“É a coexistência entre espécies que garante a saúde do ambiente marinho-costeiro, das comunidades pesqueiras e da própria população” - Oceana Brasil
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Agosto 21, 2026

“É a coexistência entre espécies que garante a saúde do ambiente marinho-costeiro, das comunidades pesqueiras e da própria população”

“Se formos ter a toninha como uma espécie-bandeira, os pescadores serão seus verdadeiros protetores”, explica o biólogo Federico Sucunza. Foto: Lilian Maus

 

Na região Sul do país, um projeto inovador tem incentivado uma nova forma de relação entre pescadores e toninhas – uma espécie de golfinho que só ocorre no litoral do Brasil, do Uruguai e da Argentina, que se encontra criticamente ameaçada de extinção.

Hoje, o principal fator que contribui para essa grave situação é a pesca incidental por redes de emalhe: o pescador lança a rede para capturar outras espécies, como a corvina ou o linguado, mas acaba prendendo também esses pequenos mamíferos, o que resulta em ferimentos, afogamentos e na morte de dezenas de animais todos os anos.

Federico Sucunza é biólogo, doutor em Biodiversidade e Conservação da Natureza pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (Gemars). Ao longo de sua carreira, ele tem se dedicado a analisar a fauna marinha, especialmente cetáceos, como a toninha. Com monitoramento aéreo, por exemplo, ele consegue acompanhar essas populações, estimando sua abundância e até mesmo como se relacionam com as atividades de pesca.

E foi por acreditar em uma coexistência sadia entre pescadores e as espécies marinhas que ele resolveu testar um novo modelo de mitigação dessas capturas, onde resíduo plástico é transformado em solução ambiental, graças ao apoio e ao conhecimento tradicional das comunidades pesqueiras aliados às pesquisas científicas. É esse o tema desta edição da Oceana Entrevista, que aponta caminhos e novos olhares sobre a conservação dessa espécie.

 

Federico, você atua com cetáceos há muitos anos, tendo a toninha como foco de alguns de seus projetos e pesquisas. Para começarmos o papo, gostaríamos que você “apresentasse” essa espécie para o público da Oceana.

Dentro do grupo dos cetáceos, temos a subordem dos odontocetos e dos misticetos; e dentro dos odontocetos, temos a família Pontoporiidae – da qual a toninha é o único representante atual. Então, isso já traz uma extrema relevância para a conservação dessa espécie, a Pontoporia blainvillei, pela manutenção de uma linhagem evolutiva que tem milhões de anos.

A toninha é endêmica do Brasil, Uruguai e Argentina, ocorrendo do Espírito Santo até a região do Chubut, na Argentina. Atualmente, são reconhecidas 11 populações da espécie, distribuídas nas chamadas FMAs – da sigla em inglês para Franciscan Management Areas. Há, inclusive, na primeira região (entre o Espírito Santo e o Rio de Janeiro), uma subespécie reconhecida, que é a Pontoporia blainvillei pukusi.

Essa distribuição da toninha é estritamente costeira, pegando algumas regiões estuarinas e baías, como a Baía da Babitonga [SC]. Ao longo da costa brasileira, desde o Espírito Santo até o Paraná e entrando um pouquinho em Santa Catarina, ela vai ocorrer até os 30 metros de profundidade e, a partir dali, seguindo mais para o sul, chega até os 50 metros de profundidade, podendo ser encontrada, ocasionalmente, em algumas áreas um pouco mais profundas.

Estudos apontam uma estimativa máxima de 21 anos de idade para a toninha, e ela pode chegar a um tamanho de, aproximadamente, 1,70 metro. Outra característica interessante é que as fêmeas são maiores que os machos, o que não é comum entre os mamíferos em geral.

E quanto ao comportamento, para quais características da toninha você chamaria atenção?

A toninha tende a não se aproximar muito de embarcações. Então, ela é considerada um golfinho um pouco tímido. Diferente de outros golfinhos, que realizam saltos e tudo, ela não tem comportamentos aéreos – já existem registros de saltos de toninha, mas o mais comum é que ela venha para a superfície respirar, tirando para fora da água uma parte do rostro bem alongado, tirando o orifício respiratório e a nadadeira dorsal, e já mergulhando novamente para o fundo.

Nesse sentido, algo interessante é que antes se imaginava a toninha como um animal muito mais lento e mais calmo. Mas realizamos alguns estudos utilizando helicóptero para ajustar os modelos de estimação de abundância, e começamos a ver que, na verdade, elas têm comportamentos bem complexos.

