Há mais de 15 anos, o pescador artesanal Daniel Veiga Oliveira atua nas redes sociais como um mobilizador no combate à poluição por plástico. Sua atuação, no entanto, vai muito além das redes.
Ele também dá palestras sobre o tema, visita escolas, universidades, conversa com crianças, jovens e adolescentes sobre os riscos causados pela poluição plástica que invade a Praia do Quintão, no município de Palmares do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, onde mora há quase 30 anos. Daniel é um ativo apoiador da campanha Pare o Tsunami de Plástico que, com quase 90 organizações da sociedade, busca a aprovação do Projeto de Lei (PL) 2524/2022.
Nesta edição da Oceana Entrevista, Daniel nos conta um pouco do seu dia a dia e revela alguns dos prejuízos causados pela poluição por plástico na pesca.
A ciência hoje aponta que a poluição por plástico é onipresente no planeta. Na sua visão, quais são os principais impactos dessa poluição no mar e na pesca cotidiana?
O plástico no oceano, no mar traz bastante prejuízo econômico. Hoje, ele está presente em todas as pescarias. A gente pega muito lixo que, inclusive, rasga as nossas redes. Por isso que a gente espera dar o vento minuano, para virar a correnteza para o sul, e com dois dias passar todo o lixo, para a gente não ter prejuízo nas redes. Uma rede nossa de cabo de beirada é em média 3.500 reais. Fazer uma rede não é fácil, e para perder é um piscar de olhos. Botou uma rede num dia que tem lixo, perde a rede.
O dia que a gente não pega ou que a gente pega pouquinho, a gente fica feliz, mas o plástico está presente em todas as pescarias.
E não é só o nosso lixo, são de vários países. Nas palestras que dou para as crianças nas escolas, eu mostro lixo de mais de 30 países, lixo plástico.
Você tem participado ativamente da luta pela aprovação do PL 2524/2022. Por que é tão importante aprová-lo?
O Projeto de Lei 2524/2022 é muito importante para nós pescadores e para a pesca. Nós estamos pedindo a redução do plástico descartável de uso único, e espero esse projeto que vire lei. Espero daqui a alguns anos não achar mais esse plástico dentro do oceano, e nem pegar mais nas minhas redes, principalmente essas sacolinhas descartáveis de supermercado.
Parece até piada, mas no PL 2524/2022 a gente está pedindo a redução de apenas 1,83% da produção de plástico, que são esses plásticos descartáveis. Vai ajudar? Vai, mas não vai resolver o problema. Imagina se a gente pedisse a proibição de 100% do plástico?!
Hoje, mesmo que eles proíbam 100% do plástico – o que é impossível porque tem muita coisa [que usa plástico] – daqui 20, 30 anos o plástico ainda vai estar dentro do oceano. Então, é bem crítico.
O que te motivou a se tornar um mobilizador no combate à poluição por plástico nas redes sociais e junto às escolas e universidades da sua região?
É sempre um prazer trabalhar com as escolas, com a universidade e com as crianças. Recentemente, eu tive a oportunidade de fazer esse trabalho com as crianças da creche também. Antes de me envolver nesse projeto, eu já fazia campanha pela pesca e pelo meio ambiente. Nosso lema aqui sempre foi a pesca e o meio ambiente. Mas eu não conhecia a fundo o problema do plástico, que já virou um caso de saúde pública porque ele está no coração, no pulmão, no sêmen, no leite materno, no útero da mulher. E eu não sabia. Daí, quando a gente começa a se aprofundar no assunto e explicar para as pessoas, elas ficam impressionadas.
E é muito legal, porque as crianças já chegam em casa e já querem fazer a mudança. Elas cobram dos pais, das mães, que não podem largar plástico na rua. Já teve caso de pais vir aqui e dizer: “Ah, o que que tu fez na cabeça do meu filho, tu fez uma lavagem cerebral. Chegou em casa tocando horror”. E eu digo: “É mais fácil tu ensinar uma criança hoje do que um adulto”. Um adulto não aprende mais. Se já está fazendo errado, vai fazer errado o resto da vida.
É como eu costumo dizer, se a gente conseguir plantar uma sementinha para mudança na cabeça de uma criança, na cabeça de uma pessoa, e levar isso para a frente, eu já fico muito feliz, muito feliz mesmo. E é triste, porque a gente está na luta por causa deles, por causa das futuras gerações. Eu já estou com 46 anos e espero ter deixado a minha marca quando eu partir, na briga pela pesca e pelo meio ambiente.
Você também criou na sua casa um museu oceânico com uma infinidade de lixo plástico encontrado na praia, além de ossos e réplicas de várias espécies marinhas. Qual o seu objetivo com esse museu?
