O que o DNA pode nos revelar sobre os oceanos?  - Oceana Brasil
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Março 17, 2026

O que o DNA pode nos revelar sobre os oceanos? 

Por: Oceana

DNA ambiental encontrado durante recentes expedições da Oceana às Ilhas do Canal da Califórnia revela informações sobre a profunda interconexão dos ecossistemas marinhos. Foto: Oceana/Danny Ocampo

 

Novas tecnologias, técnicas e pesquisas transformam a forma como compreendemos o mundo – e o oceano não é exceção. Estudos recentes têm analisado o material genético presente na água do mar e podem revolucionar o que sabemos sobre esse ambiente e como protegê-lo. Nesta edição de Mar Aberto: especialistas respondem, a cientista pesqueira Caitlynn Birch*, que lidera campanhas da Oceana na Costa Oeste dos Estados Unidos, nos conta o que o DNA ambiental encontrado durante recentes expedições às Ilhas do Canal da Califórnia revela sobre a profunda interconexão dos ecossistemas marinhos.  

 

Caitlynn Birch, cientista pesqueira da Oceana nos Estados Unidos

Quando as pessoas imaginam estudar a vida marinha, geralmente pensam em mergulhadores nadando ao lado de cardumes de peixes ou em cientistas marcando cuidadosamente leões-marinhos e tubarões. Esses métodos são importantes, mas hoje também temos uma nova e poderosa ferramenta para entender os ecossistemas marinhos: analisar fragmentos invisíveis de DNA que flutuam na água. 

Isso é chamado de DNA ambiental (eDNA). Todo ser vivo libera DNA em seu ambiente – por meio de células da pele, muco, excreções ou material reprodutivo. No oceano, esses minúsculos fragmentos genéticos flutuam na coluna d’água. Ao coletar e analisar apenas um litro de água do mar, podemos capturar vestígios de dezenas, às vezes centenas, de espécies que passaram recentemente por aquela área. 

Nos Estados Unidos, a Bacia da Califórnia do Sul – que se estende de Point Conception, acima de Santa Barbara, até a fronteira com o México – representa uma das ecorregiões marinhas mais singulares do mundo. Ali, nas Ilhas do Canal, onde a Oceana, em parceria com a Blancpain, vem realizando expedições de pesquisa para caracterizar a biodiversidade marinha, o eDNA se tornou um divisor de águas. Essas ilhas e as águas ao seu redor são um dos principais hotspots de biodiversidade da Califórnia, abrigando florestas de kelp, recifes rochosos, corais de águas frias, áreas onde as aves marinhas fazem seus ninhos, rotas migratórias de baleias e golfinhos e berçários de tubarões. 

Tradicionalmente, documentar essa abundância de vida significava mergulhar com pranchetas ou instalar câmeras no fundo do mar. Esses métodos ainda são essenciais – e têm sido usados junto com a coleta de eDNA –, mas podem deixar de registrar espécies mais quietas, discretas, muito pequenas ou raras, que nem sempre aparecem quando os mergulhadores estão observando. Já o DNA ambiental nos oferece uma nova perspectiva. 

Veja como funciona: em um mergulho ou do convés de um barco, coletamos amostras de água do mar em diferentes pontos ao redor das ilhas. Filtramos as amostras e as levamos de volta ao laboratório, onde extraímos o DNA e o sequenciamos. Ferramentas computacionais sofisticadas comparam essas sequências com espécies registradas em bancos de dados genéticos de referência. Em poucas semanas podemos gerar um retrato da biodiversidade que nos diz quais peixes, invertebrados, mamíferos marinhos e até micro-organismos estavam presentes naquelas águas. 

Uma das coisas mais empolgantes sobre o eDNA é a sua sensibilidade. Detectamos espécies raras e difíceis de registrar, que talvez nunca encontrássemos em um levantamento com mergulho autônomo. Descobrimos o DNA de certos tubarões e raias, como o tubarão-chifre e o cação-anjo-do-Pacífico, que só passam ocasionalmente ou permanecem bem camuflados no fundo arenoso ou em recifes rochosos. Encontramos DNA de organismos microscópicos e captamos sinais de animais altamente móveis, como cetáceos ou pinípedes, que um mergulhador poderia facilmente não perceber. 

Essas descobertas são importantes para a conservação marinha. Ao combinar dados de eDNA com levantamentos tradicionais por mergulho autônomo, podemos entender melhor como as áreas marinhas ao redor das Ilhas do Canal da Califórnia se comportam. Podemos aprender onde as espécies prosperam e onde declinam, reunir dados sobre como as comunidades marinhas variam por estação e profundidade e, ainda, compreender melhor como influências humanas, como a pesca ou as mudanças climáticas, podem estar alterando as distribuições ao longo do tempo. Isso ajuda tanto gestores da pesca como defensores da conservação a tomarem decisões mais informadas sobre a proteção de habitats, da vida selvagem e dos valiosos recursos marinhos. 

Além da Califórnia, cientistas já estão usando eDNA em todo o mundo: desde o monitoramento de peixes-serra ameaçados na Flórida, passando pelo rastreamento de espécies invasoras em rios europeus, até o mapeamento da biodiversidade em recifes de coral no Pacífico. À medida que a tecnologia avança, o eDNA permitirá detectar não apenas quais espécies estão presentes, como também revelar sinais precoces de surtos de doenças e melhorar as avaliações de estoques pesqueiros. 

Na minha visão, o eDNA demonstra de forma poderosa a profunda interconexão dos ecossistemas marinhos, revelando sinais de espécies cujas interações ainda estamos começando a entender. Mesmo quando não conseguimos ver um animal, seus vestígios genéticos estão ali, carregados pelas correntes. Cada gota de água do mar contém uma história sobre a vida sob a superfície – histórias que estamos apenas começando a decifrar. 
 

*Artigo de Caitlynn Birch, originalmente publicado em inglês.