Diferentemente de muitas outras espécies de odontocetos, a toninha tem as vértebras cervicais não fusionadas [os ossos do “pescoço” não são unidos, permitindo o movimento], como nos seres humanos. Isso possibilita que ela mexa a cabeça. Quando fizemos esse levantamento aéreo conseguimos ver bem o movimento de cabeça dela, percebendo que ela consegue dobrar bem o corpo e fazer giros no próprio eixo de uma forma rápida.

Nós percebemos ali também um padrão nos mergulhos, quando estimamos o tempo que a toninha fica na superfície. Em um trabalho pioneiro sobre o comportamento dela, nós comparamos a proporção de tempo passado no fundo e na superfície em duas regiões bem distintas: Ubatuba, em São Paulo, e na Baía da Babitonga, em Santa Catarina. E quando se faz a média entre elas, é um tempo praticamente igual, nas duas regiões, o que pode demonstrar uma característica específica da espécie.

Outro ponto também é o cuidado maternal dos filhotes. As mães tendem a ficar próximas aos filhotes e eles delas. Com isso, a gente enxerga estruturas familiares em algum sentido: um filhote novo, um filhote mais velho, até a presença de um indivíduo adulto macho, que não se tem ainda muito claro se seria ajudando na guarda ou aguardando, de forma oportunística, aquela fêmea se tornar reprodutiva de novo. Mas, o que temos visto, de forma bem comum ao longo da distribuição da espécie, é essa formação de grupos, esse nado em conjunto.

Além disso, a toninha se alimenta de espécies de fundo, o que resulta na interação com as redes de emalhe de fundo.

Qual a importância delas para a nossa fauna marinha?

A toninha é um predador. Então, certamente, ela tem uma relevância na regulação da cadeia trófica e da manutenção do sistema como um todo. Mas, no meu ponto de vista, todas as espécies são relevantes e têm que ser consideradas como parte integrante do ambiente.

O ambiente saudável depende da existência de todas as espécies, incluindo o ser humano. É essa presença que torna o ambiente saudável e a manutenção dessa diversidade é fundamental para a saúde dos ecossistemas marinho-costeiros.

Apesar disso, elas estão em risco crítico de extinção, sendo o golfinho mais ameaçado da América do Sul – segundo dados do Gemars. Quais os principais perigos que a espécie enfrenta? Por que essa situação é tão grave?

A nível de Brasil, ela é considerada criticamente ameaçada. Na última revisão da lista de espécies ameaçadas de extinção, realizada pelo ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade], o boto-de-Lahille também entrou nessa categoria, compartilhando essa mesma situação ruim da toninha.

Cada vez mais, a degradação do ambiente costeiro – através da poluição química, da poluição sonora e da ocupação de habitat – vem prejudicando as populações da espécie. Vários estudos demonstram os altos níveis de poluentes nesses animais e isso, certamente, tem um impacto na situação de risco que eles enfrentam. Mas a principal ameaça para a conservação da espécie é a captura incidental em redes de pesca, isso para praticamente todas as populações.

Esses processos todos são cumulativos, mas também exercem uma pressão em sinergia.

Quais medidas o Brasil adota, como políticas públicas, para reduzir os impactos da pesca sobre as toninhas? Por que elas não têm sido suficientes?

Existem regramentos associados à pesca de emalhe, que é a principal atividade pesqueira que causa a captura incidental de toninhas. A Instrução Normativa Interministerial nº 12 de 2012 [INI12/2012] regulamenta essa modalidade de pesca, determinando comprimentos máximos de rede e tamanho máximo e mínimo de malha. E isso é um instrumento que contribui para a proteção da toninha. Existem também áreas de restrição pesqueira, diminuindo a pressão das distintas frotas de emalhe, e áreas de exclusão de pesca, que também vem reduzir esse impacto.

Mas existe uma questão sobre o quanto isso é efetivamente implementado. Não se tem muito claro o quanto que a INI12/2012 é seguida por todas as embarcações, por exemplo. E isso também ocorre com as áreas de restrição de pesca. Eu acredito que essas estratégias, sim, são válidas, e que, obviamente, novas estratégias também são necessárias – sem tirar o mérito das que existem hoje em dia. Mas um ponto anterior é entender melhor o quanto que existe de implementação efetiva das estratégias de gestão e manejo pesqueiro.

