Janeiro 6, 2026
O que são ondas de calor marinhas?
Por: Oceana
O TEMA:
Provavelmente, você já experienciou um período de calor extremo e incomum, fora de época. Essas ondas de calor acontecem em terra e nos oceanos, porém, com escalas e efeitos distintos.
Apesar do desconforto, em geral, os seres humanos e outros animais terrestres são mais tolerantes e capazes de se adaptar aos calorões, enquanto as espécies aquáticas sofrem de forma bem mais acentuada. Os impactos deste fenômeno e como eles acontecem no ambiente marinho são explicados, nesta edição da série Mar aberto: especialistas respondem, pelo cientista pesqueiro Daniel Pauly*, fundador e diretor do projeto Sea Around Us e membro do Conselho Diretor da Oceana.

Ondas de calor marinhas são o que você está pensando: períodos de temperatura bem acima do nível esperado para a estação, que duram um determinado tempo. Se a temperatura da água ao longo da costa estiver, por exemplo, de 3 a 5 graus Celsius acima do esperado por um período de uma ou duas semanas, temos uma onda de calor marinha.
Geralmente, suas consequências costumam ser muito maiores do que as de uma onda de calor em terra. Isso ocorre porque a maioria dos animais terrestres, incluindo os seres humanos, está acostumada a uma faixa de temperaturas mais ampla do que os animais marinhos. Além disso, muitos destes já vivem em temperaturas próximas à máxima que podem tolerar. Mas as ondas de calor marinhas não são como as terrestres. Elas são o equivalente marinho dos incêndios florestais.
A maioria dos animais marinhos e de água doce respira água, que, diferentemente do ar, contém menos de 1% de oxigênio. Isso é menos oxigênio do que há no topo do Monte Everest. O aumento da temperatura agrava essa situação, pois a água aquecida contém ainda menos oxigênio dissolvido do que a água fria (veja a linha azul A, na figura abaixo).
A maioria desses animais, incluindo peixes, lagostas e lulas, tolera uma variação de temperaturas, mas sua respiração é afetada. Eles precisam de muito mais oxigênio em altas temperaturas (veja a linha vermelha B, na figura abaixo). Isso ocorre porque sua temperatura corporal também aumenta, o que leva à “desnaturação” (ou seja, desintegração) das proteínas que compõem seus tecidos e à necessidade de substituí-las.[1]

Portanto, quando uma onda de calor marinha atinge peixes e outros animais que respiram água, eles precisam de mais oxigênio do que a água ao redor deles contém. Eles tentam escapar, assim como os animais em uma floresta fugiriam de um incêndio, mas não conseguem e, após algumas horas ou dias, morrem.
As ondas de calor marinhas estão se tornando mais frequentes; foram documentadas na costa oeste dos Estados Unidos e do Canadá do final de 2013 ao início de 2016 (os anos da “Bolha”, uma enorme massa de água quente)[2], e no oeste da Austrália de dezembro de 2020 a janeiro de 2021[3]. Mais uma vez, em junho de 2021[4], essas ondas de calor marinhas atingiram a costa oeste dos Estados Unidos e do Canadá, onde se podia sentir, durante dias, o odor de cerca de um bilhão de animais costeiros em decomposição, principalmente mariscos, mexilhões e estrelas-do-mar, na costa da Colúmbia Britânica[5].
Ondas de calor e eventos de baixa oxigenação que matam peixes são ainda mais frequentes em águas doces, tanto que, nos Estados Unidos, os órgãos responsáveis pela Pesca e Vida Selvagem de vários estados forneceram guias práticos às suas equipes e de campo. Esses guias afirmam que, se houver grandes peixes mortos, por exemplo, em um pequeno lago, é possível supor que morreram por falta de oxigênio, ou “hipóxia” (geralmente causada por temperaturas altas fora de época). Por outro lado, se os peixes mortos forem predominantemente pequenos, é provável que a causa seja um veneno, como um inseticida[6].
A razão para que peixes maiores, mais velhos, assim como invertebrados sejam mais suscetíveis a baixos níveis de oxigênio se dá pelo fato de que esses indivíduos têm menor área branquial (ou seja, área respiratória) por peso corporal do que os peixes jovens e menores.
Portanto, indivíduos pequenos sobrevivem por mais tempo quando o oxigênio diminui e/ou as temperaturas aumentam. No entanto, as ondas de calor marinhas podem durar tempo suficiente e serem quentes o bastante para tornar irrelevantes os diferentes níveis de suscetibilidade entre pequenos e grandes animais aquáticos. Ou seja, todos morrerão.
As ondas de calor marinhas e suas equivalentes de água doce estão se tornando mais frequentes e, se nossas emissões de gases de efeito estufa continuarem aumentando, elas também aumentarão em intensidade e duração. Essas ondas de calor são uma janela para o nosso futuro, assim como os incêndios florestais. Se queremos oceanos vibrantes e cheios de vida, precisamos participar da luta para zerar as emissões de gases de efeito estufa.
* Artigo de Daniel Pauly, originalmente publicado na Oceana Magazine de 2023, e republicado em 2024, na publicação Pergunte ao Dr. Pauly: Respostas para a conservação dos oceanos (em tradução livre, disponível em inglês).
Referências:
[1] Müller, J., N. Houben e D. Pauly. 2023. On being the wrong size: what is the role of body size in fish kills and hypoxia exposure? Environmental Biology of Fishes, https://doi.org/10.1007/s10641-023-01442-w
[2] https://www.fisheries.noaa.gov/feature-story/new-marine-heatwave-emerges-west-coast-resembles-blob
[3] https://climateextremes.org.au/marine-heatwave-in-western-australia-december-2020-and-january-2021/#:~:text=Temperatures%20reached%20 2%2D3%E2%88%98,fisheries%20may%20yet%20be%20felt.
[4] https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abm6860
[5] https://www.theatlantic.com/science/archive/2021/12/extreme-heat-baking-sea-animals-alive/620904/
[6] Müller, J., N. Houben e D. Pauly. 2023. On being the wrong size: what is the role of body size in fish kills and hypoxia exposure? Environmental Biology of Fishes, https://doi.org/10.1007/s10641-023-01442-w
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