Mares em transformação: como as mudanças climáticas estão transformando a pesca - Oceana Brasil
Inicio / Blog / Mares em transformação: como as mudanças climáticas estão transformando a pesca

Janeiro 28, 2026

Mares em transformação: como as mudanças climáticas estão transformando a pesca

Foto: Oceana/Bento Viana

 

Josana Pinto da Costa vai guiando seu pequeno barco de pesca pelas águas turvas e enluaradas do Rio Amazonas, no norte do Brasil, onde ganha a vida pescando. Ela pesca à noite, não por escolha, mas devido à intensidade do calor durante o dia, agravado nos últimos anos pela emergência climática.

“As mudanças climáticas tiveram um grande impacto na nossa pesca, que está ficando cada vez mais difícil”, lamenta.

O aquecimento global não está apenas mudando a temperatura do ar; está transformando os ecossistemas costeiros. “Para capturar peixes que antes eram pescados ao longo da costa, agora é preciso ir muito mais longe, mais fundo no oceano”, afirma Costa.

E ela não está só. No mundo todo, pescadores do litoral amazônico, dos portos da Nova Inglaterra ou de postos avançados no Ártico estão testemunhando as mudanças no oceano diante dos seus olhos.

Aproximadamente 90% do excesso de calor proveniente das emissões de carbono causadas pelo homem foi absorvido pelo oceano. À medida que a temperatura do mar aumenta, as populações de peixes estão se deslocando. Em algumas regiões, os pescadores testemunham um aumento na quantidade de peixes, embora sejam tipos diferentes daqueles a que estão acostumados a pescar e que os consumidores estão acostumados a comer. Em outras regiões, os peixes estão desaparecendo.

“Este é o maior movimento de vida animal já registrado”, diz o ecologista marinho Malin Pinsky.

A transformação global dos ecossistemas marinhos afeta todos os elos da cadeia do pescado: pescadores, gestores, empresários e consumidores. Todos precisam se adaptar.

Problemas nos trópicos

Foto: Oceana/Christian Braga

Acostumados a temperaturas quentes durante todo o ano, os peixes tropicais conseguem aguentar algum calor, mas nem sempre suportam temperaturas mais altas do que já estão acostumados.

“Os peixes dos trópicos têm uma faixa menor de tolerância ao calor”, explica Juliano Palacios Abrantes, cientista pesqueiro que trabalha em Vancouver, no Canadá. Ele estudou amplamente o impacto das mudanças climáticas na pesca e na gestão pesqueira na América Latina. “Ali, as temperaturas geralmente variam dentro de uma faixa de 10°C. Em lugares mais temperados, mais ao norte ou ao sul, essa variação pode chegar a 40°C. Como estão acostumados às oscilações sazonais, esses peixes conseguem suportar um aquecimento maior”.

De acordo com Palacios-Abrantes, todos os modelos científicos atuais sugerem que, no geral, as populações de peixes tropicais que não toleram o calor migrarão em direção aos polos Norte e Sul ou para águas mais profundas. Um de seus recentes estudos estima que, até 2030, 23% das populações de peixes transfronteiriços, que vivem entre as águas de vários países e em alto-mar, terão passado por mudanças em sua distribuição.

O Atlântico Sudoeste, que faz fronteira com o Brasil, a Argentina e o Uruguai, é um hotspot onde o aquecimento global acontece mais rapidamente do que a média global.

No Brasil, os pescadores do litoral dependem de ecossistemas sensíveis (como manguezais, estuários e canais de maré) que estão sendo afetados por tempestades, aumento do nível do mar e alterações na salinidade. E, diferentemente das frotas industriais, eles estão limitados a barcos menores e laços comunitários, não tendo como navegar centenas de quilômetros em busca de peixes.

Em 2025, a Oceana divulgou a quinta edição da Auditoria da Pesca Brasil, que examinou as populações sobrepescadas, as frotas pesqueiras, a transparência e o orçamento público no país. O relatório revelou que 92% dos estoques brasileiros com diagnóstico disponível não possuem planos de gestão e metade das pescarias não possui qualquer tipo de monitoramento.

“Os dados sobre essas pescarias são mais importantes do que nunca”, afirma o diretor científico da Oceana no Brasil, Martin Dias.

“Sem eles, o governo não consegue se preparar para os impactos climáticos nem fornecer assistência financeira para ajudar os pescadores a se adaptarem às mudanças climáticas que afetam seus meios de subsistência”.

Os desafios cada vez maiores enfrentados pelos pescadores artesanais nos trópicos evidenciam a desigualdade que está no cerne das mudanças climáticas. Um estudo recente concluiu que as ondas de calor marinhas estão ligadas às emissões de carbono de 180 empresas, a maioria delas sediada no Norte Global. “A maioria dos países do Sul Global contribuiu muito pouco para as mudanças climáticas, mas são seus pescadores artesanais que estão sofrendo os piores impactos”, aponta Palacios-Abrantes.

