Julho 9, 2026
O peixe que eu consumo é uma fraude?
Por: Oceana
O TEMA: Transparência
Consumidores de pescado em todo o mundo são vítimas de uma trapaça praticamente invisível. Afinal, você tem certeza de que o peixe que comprou foi exatamente o que te entregaram na última ida ao mercado? Ou como pescaram o camarão daquele restaurante que você adora? A ampla diversidade de espécies e as dificuldades em rastrear devidamente a cadeia produtiva resultam em fraudes. Nesta edição de Mar Aberto: especialistas respondem, a diretora de campanhas e cientista sênior da Oceana, Max Valentine*, explica como isso acontece, os efeitos para o consumidor e, principalmente, o que vem sendo feito para minimizar esse problema global.

É provável que você já tenha consumido algum pescado que não era exatamente o que você acreditava ser. O peixe no seu prato pode ter levado uma vida mais complicada do que a maioria dos espiões internacionais. Antes de chiar na frigideira ou ser colocado nos seus sushis, ele pode ter cruzado oceanos, trocado de identidade mais de uma vez e passado por uma série de intermediários que não saberiam diferenciar uma garoupa de um peixe de aquário.
Quando já está servido, no prato, até mesmo especialistas podem ter dificuldade em dizer de onde o pescado veio, ou se foi capturado legalmente. Investigações recentes mostraram que o peixe do seu restaurante ou supermercado favorito pode estar rotulado incorretamente.
A fraude no pescado é um problema surpreendentemente comum, e não se trata apenas de uns filés mal rotulados. Algumas substituições são golpes econômicos que levam os clientes a pagarem preços altos por peixes mais baratos. Outras são mais graves: peixes rotulados incorretamente podem expor os consumidores a substâncias alergênicas, toxinas ou até mesmo espécies ameaçadas de extinção. Por exemplo, o peixe-prego, que costuma ser vendido como atum ou bacalhau, é conhecido por causar problemas digestivos.
Ao mesmo tempo, se os pescados não forem manuseados corretamente, podem causar doenças. Só nos Estados Unidos, cerca de 260 mil pessoas adoecem a cada ano por causa de peixes contaminados, que são a categoria de alimento mais comumente responsável por surtos de doenças de origem alimentar.
Parte do problema é que as cadeias de abastecimento do pescado são longas, sinuosas e, em grande parte, invisíveis ao consumidor. O peixe pode ser capturado em um país, processado em outro, embalado em um terceiro e enviado para o outro lado do mundo antes mesmo de chegar à prateleira do supermercado. Depois de ter a pele retirada, ser filetado e congelado, ele perde a maioria das características de identificação. Então, a menos que você esteja disposto a fazer um teste de DNA no seu jantar, não há maneira fácil de saber se está recebendo o que comprou.
Essas cadeias obscuras não apenas permitem a rotulagem incorreta, mas também criam uma oportunidade para a expansão das operações de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada. Com pouco risco de serem descobertos, atores inescrupulosos podem misturar peixes capturados ilegalmente ao mercado legítimo, incluindo aqueles provenientes de áreas protegidas ou oriundos de trabalho análogo à escravidão. Isso abre as portas para fraudes generalizadas no setor de pescado, onde as espécies são intencionalmente adulteradas para aumentar os lucros ou burlar as restrições comerciais. Sem normas rigorosas de rastreabilidade, torna-se quase impossível verificar onde, como e por quem um peixe foi capturado. Essa falta de responsabilização coloca os consumidores em risco, prejudica a pesca sustentável, ameaça os ecossistemas marinhos e deixa os produtores éticos em desvantagem.
Mas, vale ressaltar que nem tudo está perdido. No mundo todo, os principais mercados estão desenvolvendo novas regulamentações e tecnologias para dar mais transparência ao setor, como sistemas de rastreabilidade digital, acesso à internet para pescadores, monitoramento eletrônico e rastreamento de embarcações. Os testes de DNA também estão se tornando mais acessíveis e precisos.
Mas as mudanças políticas levam tempo e, enquanto isso, você pode fazer a diferença. Comece perguntando. Antes de fazer um pedido ou colocar um filé de peixe no seu carrinho de supermercado, pergunte ao garçom ou à pessoa no balcão: “de onde vem esse peixe?” ou “ele é pescado na natureza ou vem da aquicultura?” Se o vendedor não souber responder, talvez seja melhor escolher outra coisa. Prefira varejistas e restaurantes confiáveis, que priorizem a rastreabilidade.
Sim, o peixe que você consome pode ser fraudado. Mas a maré está mudando. À medida que os consumidores se tornam mais informados e engajados, também aumenta a pressão sobre o setor de pescado para que ele se modernize. Quanto mais exigirmos transparência e rastreabilidade, mais difícil será para pescadores ilegais e fraudadores operarem na surdina. Até lá, um pouco de cautela e escolhas mais conscientes podem ajudar a garantir que seu próximo jantar com pescados seja, de fato, autêntico.
*Artigo de Max Valentine, publicado originalmente em inglês.