Junho 26, 2026
“O Congresso precisa se despertar nesse momento, porque o mundo está indo por água abaixo”
Por: Oceana
O TEMA: Proteger habitats
João Gonçalves de Santana, o João Barba, nasceu na comunidade quilombola e ribeirinha de Campinhos, em Canavieiras, no sul da Bahia. Pescador artesanal e filho de pescadores, ele logo se estabeleceu como importante liderança na região: foi um dos fundadores da Reserva Extrativista (Resex) de Canavieiras, é coordenador da Associação Mãe dos Pescadores Extrativistas de Canavieiras (Amex). Também foi coordenador estadual da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e dos Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem). O rosto de João Barba estampou até dinheiro: ele foi uma das faces da moex, a moeda criada e utilizada por pescadores e marisqueiros da cidade durante anos.
Comemorando 20 anos de sua criação neste mês de junho, a Resex Canavieiras é composta por uma área de mais de 100 mil hectares de bioma costeiro marinho, incluindo uma extensa região de mangues – que João Barba conhece como ninguém. Ele é o nosso entrevistado nesta edição de Oceana Entrevista, que celebra o Dia do Pescador e da Pescadora (29/6), honrando esses profissionais que movimentam comunidades inteiras e ajudam a levar comida saudável para o prato de toda a população.
Queria começar voltando no tempo e falando da criação da Resex de Canavieiras, 20 anos atrás. Qual era a intenção de vocês?
Nenhuma. A gente tinha a visão de criar uma associação, como foi criada, mas ninguém sabia que existia Resex, em nenhuma das comunidades – de Ravela, Campinho, Atalaia, Puxim, Oiticica, Puxim da Praia, Pedra de Una, Belmonte, ninguém sabia. O relato é de que uma mulher, chamada Vilma Xavier, morava no bairro Biridiba e fez esse pedido por conta de uma situação que estava acontecendo no manguezal: o pessoal cavava muito o mangue tirando as lambretas [marisco comum na região] e as puãs [pinças] dos caranguejos, porque vendia mais caro, e depois largava os bichinhos sem puã pra ir embora. Então ela conversou com um sociólogo, que contou que já existiam locais com reserva extrativista e que poderíamos criar uma aqui. Foi quando começou. Na primeira reunião, em 1999, foi vereador, prefeito, funcionário público – todos achando que aquilo ia gerar dinheiro para a prefeitura. Quando viram que não era isso, o que fizeram? Deixaram o menino na incubadora.
Depois apareceu o pessoal do Pangea [Centro de Estudos Socioambientais Pangea, organização da sociedade civil baiana] aqui para fazer um levantamento da praia. Nós acompanhamos tudo, tiveram várias reuniões e oficinas para verificar se a área estava protegida e se valeria a pena criar a Resex. Quando fizeram o levantamento, foi perfeito! Foi aí que demos continuidade, conversamos com a ministra Marina Silva [então responsável pela pasta do Meio Ambiente] e o decreto veio em 5 de junho de 2006.
Quando foi 2007, 2008, nós começamos a movimentar e todos vieram para cima da gente. Colocaram 8 mil pessoas na entrada da cidade para dissolver a Resex, porque acreditavam que ela ia tirar todos os empreendimentos daqui. Não tinha onde se segurar, porque era a cidade em peso contra nosso trabalho: políticos, igrejas, empresários, até uns gringos, todos tentando desconstruir as informações que a gente levava para as reuniões e impedindo a formação do Conselho [da Resex]. Mas tinha um pessoal da Polícia Federal filmando tudo e nós levamos isso para a Promotoria Pública de Ilhéus. Então foi só depois, com apoio do Ministério Público Federal, que nós conseguimos. Com isso construído, a gente se perguntava: e agora, depois do filho feito, como é que vai vestir esse menino? Como que vai criar? Mas Deus foi encaminhando as coisas e mostrando como que a gente poderia caminhar.