Dois homens mexem em uma rede de pesca com garrafas plásticas
Método de mitigação de captura incidental de toninhas está sendo desenvolvido com apoio dos pescadores. Foto: Acervo Pessoal/Federico Sucunza

Para ajudar a combater esse problema da captura incidental, você está desenvolvendo um projeto com o uso de garrafas plásticas. Explique essa ideia pra gente?

Nós começamos a testar o método de uso de garrafas plásticas para reduzir a captura incidental, entendendo como seria feito e desenvolvendo um modelo científico para isso. É um projeto desenvolvido em colaboração com pescadores, para que seja de baixo custo e isso, então, viabilize a implementação por eles mesmos.

A garrafa aqui serve como um dispositivo acústico passivo – e, na verdade, não é a garrafa em si, mas o ar dentro dela, que gera um eco. A toninha emite ondas sonoras, na chamada “ecolocalização”. Então, essa onda vai bater em um peixe, por exemplo, e voltar para a toninha, de modo que ela consegue detectar o peixe, decidindo se vai predar ou não esse indivíduo.

Mas quando a onda sonora bate em uma rede de pesca, o que volta para o animal é um eco fraco. E isso pode fazer com que a toninha não perceba a presença daquela rede ou não perceba que aquilo ali é um obstáculo intransponível.

Nas redes com garrafa, quando a onda sonora passa do meio aquoso para o meio gasoso, que é o ar dentro da garrafa, essa “batida” no ar faz com que a onda volte para a toninha de uma forma muito mais forte do que a que volta em relação à rede – conforme testes realizados em tanques.

Assim, nós começamos a testar a efetividade do uso dessas garrafas vazias (mas com ar dentro) em redes de emalhe. Nesses casos, adicionalmente, a pressão da coluna d’água faz com que a garrafa se deforme e cada uma tenha um formato diferente quando presa nas redes de fundo. O aumento da intensidade do eco, vamos dizer assim, somado a essa mudança no formato, faria com que a toninha detectasse melhor algo muito distinto do que ela está acostumada a perceber naquele ambiente. Isso, talvez, faça com que ela se aproxime com mais cautela e assim acabe evitando a rede.

E quais são os resultados até aqui?

Nós já temos as primeiras evidências de que, realmente, as toninhas estão se aproximando de redes com garrafas, mas não estão se emalhando.

Nós colocamos hidrofones presos em redes de emalhe e comparamos a taxa de detecção acústica das toninhas próximas às redes com garrafas e sem garrafas. O resultado foi praticamente o mesmo, ou seja, as toninhas estavam se aproximando das redes com garrafas assim como se aproximavam das redes sem garrafas. Mas tivemos uma redução de 88% na taxa de captura incidental quando usamos as garrafas plásticas, comprovando que está dando certo.

É um método muito simples e isso possibilita que não tenha risco físico para os pescadores. Não depende de ligar, desligar, de saber se está funcionando. O único fator que depende é ter ar dentro da garrafa, que precisa estar fechada e com a tampa. Caso contrário, vai ter água ali dentro – mas isso é algo simples de se perceber visualmente. E que não tem custo, já que é um lixo que poderia estar indo para o mar, entrando no ambiente e se dispersando ali. Mas está sendo reutilizado para reduzir a captura de uma espécie ameaçada.

Quais são os próximos passos para que o projeto seja implementado?

Ainda existem vários pontos em que precisamos avançar. O primeiro deles é que estamos desenvolvendo, em Torres [RS] e em Passo de Torres [SC], o uso de garrafas por toda a comunidade artesanal. Em função das características das embarcações, eles acabam pescando todos na mesma área. Então, estamos avaliando qual o efeito quando todos os pescadores usam as garrafas – se essa efetividade reduz ou se mantém. Se todos começarem a usar o mecanismo, isso vai fazer com que a toninha talvez entenda que isso é um padrão e vai começar a cair na rede novamente? Isso é um ponto importante que estamos avaliando.

Outro aspecto é escalonar para outras comunidades, ao longo do Brasil, Uruguai e Argentina, entendendo se, em outras condições oceanográficas e ambientais, isso vai influenciar a efetividade observada. E, também, outras magnitudes de pesca, pensando em um trabalho com a pesca industrial, porque ela exerce um esforço bem diferente do que ocorre na pesca artesanal. Então, é entender o quanto isso diferencia a operação desse ponto de vista da efetividade, para que o método siga sendo útil e fácil de usar para os pescadores. Embora existam capturas na pesca artesanal, e elas tenham que ser observadas e mitigadas, o impacto da pesca industrial é infinitamente maior. Por isso, esse é um passo também de extrema relevância quando a gente pensa na conservação da população e da espécie como um todo.

