Você sabia que os peixes das profundezas não conseguem tossir? Justamente por isso esses animais encontram-se vulneráveis diante do avanço da mineração em águas profundas. Curioso, não?!
O enorme interesse econômico por esse tipo de atividade já é uma realidade, tendo em vista a crescente busca por matérias-primas minerais como níquel e cobalto. A mineração marinha, no entanto, “é hostil à vida”, destaca Daniel Pauly*, cientista pesqueiro, fundador e diretor do projeto Sea Around Us e membro do Conselho Diretor da Oceana.
Nessa nova edição de Mar Aberto: especialistas respondem, ele explica como a mineração em águas profundas pode alterar o ambiente marinho e colocar em risco toda a sua biodiversidade.

Várias empresas têm demonstrado interesse em explorar metais em águas profundas, como cobalto, níquel e outros minerais considerados estratégicos, por exemplo, para o uso em baterias de carros elétricos e outras novas tecnologias.
Esses metais são encontrados em alta concentração em águas profundas, no topo de montes submarinos, em fissuras hidrotermais e na forma de nódulos polimetálicos nos leitos marinhos.
A mineração no topo de montes submarinos e fissuras hidrotermais significa a destruição desses oásis de biodiversidade. Já os nódulos polimetálicos estão menos associados à beleza e biodiversidade, mas a zona abissal abriga algumas formas de vida igualmente incríveis. Parecidos com batatas esses nódulos levaram milhões de anos para atingir seu tamanho atual, e agora enfrentam um risco cada vez mais real.
De que forma esses nódulos podem ser coletados? Como eles repousam em solos lamacentos nas imensas profundezas do mar, sua coleta deve ser feita por escavadeiras submarinas, revolvendo a lama onde estão. Ao serem trazidos à superfície, é preciso separá-los dos sedimentos aos quais estão aderidos. Com isso, milhões de toneladas de lama afundam lentamente ao redor das embarcações que realizam essa coleta, e imensas áreas do oceano se tornam turvas.
Com isso, a estrutura delicada das brânquias dos peixes e as finas lamelas que permitem a difusão do oxigênio da água para o sangue podem ser facilmente obstruídas. Espécies de peixes que vivem em ambientes turvos, como estuários, praias rasas e rios, desenvolveram a capacidade de tossir para evitar que suas brânquias sejam obstruídas por finas partículas de sedimentos e outros materiais em suspensão¹,². Assim como nós fazemos quando substâncias nocivas entram em nossos pulmões.
Os peixes de águas profundas e outros organismos, no entanto, evoluíram ao longo de milhões de anos em um ecossistema sem turbidez, sem partículas que obstruam suas brânquias. Assim como os peixes cavernícolas que gradualmente perderam o sentido da visão, e posteriormente os próprios olhos, após colonizarem cavernas sem luz, os peixes de águas profundas devem ter perdido a capacidade de tossir. A tosse requer músculos especializados e adequadamente inervados, ou seja, todo um sistema de adaptações anatômicas e neurais que o peixe teria que gastar energia para manter, mas que seriam inúteis em um ambiente que não exige esse tipo de adaptação.
Infelizmente, portanto, os peixes de águas profundas quase certamente morreriam sufocados em águas turvas; assim como vários outros habitantes das profundezas, como anfípodes gigantes.
As áreas marinhas onde os nódulos polimetálicos são explorados ficariam desprovidas de vida não microbiana. E os mamíferos marinhos que se alimentam de peixes de águas profundas iriam embora muito antes de suas presas morrerem sufocadas, devido ao ruído emitido pelas escavadeiras e pelos motores submarinos durante o processo de mineração.
A afirmação “peixes de águas profundas não tossem” expressa uma sólida percepção sobre a mineração nessas áreas: ela é hostil à vida marinha. Por isso, eu, pessoalmente, só posso esperar que a exploração em águas profundas por mineradoras nunca seja permitida.
Três tipos de habitats de águas profundas sob risco pela mineração
Planícies abissais são partes imensas e planas do leito marinho que cobrem 50% da superfície da Terra. Contendo cobalto, níquel, cobre e manganês, os nódulos polimetálicos repousam na superfície do sedimento em vastos campos. Animais como esponjas, invertebrados e corais crescem sobre os nódulos, enquanto o sedimento abaixo e as águas ao redor abrigam estrelas-do-mar, pepinos-do-mar e peixes, dentre outras espécies.
Fissuras hidrotermais revelaram à humanidade como formas de vida e ecossistemas inteiros podem existir na ausência de luz solar. Essas fissuras produzem depósitos de sulfetos no fundo do mar, que são pequenas estruturas contendo minérios ricas em ouro, níquel, cobre e outros metais. Esses minérios não podem ser extraídos sem que os ecossistemas alimentados pelas fontes hidrotermais sejam destruídas.
Montes submarinos são montanhas localizadas debaixo d’água, que abrigam corais e esponjas, sustentando uma teia alimentar abundante e proporcionando habitats essenciais para peixes e mamíferos marinhos. As crostas de ferromanganês ricas em cobalto, que se acumulam na superfície dos montes submarinos, são enriquecidas com outros metais e terras raras. O mesmo minério que a vida marinha usa como habitat é alvo da mineração, e não pode ser extraído sem que ocorra a destruição desse ecossistema.
1 Carlson, R. W. e Drummond, R. A., 1978. Fish cough response – a method for evaluating quality of treated complex effluents. Water Research, 12(1): 1-6.
2 Hughes, G. M., 1975. Coughing in the rainbow trout (Salmo gairdneri) and the influence of pollutants. Revue Suisse de Zoologie, 82(1): 47-64.
*Artigo de Daniel Pauly, originalmente publicado na Oceana Magazine de 2023 e novamente em 2024, na publicação Pergunte ao Dr. Pauly: Respostas para a conservação dos oceanos (em tradução livre, disponível em inglês).
MOST RECENT
Dezembro 10, 2025
“Esse Projeto de Lei foi construído por necessidade, por urgência e pela garantia da vida”