamente é um grande risco, dizem os cientistas. 

“Nossos mapas de Marte são mais precisos do que nossos mapas do fundo do mar. Presumir que entendemos um ecossistema que acabamos de começar a desvendar – o suficiente para minerá-lo com segurança e responsabilidade – é arrogância”, alerta Matthews. 

“A corrida inventada rumo à mineração, sob o pretexto de energia verde, desvia a atenção das graves consequências que essa atividade pode ter para os nossos oceanos e o nosso clima. Devemos proteger o fundo do mar enquanto continuamos aprendendo mais sobre ele”, conclui ela. 

*Texto publicado originalmente em inglês, na Oceana Magazine de 2025