Julho 14, 2026
235 milhões de toneladas: produção global de pesca e aquicultura alcança valores recordes
Por: Oceana
O TEMA: Save the Oceans, Feed the World
O papel fundamental que os sistemas alimentares aquáticos desempenham na segurança alimentar, na nutrição saudável e na redução da pobreza vem sendo cada vez mais reconhecido (e desenvolvido) em todo o mundo. É o que confirma o recém-lançado relatório Estado Mundial da Pesca e Aquicultura 2026 (ou SOFIA, na sigla em inglês), produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
A publicação apresenta dados e estatísticas atualizados sobre a pesca e a aquicultura globais, dando sequência à série histórica iniciada pela FAO em 1994 e que havia sido publicada, pela última vez, em 2024.
Nessa nova edição, o estudo revela valores recordes: a produção global alcançou 235 milhões de toneladas, das quais 195 milhões correspondem aos animais aquáticos, como peixes, crustáceos e moluscos, e os outros 40 milhões de toneladas correspondem às algas, esponjas e conchas. Esse total indica um aumento de 5,2% da produção mundial em 2024 em relação a 2022.
O comércio global alcançou US$ 186 bilhões, envolvendo 230 países e territórios, já que mais de um terço da produção mundial é comercializado internacionalmente. Desse valor total, 99% representam os animais aquáticos – outro registro recorde, indicando uma competição que já se equipara, ao menos em valor, com o comércio de carnes de animais terrestres, como aves, bovinos e suínos.
Segundo a FAO, o setor de pesca e aquicultura garante os meios de subsistência de mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo. Além disso, 89% da produção de animais aquáticos é destinada ao consumo humano, fornecendo pelo menos um quinto da ingestão de proteína animal para 3,1 bilhões de pessoas.
“O relatório demonstra que, mais do que nunca, um planeta saudável depende de oceanos saudáveis e de águas continentais saudáveis”, apontou o diretor geral da FAO, QU Dongyu.
Limites da pesca extrativa
Na comparação entre pesca e aquicultura, o SOFIA 2026 revela um outro dado importante: o cultivo de animais aquáticos segue crescendo em torno de 3,2% desde a década de 1950, representando 53% do total produzido em 2024, enquanto a pesca extrativa segue na mesma média desde o final da década de 1980, alcançando, em 2024, 47% da produção, com cerca de 92 milhões de toneladas (sendo, deste total, 80 milhões de toneladas advindas da pesca marinha).
Esse valor reflete os desafios impostos pela própria natureza da atividade pesqueira, já que diversos estoques pesqueiros vêm alcançando seus limites biológicos devido à elevada pressão da atividade e à capacidade limitada de avaliação e gestão pesqueira em algumas regiões do globo. Por outro lado, muitas áreas de pesca conseguiram se manter sustentáveis, justamente com a implementação de sistemas de gestão baseados em evidências científicas e estratégias de captura baseadas na precaução.
Na distribuição ao redor do mundo, a Ásia continua a liderar a produção pesqueira, com 52% do total, seguida pela América Latina e o Caribe, com 15%, e a Europa, com 12%. Já entre as espécies mais pescadas estão a anchoveta, o bonito-listrado, a polaca-do-alasca, o verdinho e a sardinha-do-pacífico. Juntas, elas respondem por 17% da produção global.
O SOFIA 2026 destaca ainda, que a pesca extrativa continua exercendo papel vital para a segurança alimentar e a redução da pobreza, especialmente em áreas costeiras e regiões em desenvolvimento, onde a pesca artesanal sustenta os meios de vida de milhões de pessoas.

O Brasil no mundo
Em um recorte regional, o relatório da FAO aponta que a América Latina e o Caribe ainda têm a maior parte de sua produção oriunda da pesca extrativa (com 75% do total em 2024), apesar de um notável crescimento da aquicultura em 7,2% ao ano desde 2000. A região representa a maior rede de exportação de produtos de animais aquáticos do mundo, sendo responsável por 15% do total global: em 2024, foi responsável por US$ 27 bilhões em exportações (lideradas por Equador, Chile e Peru) e US$ 6 bilhões em importações.
No mesmo ano, o Brasil contribuiu com cerca de US$ 470 milhões das exportações, entre as quais se destacam produtos como a lagosta e o pargo. O dado é do Boletim da Estatística Pesqueira e Aquícola 2023-2024, publicado pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), que também indicou que a produção anual esteve em torno de 1,3 milhão de toneladas de pescados, sendo 479 mil toneladas provenientes da pesca extrativa e 880 mil toneladas da aquicultura (incluídas as atividades marinhas e continentais).
Além disso, o SOFIA 2026 também revelou que o Brasil figurou entre os dez países que mais geram empregos na pesca e aquicultura no mundo, sendo o único país fora da Ásia nesse grupo e respondendo por cerca de 3% do emprego mundial no setor. Considerando os mais de 1,7 milhão de pescadores e pescadoras profissionais formalmente registrados, segundo o MPA, estima-se que cerca de 10 milhões de pessoas dependem da atividade no país – tendo nela sua fonte de trabalho, renda e subsistência.
No entanto, não existem diagnósticos sobre a situação de quase metade das espécies alvo da pesca comercial no Brasil, conforme apontou a Auditoria da Pesca Brasil 2024, publicada pela Oceana no ano passado. Da parcela conhecida, o estudo indicou que 68% já estão reduzidos pela pesca excessiva – situação que segue sem perspectiva de melhora, caso mecanismos adequados de gestão e monitoramento não sejam implementados no país, como propõe o Projeto de Lei 4789/2024, que tramita na Câmara dos Deputados.
Perspectivas para o futuro
Para os próximos anos, a expectativa da FAO é de crescimento contínuo da produção, do consumo e do comércio globais de pesca e aquicultura. O estudo estima que, até 2034, a produção total de animais aquáticos deverá alcançar 214 milhões de toneladas.
No entanto, apesar dos recordes e avanços, os benefícios da atividade continuam distribuídos de forma desigual. O fornecimento per capita de alimentos de origem aquática, especialmente na África, permanece muito abaixo da média global, ressaltando a necessidade de políticas públicas direcionadas.
O setor também enfrenta pressões crescentes: mudanças climáticas, degradação ambiental, choques econômicos e transformações geopolíticas afetam seu desempenho e sustentabilidade. O relatório da FAO projeta, por exemplo, que em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, a quantidade de peixes disponíveis para a pesca deve diminuir mais de 10% até 2050 em diversas regiões. Além disso, fatores como gestão inadequada, destruição de habitats, práticas de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada e surtos de doenças podem comprometer a produtividade.
Diante disso, o SOFIA 2026 aponta que a eficácia da governança continua sendo determinante para os futuros resultados da pesca e a aquicultura globais e que avanços contínuos em gestão, desenvolvimento tecnológico e inovação podem garantir sistemas alimentares mais resilientes, inclusivos e sustentáveis a longo prazo. Entre as estratégias sugeridas, estão uma atenção especial à pesca de pequena escala; ao acesso equitativo a recursos e serviços; ao aprimoramento das tecnologias e da eficiência pesqueira; ao fortalecimento da cooperação regional; e à melhoria dos sistemas de monitoramento, controle e vigilância, especialmente para a gestão de estoques migratórios, transfronteiriços, transzonais e de alto-mar.
“Precisamos garantir que todos os esforços necessários sejam feitos para reverter o declínio da sustentabilidade e assegurar o potencial de longo prazo do setor para as futuras gerações”, conclui QU Dongyu.
Acesse o relatório da FAO completo, disponível em inglês.