Conseguimos, por exemplo, um benefício da SOS Mata Atlântica [organização não-governamental] que fez todo o diagnóstico da comunidade para saber o que se pescava, quanto gastava, a qual distância, quais eram as pessoas envolvidas. Um levantamento mais completo mesmo. E depois desse diagnóstico, começamos a buscar as políticas públicas.
E nesses 20 anos, o que mudou?
Tudo. Mudou, primeiro, a nossa liberdade. E a nossa voz. Nós éramos engasgados, não conseguíamos conversar com o Estado brasileiro, não tínhamos conhecimento. De 2008 para cá, passamos a ter conhecimento sobre a realidade das políticas públicas, que a gente tinha direito e não sabia. E nos capacitamos em cima disso.
Então, a nossa vida mudou em um estalar de dedos – porque 20 anos é um estalar de dedos para nós. Canavieiras tem 130 e poucos anos de emancipação e, com 20 anos, nós estamos assim, com mais acesso à educação, à saúde e às políticas públicas. A Amex e a Rede de Mulheres Extrativistas, junto com o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão do governo federal responsável pela proteção das Reservas Extrativistas brasileiras], têm esse cuidado com esse povo.
Outra coisa que mudou bastante foi o olhar da gestão pública de Canavieiras. Antes eles tinham um olhar de raiva, de perversidade com a gente; não se sentavam, não ouviam nada que quiséssemos construir junto com eles. Hoje isso tudo mudou.
E quais são os principais desafios que a sua comunidade enfrenta hoje, especialmente em relação à pesca?
É na destruição dos nossos estuários. Esse é um desafio grande! Porque quando você tem um brejo saudável, uma nascente saudável e o mangue com tudo perfeito, você está bacana. Mas quando você tem toda essa mata ciliar destruída, toda a água do brejo sendo escoada para criação de gado, aí não, né? Essas árvores têm tanta água que elas sustentam a terra! E os caras jogam veneno nessa região toda para matar as árvores. Esse agrotóxico vem para dentro do estuário.
A poluição, sobretudo por plásticos, também é um problema aqui na Resex?
Muito! Não só para nós, como para o mundo todo. O Estado brasileiro tinha que transformar as indústrias que fabricam plástico. Se tiver coerência com o que é saúde, talvez vá minimizando. Não é dizer assim: “tem que acabar com tudo agora”, mas colocar um prazo para isso ir diminuindo. Essa decisão está no poder do Estado brasileiro.
Você é pescador, filho de pescadores, liderança e símbolo de uma comunidade extrativista reconhecida como um bom exemplo – tanto do ponto de vista da preservação ambiental quanto da participação social. Como você vê o futuro da pesca? Quais as lutas que a juventude ainda precisa travar?
Os jovens podem ingressar junto com a gente para minimizar os danos ao meio ambiente. Isso é um desafio, porque, na nossa época, a gente tinha aquele amor pelo meio ambiente – tanto que, até hoje, nós lutamos. Mas essa não é a visão do jovem de hoje. Não é radicalizando, mas, em geral, a juventude não pensa em preservar para que, lá na frente, tenha um futuro melhor.
E o que pode ser feito em cima disso? Mobilizar a juventude. Levar para dentro dos colégios. Eu sei que meio ambiente e política não se fala em colégio, nunca vi se discutir isso. Passa em televisão, mas é um segundo e pronto. Mas é preciso levar essa discussão para dentro, desde quem está no prézinho ainda, entendendo como que se pode cuidar desse ambiente. Isso aí pode salvar o mundo.
É preciso fazer parceria com as universidades também, porque elas também pecam quanto a isso. Faz pesquisa, mas não mostra como deve mostrar: o que é uma água de qualidade, o que é uma mata de qualidade?
Quem já está formado, já está de cabelo branco, talvez não tenha essa visão que nós temos. Mas se o Estado brasileiro quiser, ele faz isso acontecer. Para não ter, inclusive, que gastar com tanta doença que o plástico está trazendo. O pior câncer da face da Terra é o tanto de plástico que tem no mundo.