Rumo ao norte

Do outro lado do hemisfério, os pescadores dos Estados Unidos e do Canadá também estão sentindo as mudanças. O bacalhau e a lagosta, antes abundantes na costa da Nova Inglaterra, região nordeste dos Estados Unidos, migraram para águas mais profundas ou em direção ao norte. Enquanto isso, espécies do sul, como o serrano-estriado, estão aparecendo em águas do norte. Desde a década de 1970, a lagosta-americana, a abrótea-vermelha e o serrano-estriado migraram, em média, 233 quilômetros ao norte. Uma processadora de mariscos chegou a transferir suas operações da Virgínia para Massachusetts.

No Canadá, uma pesquisa realizada em 2020 com mais de 100 pescadores comerciais na costa do Pacífico constatou que a pesca do salmão foi particularmente afetada pelas mudanças climáticas, enquanto outros peixes, como a albacora-branca, parecem estar aumentando em população.

“Acho que haverá vencedores e perdedores a nível de espécie. Os pescadores precisarão diversificar”, observou um deles. Outro relatou a necessidade de mudar sua área de pesca quase semanalmente: “é preciso ser extremamente adaptável”. Os pescadores também contaram que pescam em profundidades maiores do que antes.

A adaptação não será fácil, segundo a maioria deles. Quase três quartos dos pescadores entrevistados disseram que as mudanças na pesca aumentaram seus níveis de estresse, devido à incerteza que afeta seus meios de subsistência.

A mudança nas populações de peixes também traz alterações culturais e nutricionais. Para os povos indígenas da província canadense da Colúmbia Britânica, por exemplo, o salmão não é só alimento; também é fundamental para celebrações, identidade e bem-estar da comunidade. “Não se trata apenas de comer amanhã”, diz Palacios-Abrantes. “Esses peixes fazem parte da identidade cultural, e não é qualquer espécie que consegue substituí-los”.

Mudanças no mar

Foto: Oceana / Christian Braga

Os peixes não desaparecerão da noite para o dia, e é importante manter a transformação em perspectiva, lembram-nos os cientistas. “A gente imagina um grupo de peixes que junta todas as suas coisas e vai embora, mas não é assim que funciona”, diz Palacios-Abrantes. “O problema é que a abundância e os tipos de peixe na água vão mudar”.

Ao considerar quais espécies serão impactadas mais rapidamente, Dias aponta as de vida mais curta. No caso de sardinhas e camarões, por exemplo, uma onda de calor durante os períodos de desova pode arruinar as pescarias. Já espécies mais longevas enfrentam desafios crônicos com as mudanças climáticas, mas com menos riscos imediatos.

Com o tempo, a mudança nas espécies terá efeitos em cascata. Por exemplo, ao entrar em novos ecossistemas, o atum, um predador de topo, pode desequilibrar as cadeias alimentares. No Ártico, o aquecimento e o derretimento do gelo estão atraindo novas espécies para áreas antes inacessíveis, enquanto as que já vivem nos polos, sem ter para onde migrar, correm mais riscos. É previsto que as espécies de água fria percam 50% do seu habitat térmico até 2050.

O problema não é apenas ambiental, é geopolítico. À medida que os peixes cruzam fronteiras internacionais, espera-se um aumento nas disputas sobre cotas, território e soberania. Pinsky alerta para o fato de que os ecossistemas estão sendo transformados “como um globo de neve desses de cristal, desagregando a pesca” e “gerando conflitos sobre quem pode pescar o quê”.

A adaptação a essa nova realidade exigirá grandes mudanças no monitoramento e na gestão. Além de um monitoramento mais eficaz, os cientistas defendem políticas mais flexíveis que possam responder às mudanças na distribuição dos peixes no mundo.

“As proteções marinhas costumam ser muito rígidas e definidas para que sejam permanentes e passíveis de ser aplicadas”, afirma Palacios-Abrantes.

“Mas, na era das mudanças climáticas, algumas populações de peixes estão se deslocando para fora dos limites, por exemplo, de áreas protegidas ou jurisdições nacionais. Precisamos ser capazes de revisar as proteções e trabalhar com governos de diferentes países para responder às mudanças ambientais em tempo real”.

Em visitas ao Pacífico Tropical Oriental, Palacios-Abrantes ouviu dos pescadores sobre como já estão se adaptando. Por exemplo, na pesca do atum, eles mudam de local dependendo do clima e tentam adaptar os equipamentos de pesca para capturar o peixe em profundidades maiores devido ao aquecimento das águas. “As adaptações às mudanças climáticas precisam vir das comunidades mais afetadas para serem realmente eficazes”, afirma o cientista pesqueiro.

“À medida que os oceanos mudam, nós também precisamos mudar”, resume Dias. “Os impactos serão distribuídos de forma desigual pelo mundo. Precisamos nos adaptar rapidamente e apoiar pescadores e pescadoras que estão na linha de frente”.

 

*Texto publicado originalmente em inglês, na Oceana Magazine de 2025.