Você mencionou essa questão da poluição por plásticos, que é, hoje, a 2ª maior ameaça ambiental ao planeta, segundo a ONU. O Brasil, sozinho, despeja, anualmente, 1,3 milhão de toneladas de plástico no oceano. Quais as principais vantagens e riscos que o projeto pode oferecer nesse sentido?

Essa é uma preocupação de extrema relevância. Desde o início, no nosso projeto, tivemos isso como algo crucial e a colaboração dos pescadores foi fundamental para garantirmos que nenhuma garrafa fosse perdida.

As garrafas, obviamente, não ficam soltas no mar, mas presas às redes de pesca. Com o conhecimento dos pescadores, foram desenvolvidos nós para garantir a fixação das garradas nas redes, sem que elas se soltem. E isso nos trouxe a tranquilidade de não estar contribuindo para a poluição marinha por plástico.

Claro que isso depende de monitoramento e depende do engajamento dos pescadores para garantir que isso se mantenha, se formos pensar em larga escala. Mas é muito importante a gente não colocar a poluição por plástico na conta do pescador.

Existem grandes indústrias que são as maiores responsáveis pela real poluição. Então, imaginar que a gente está gerando poluição por colocar uma garrafinha plástica numa rede de pesca, seria trazer um olhar para o pescador, para a atividade pesqueira, que é um pouco injusto. Porque aquilo ali é um método de mitigação. E existem formas de garantir que aquele plástico não vá se soltar.

A magnitude da poluição por plástico no mundo é algo extremamente grande. Eu estive na África, recentemente, e a gente vê praias de plástico. Isso é sobre a quantidade de lixo que é produzida, que ocorre em função de uma indústria muito bem aparelhada, que garante a entrada do plástico na sociedade, que não consegue fazer a destinação correta e, em função disso, esse material acaba chegando no ambiente marinho. Esse, sim, é o problema do plástico, e não o uso de garrafinhas para mitigar a captura incidental de golfinhos, né?

Você acredita que a pesca e a proteção das toninhas podem coexistir? De que modo isso seria possível?

Eu tenho total clareza que isso é possível. E isso é o meu motivador, a nível de pesquisa e de conservação. Como uma pessoa que trabalha com conservação há alguns anos, eu tenho total clareza que isso existe, que isso é possível.

Quando a gente pensa em coexistência, é difícil pensar exclusivamente duas espécies. A coexistência tem que ser em um âmbito maior, onde o pescador interage com toda uma diversidade biológica, que também está interagindo com esse pescador, e é essa coexistência, na verdade, que garante a saúde do ambiente marinho-costeiro, a saúde das comunidades pesqueiras e a própria saúde da população – entendendo o peixe como uma fonte de proteína e de nutrientes de alta riqueza.

Acho que o projeto com o uso das garrafas é um passo importante como estratégia de mitigação. Tem possibilitado, ao menos aqui na comunidade que a gente trabalha, que o pescador se veja como agente de conservação e não mais como aquela pessoa que está indo lá, pescando, mas que também está capturando toninha. Como se ele fosse o único culpado para que a espécie entre em extinção.

A partir do momento em que o pescador começa a se tornar um agente de proteção, isso é algo muito significativo para ele. Nas conversas e reuniões que tenho com eles, percebo que tem algo sendo construído em conjunto – nós pensamos a forma de uso, as estratégias e a coleta de dados coletivamente. Entendendo os gargalos, os motivos, as possibilidades de teste. E tudo isso vem contribuindo para a percepção de que eles podem contribuir na conservação, que ela não é só coisa de biólogos. Eles estão ali, desenvolvendo suas atividades de extração no ambiente marinho, mas com um poder muito grande de contribuir, porque eles são extremamente dependentes da saúde desses ambientes.

Se pensarmos em um ambiente totalmente poluído, com peixes com alto nível de contaminante, com a água poluída, o pescador vai ser diretamente impactado. Então, essa mudança de percepção aqui na comunidade me dá ainda mais clareza de que a coexistência entre pescador e diversidade marinha não só é possível, como é necessária e, eu diria, até fundamental.

E se formos ter a toninha como uma espécie-bandeira disso, eles serão os verdadeiros protetores da toninha.

Três toninhas (Pontoporia blainvillei) nadando
Encontrada apenas na região leste da América do Sul, a toninha está criticamente em perigo de extinção. Foto: Gemars/Federico Sucunza