Outubro 23, 2025
Entre os dez principais estoques pesqueiros do Reino Unido, metade está em risco
Por: Oceana
O TEMA: Recuperar os estoques pesqueiros
De acordo com novo relatório da Oceana, situação de peixes como bacalhau, cavalinha e arenque está próxima de um colapso
A Oceana divulgou, neste mês de outubro, o relatório Deep Decline (“Declínio Profundo”, em tradução livre), que apresenta uma análise abrangente da situação dos estoques pesqueiros comerciais do Reino Unido. Segundo o estudo, dos 10 principais pescados britânicos, metade está com estoques criticamente baixos ou sendo pescados em quantidade maior do que consegue se reproduzir, ou, em alguns casos, em ambas as condições. Além disso, um em cada seis estoques da região corre risco de colapso pois, mesmo em níveis críticos, seguem sendo intensamente pescados.
Entre as populações elencadas como em situação crítica estão o bacalhau do Mar do Norte, o arenque do Mar do Norte, a cavalinha do Atlântico Nordeste e o caranguejo do sul do Mar do Norte, dos quais dependem muitos dos pescadores do Reino Unido. No caso específico do bacalhau, cujo estoque está criticamente baixo e, ainda assim, sobrexplotado, o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (Ciem) chegou a alertar, no mês passado, que a situação exige a proibição total das capturas para proteger o futuro da pescaria.
O relatório constatou ainda que apenas 41% das populações de pescados comerciais estão em estado saudável, enquanto 27% encontram-se em níveis criticamente baixos e 25% estão sendo sobrexplotados. As cinco populações em pior situação excederam os níveis de captura seguros em 2025.
O relatório também destaca desigualdades regionais graves. O Mar da Irlanda é o mais afetado, com o número de estoques sobrepescados subindo de 27% em 2020 para 41% atualmente. Já a região oeste da Escócia continua sendo a mais saudável, com 62% dos estoques avaliados como em bom estado e apenas 12% considerados sobrepescados.
Foram avaliados 105 estoques pesqueiros do Reino Unido, dos quais 83 são compartilhados com a União Europeia e outros países costeiros do Atlântico Nordeste.
Tragédia evitável
A Oceana alerta que o governo britânico tem ignorado as recomendações científicas para que seja criado um plano para acabar com a sobrepesca, incluindo o estabelecimento de limites de captura para algumas espécies. Com isso, diversas pescarias seguem acima dos níveis sustentáveis, prejudicando não só as populações de pescados, mas ameaçando também a subsistência das comunidades costeiras e a saúde dos oceanos.
“A sobrepesca não é uma tragédia inevitável, é uma escolha política. Os ministros ignoram a ciência repetidamente, e os nossos mares estão pagando o preço”, pontua o diretor-geral da Oceana no Reino Unido, Hugo Tagholm. “Precisamos urgentemente de um plano para acabar com a sobrepesca, que siga a ciência e coloque nossos mares em um caminho de recuperação a longo prazo, garantindo uma nova geração de prosperidade costeira. Mas isso requer liderança. Os ministros devem agir agora para redefinir o futuro da atividade, de modo que aqueles que pescam em harmonia com a natureza tenham prioridade sobre quem devasta e esvazia nossos mares”.
O exemplo de que a recuperação das espécies é possível pode ser visto nos casos da arinca do oeste da Escócia, o linguado do Canal da Mancha ocidental e a solha do Mar do Norte. Desde 2020 elas vêm sendo pescadas de forma sustentável, em grande parte graças aos limites de captura estabelecidos com as orientações científicas, provando que as boas práticas de gestão pesqueira beneficiam tanto o meio ambiente quanto a economia.
Por outro lado, os limites de captura de três dos cinco estoques em pior situação vêm sendo fixados acima das recomendações científicas há cinco anos consecutivos. É o caso do já mencionado bacalhau do Mar do Norte e do badejo do Mar da Irlanda. Desde o início do atual sistema de definição das cotas de pesca, nem metade dos limites estabelecidos esteve alinhado às orientações científicas, segundo os próprios consultores do governo britânico para a pesca.
Segundo o pescador Clive Mills, da região de Sussex, na Inglaterra, a situação é como estar à beira de um abismo. “Estamos pescando demais, rápido demais. Se os pescadores quiserem ser honestos consigo mesmos, precisamos parar. Cinquenta anos atrás, quando introduziram as cotas de pesca, perguntamos: ‘para que servem?’ e disseram que era para proteger o futuro da pesca. Mas não seguimos por esse caminho, e agora, olha onde chegamos”, pondera ele.
Situação brasileira
Lançada pela Oceana em agosto, a Auditoria da Pesca Brasil 2024 também apresenta os dados mais atualizados sobre a gestão pesqueira no país, incluindo a análise da situação de 135 estoques alvos da pesca marinha comercial.
Um problema grave no Brasil, no entanto, é que 47% desses estoques não possuem avaliações frequentes, o que dificulta a observação de suas trajetórias de biomassa e mortalidade por pesca. Dos estoques conhecidos, o estudo concluiu que 68% estão sobrepescados e 30% em sobrepesca.
Além disso, apenas 6% possuem limites de captura formalmente definidos, como é o caso das lagostas verde e vermelha, cuja cota foi estabelecida ainda em 2024, após longa campanha da Oceana. Outras pescarias importantes seguem acontecendo sem medidas de gestão cruciais para sua sustentabilidade. O pargo, por exemplo, é o segundo pescado mais exportado do país e, desde 2018, aguarda a publicação de um limite de captura, recomendado pela ciência como a principal medida para a recuperação da espécie.
Confira a publicação completa do relatório Deep Decline, disponível em inglês.
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