Você participou da construção da Nova Lei da Pesca, que hoje está tramitando no Congresso Nacional com o Projeto de Lei 4789/2024. Ele é resultado de um trabalho realizado por lideranças artesanais e, depois colocado à mesa com a pesca industrial, para se apresentar uma proposta conjunta. Qual é a importância desse processo? Na prática, vocês se sentem ouvidos pelos governos e pelos órgãos responsáveis pela gestão da pesca?
Eu entendo que sim, porque só de termos a oportunidade que a Oceana nos trouxe de sentar com as comunidades e trabalhar por uma lei que vai contribuir com a pesca artesanal e toda a classe pescadora, isso já é um ganho!
Pode ser que agora isso passe lá na Câmara [dos Deputados]. E eu espero em Deus que sim, porque têm muitos homens de boa vontade ali dentro do Congresso. E eles precisam se despertar nesse momento, porque o mundo está indo por água abaixo. Eles devem passar isso para a frente, porque seja quem for o próximo presidente, se ele tiver um povo saudável, vai economizar no bolso! Mas se tiver gente doente, aí só vai ter que gastar mesmo, porque a culpa não vem de quem está aqui, mas de quem está lá com o recurso na mão – que são os representantes do governo brasileiro. O que nós temos para sobreviver é isto aqui. Então, se o governo tiver um pouco de visão e inteligência, ele vai dizer: “vamos jogar isso pra frente, porque assim nós vamos cuidar desse povo melhor”.
Acho que quando Deus manda, eles têm que obedecer. Então, o Poderoso manda um anjo que diz: “vai e atende esse povo”. Quando sentam para nos ouvir, vemos que mesmo na pesca industrial, estão percebendo que isso é o mais inteligente.
Deus não deixou o peixe só para alguns, mas para todo mundo. E se acabar, acaba para todo mundo. Isso para nós é riqueza e inteligência. Agora o resultado é somar e daqui uns anos poder dizer que valeu a pena, porque a Nova Lei da Pesca passou e está lá!
Como pescador, eu espero que agora os deputados reflitam. Na hora de dormir, coloquem a cabeça no travesseiro e pensem que o que eles têm dá para o resto da vida. Mas o que nós temos, se eles não tiverem esse cuidado de dizer “isso é do povo”, aí vai acabar pra gente e pra eles também.
João, para terminar, queríamos que você contasse essa história da moex. Qual era o propósito de ter uma moeda da comunidade?
É uma alegria tão grande, porque essa moex chegou até nós pelo Mestre Ernesto. Ele estava fazendo um trabalho de mobilização das comunidades para que a gente pudesse fazer um trabalho legal, quando chegou um pessoal falando em um dinheiro que era usado por uma comunidade na região do Amazonas, e que se a nossa comunidade acatasse a ideia, podia trazer para cá. Fizemos uma discussão com a UFBA [Universidade Federal da Bahia], que aceitou fazer uma incubadora da moex lá, nós acatamos essa demanda e o negócio foi muito bom!
O propósito exato da moeda era valorizar o produto do pescador e o nosso dinheiro não sair da cidade. Porque só Canavieiras podia receber a moex, em outro lugar não ia ter nenhuma validade. Então a gente começou a vender no mercado, na farmácia, no açougue. Só que depois não teve mais como a incubadora continuar fazendo e deu uma parada. Mas o recurso está de pé, estamos discutindo com a Rede de Mulheres para fazer uma loja virtual, fazendo essa retomada.
E como teu rosto foi parar na moex?
Fizeram meu rosto estampado na nota de R$ 1, e o pessoal ainda critica: “por que você está na nota de R$ 1?” E eu digo que é porque eu sou humilde! Eu não quero estar no topo, eu quero estar cá embaixo. Não adianta! E para mim aquilo foi inspiração do grupo, não sei quem foi o mentor, mas foi muito legal, porque significa que a gente está vivo. Nós não morremos! Aquilo, para mim, é uma garantia de que nós temos valor, nós temos inteligência para criar o que é o melhor para nós. Por isso que a moex também não morreu, ela está viva e, de uma hora pra outra, vai aparecer de novo.