Há uns 15 anos, eu comecei a fazer vídeos e a publicar, no tempo do Orkut ainda… chamando a atenção das pessoas pelo relaxamento na beira da praia. Daí, eu vi que não era por aquele lado, porque eu até ofendia as pessoas. E, aí, eu pensei: “eu vou ter que montar um museu, alguma coisa para chamar a atenção do povo”. Mas quem é que vai querer entrar num museu de lixo, né? Porque para nós é normal. Aqui o cara não dá bola, tem uma ossada de baleia inteira na beira da praia e muita coisa que aparece, e o cara não dá bola. Eu comecei a juntar, comecei a embalsamar algumas cabeças de peixe, o que é caro também, e o pessoal começou a vir e a gostar. Eu tenho lixo até do espaço aqui no meu museu. Eu tenho lixo de um jato da Força Aérea Brasileira, que caiu na Lagoa dos Patos, cerca de 42 anos atrás e foi achado por um pescador. Além de lixo de plástico de mais de 30 países, encontrados nas redes daqui. Por isso que eu falo da importância do cuidado com o nosso meio ambiente, o nosso marzão. O mar é o maior pulmão do mundo, 71% do planeta é coberto por água. Então, nós temos que preservar esse paraíso que Deus deu para nós.
No ano passado você integrou as equipes de resgaste que ajudaram a socorrer milhares de pessoas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Como você tem percebido os efeitos da crise climática no seu modo de vida e na pesca?
Foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Eu participei dos resgates. A gente trabalhou lá direto, 24h por dia, por três dias e meio. A gente resgatou mais de 1.300 pessoas com o nosso barco. Foi um momento gratificante, ter participado, ter salvado muita gente. Mas triste também, porque é uma coisa que eu vou levar para o caixão, as imagens do que a gente viu, tudo que a gente passou e viveu por lá.
Eu não tenho vergonha de falar que quando a gente voltou do resgate, eu fiquei na minha peixaria três dias chorando direto, por tudo aquilo que a gente tinha passado. E fiquei uns 45 dias assim, fora da casinha, como a gente fala aqui no Rio Grande do Sul.
A gente trabalha para ter as coisas. Todo mundo, né? Tu corre dia a dia para ter tuas coisas e tu chega lá e vê o povo perder tudo da noite para o dia. Quando eu voltei de lá, eu falei para a minha esposa: “Ah, para que a gente trabalha tanto, para que a gente luta? A gente aqui não é nada, não tem nada e não é dono de nada”.
Se a natureza chegar e resolver que nada é teu, ela vai te tomar a hora que ela quiser. Esse é o meu ponto de vista. E um momento que me marcou muito nas enchentes foi quando a gente estava fazendo os resgates na primeira noite. Entre quatro e cinco horas da manhã, a gente foi resgatar uma família. Aí, tinha um gurizinho lá que estava muito apavorado: “Tio, eu não quero morrer, eu não quero morrer”. Aí, eu fui falar com ele: “Não, te acalma, te acalma. Agora você está com o Daniel. Tu não conhece o Daniel? Daniel da peixaria”. Comecei a brincar e falar com ele. “Não, não conheço”. “Pois é, sou eu, cara. Eu sou Daniel da peixaria. Vim para te ajudar. Como é que é o teu nome?”, perguntei. Daí, foi uma paulada na minha cabeça, porque ele falou que o nome dele é Mateus. O nome do meu filho mais velho.
Foi Deus que botou aquele guri ali no nosso caminho. Para dar um ânimo para ele. E, aí, nós só queríamos salvar as pessoas. Anoitecia, clareava. “E, aí, gurizada, vão parar? Não, vamos tocar direto”. Porque na pesca do camarão, a gente toca 24 horas – 2, 3, 4, 5 dias a fio. Porque o camarão ele dá quando ele quer, não é quando a gente quer.
Então, a gente meio focou como que se estivesse em uma pescaria. Tentava sair com a cabeça de lá, porque se tu ficasse com a cabeça lá, tu enlouquecia. A gente foi acordar para a realidade mesmo quando a gente voltou de lá. Tanto que eu cheguei em casa e o pessoal chegava e me perguntava: “E, aí, Daniel, como é que foram os resgates?” A gente só chorava, só chorava. Não tenho vergonha de dizer e falar sobre isso. Eu me emociono bastante, porque só quem esteve naquele inferno sabe o que a gente passou lá dentro. Aí, eu fico pensando nas pessoas que perderam tudo lá. Ah, que tristeza, que tristeza mesmo.
Se você pudesse levar uma mensagem direta para tomadores de decisão – prefeitos, deputados, ministros – sobre o que precisa mudar em relação ao plástico, qual seria?
Eu quero deixar uma mensagem para os governantes. Eu vou falar do meu ponto de vista, daí tu vai escrever como tu achar melhor. Que eles tomem vergonha na cara, porque eles não moram na beira do mar, não moram na beira de um rio, não sabe o que um pescador, uma pescadora passa.
A nossa profissão, se não é a primeira, é a segunda mais antiga do mundo e a gente não quer depredar tudo, a gente quer preservar para pescar sempre, quer ter o nosso peixinho.
O plástico, ele é presente na nossa pescaria – e não era antigamente. E isso eu quero falar para os deputados, para os prefeitos, para o presidente, para quem chegar e ouvir, para eles pensarem bem nas decisões que eles vão tomar futuramente.
Hoje o pessoal pensa muito nos prós, nos contras. “Ah tem o lado da indústria”. Mas a indústria só quer produzir, produzir, produzir. E o que vai acontecer com o planeta? Eles não estão preocupados com nada. Então, que eles pensem bem, porque a decisão deles vai ser para os netos deles, para os filhos deles, futuramente, tanto para o bem quanto para o mal. Esse é o recado que eu deixo para eles.
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