O que é o plâncton e como esses seres dominam o mar? - Oceana Brasil
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Fevereiro 26, 2026

O que é o plâncton e como esses seres dominam o mar?

Por: Oceana

O TEMA: 

Plânctons: pequenos seres que afetam toda a vida marinha e a saúde dos oceanos. Foto: Getty Images

 

Um famoso vilão na história dos desenhos animados é o “Plankton”, de Bob Esponja Calça Quadrada, conhecido pela sua personalidade astuta e megalomaníaca. Na vida real, no entanto, os plânctons são verdadeiros heróis dos ecossistemas, já que estão na base da cadeia alimentar marinha e produzem metade do oxigênio do planeta.  

Nesta edição de Mar Aberto: especialistas respondem, Daniel Pauly*, cientista pesqueiro, fundador e diretor do projeto Sea Around Us e membro do Conselho Diretor da Oceana, explica como esses pequenos seres afetam a vida dos animais marinhos e a saúde dos oceanos. 

 

Dr. Daniel Pauly, cientista pesqueiro

O evolucionista alemão Ernst Haeckel (1834-1919) ficou famoso por suas ilustrações conhecidas como “Formas de Arte na Natureza”, uma série de delicados desenhos das algas microscópicas que vivem no mar. Mas é outro alemão, Victor Hensen (1835-1924), quem pode ser considerado o verdadeiro descobridor do plâncton. Em várias expedições no Atlântico Norte, ele identificou e mapeou pequenas algas e animais que eram levados à deriva pela água, aos quais nomeou com a palavra grega que significa “errante”. 

Hensen descobriu padrões previsíveis na abundância média de plâncton em diferentes regiões do Atlântico Norte e também identificou o fitoplâncton, ou “plâncton vegetal”, como o primeiro elo das cadeias alimentares marinhas, e o zooplâncton, que se alimenta do fitoplâncton, como o segundo. O zooplâncton inclui as águas-vivas, o krill e outros animais que derivam com as correntes marinhas, ao invés de nadar ativamente. 

O trabalho de Hensen foi um grande feito conceitual, mas Ernst Haeckel discordou. Ele havia estudado formas belas e bizarras de algas microscópicas por 30 anos e não acreditava que médias e outros artifícios aritméticos (sem falar em cálculos mais sofisticados) pudessem ser usados para descrever a maravilhosa diversidade desses seres. 

Hoje se sabe que a matemática pode e deve ser aplicada ao estudo do fitoplâncton e do zooplâncton. Na verdade, agora é possível até mesmo mapear a distribuição dos fitoplânctons a partir de satélites, já que eles alteram a cor do oceano, tornando possível relacionar a intensidade dessa coloração à abundância desses organismos. 

Essa informação pode ser usada para estimar a “produção primária”, ou seja, a geração de matéria viva a partir de água, oxigênio, dióxido de carbono, nutrientes como nitrogênio e fósforo, e a energia solar. O fitoplâncton marinho, portanto, funciona como as gramíneas em terra e produz cerca de metade do oxigênio que respiramos. 

Dados de satélite ajudaram a confirmar a hipótese de Hensen de que o fitoplâncton forma a base da maioria das cadeias alimentares marinhas (e de água doce). E podemos observar isso também em estudos de pesca, que indicam uma captura maior de peixes em áreas costeiras, onde tem maior abundância de plânctons, do que em mar aberto. 

Como todas as plantas, o fitoplâncton precisa de fertilizantes como ferro, nitrogênio e outros nutrientes. No mar, esses elementos essenciais geralmente estão em águas mais profundas, já que plantas e animais marinhos costumam afundar quando morrem. À medida que as mudanças climáticas aquecem a água da superfície, ela se expande e se torna mais leve, dificultando o processo de se misturar com águas mais densas e profundas. Esse fenômeno, conhecido como “estratificação”, é a razão pela qual as gigantes correntes oceânicas, conhecidas como giros oceânicos, que são pobres em plânctons e semelhantes a desertos, estão se expandindo atualmente. 

Ao longo da costa, por outro lado, a produção primária costuma ser abundante e, por vezes, excessiva. Isso se deve principalmente ao escoamento de fertilizantes agrícolas e outros compostos ricos em nutrientes que são levados da terra para o mar, gerando grandes florações de fitoplânctons, que crescem tão rapidamente que os zooplânctons não dão conta de consumi-los. Ao morrer, o fitoplâncton afunda e é consumido por bactérias, que sugam todo o oxigênio da coluna d’água, criando uma “zona morta” onde peixes, caranguejos, mexilhões e outros animais acabam morrendo sufocados. 

Todos os verões, uma enorme zona morta surge no Golfo do México, na foz do Rio Mississippi, e drena o escoamento agrícola de todo o Meio-Oeste dos Estados Unidos. Outra zona morta ocorre ao longo do litoral do Oregon, naquele mesmo país. Atualmente, existem cerca de 500 zonas mortas no mundo, e seu número e tamanho estão aumentando. 

O plâncton pode ser pequeno, até microscópico, mas impulsiona sistemas tão imensos quanto o mar. Há uma lição nisso. 

 

*Artigo de Daniel Pauly, originalmente publicado na Oceana Magazine de 2017 e novamente em 2024, na publicação Pergunte ao Dr. Pauly: Respostas para a conservação dos oceanos (em tradução livre, disponível em inglês).