Abril 24, 2026
“Quando a distribuição de espécies de grande importância cultural muda, elas não são facilmente substituíveis”
Por: Oceana
O TEMA: Proteger habitats
As mudanças climáticas têm acelerado transformações profundas nos oceanos. Espécies se deslocam de seus habitats usuais à medida que as águas se aquecem e, com isso, a atividade pesqueira também tem que se adaptar. Mas não são só os pescadores que necessitam alterar suas rotinas: a gestão pesqueira também precisa encontrar soluções geopolíticas e socioeconômicas sólidas para que os ecossistemas continuem saudáveis – da costa ao alto-mar.
É justamente isso que o cientista marinho Juliano Palacios Abrantes tem se dedicado a compreender, tendo a América Latina como foco central de seus estudos. Cidadão brasileiro e mexicano, ele atua hoje como pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Oceanos e Pesca da Universidade da Colúmbia Britânica. Nesta edição da Oceana Entrevista, ele fala sobre os efeitos dessas transformações já em curso e sobre os desafios e as oportunidades que elas nos apresentam para a conservação marinha e o aprimoramento da gestão pesqueira.
Quando se diz que as mudanças climáticas estão alterando a distribuição dos estoques pesqueiros, do que estamos falando exatamente?
Quando a gente diz que uma espécie está mudando de distribuição, significa que ela está começando a aparecer em lugares onde antes não tinha registro e/ou deixando de aparecer em áreas onde era comum. Por exemplo, aqui no Brasil, um estudo recente liderado pelo pesquisador Luis Gustavo Cardoso registrou capturas de atum-preto (Thunnus atlanticus), que normalmente é encontrado ao norte do Rio de Janeiro, lá no Sul, em Santa Catarina. Isso sugere uma mudança tanto na distribuição da espécie quanto nas áreas de pesca. Da mesma forma, em outro estudo, Ignacio Gianelli também mostrou que a composição das capturas no Uruguai está mudando, com cada vez mais espécies tropicais aparecendo, provavelmente vindas do Brasil.
Você publicou recentemente um artigo na revista Science Advances, no qual indica que ao menos 30% dos estoques pesqueiros do mundo podem ter migrado da Zona Econômica Exclusiva de um país para outro. O que isso significa em termos práticos?
Assim como a Terra é dividida entre os territórios dos países, o oceano também é organizado da mesma forma. Cada país tem uma Zona Econômica Exclusiva, que vai até cerca de 200 milhas náuticas da costa. Dentro dessa área, o país é responsável por conservar, gerir e explorar os recursos marinhos. Para além disso, entram as áreas além da jurisdição nacional, que, de certa forma, são de todos e de ninguém ao mesmo tempo.
Alguns estoques de peixes se distribuem entre essas duas zonas – são os chamados estoques transzonais. Nesses casos, eles costumam ser geridos de forma conjunta por vários países, por meio de Organizações Regionais de Ordenamento Pesqueiro (OROPs), como acontece, por exemplo, com o atum.
O problema é que, com as mudanças na distribuição dessas espécies, a gestão pode ficar complicada. E tem um ponto ainda mais crítico: alguns estoques não contam com esse tipo de gestão cooperativa, como é o caso da lula. Então, se eles passarem a ocorrer mais nessas regiões [nas quais não há gestão ou jurisdição clara] por causa das mudanças climáticas, isso pode representar um risco para a sua sustentabilidade.
De que forma as alterações no clima podem afetar as comunidades que vivem da pesca artesanal?
Essas comunidades estão entre as mais vulneráveis às mudanças climáticas. Por exemplo, se um estoque de peixe se afasta um pouco da costa, mesmo que pareça pouco em termos oceânicos, isso já pode impedir que um pescador em uma embarcação pequena consiga acompanhar esse recurso. Além disso, quando a distribuição ou a produtividade de uma espécie com grande importância cultural muda, ela não é facilmente substituível, justamente por causa da relação forte entre a comunidade e essa espécie. Por fim, também pode haver uma competição entre diferentes escalas de pesca, como a industrial e a artesanal, o que pode gerar uma distribuição desigual dos benefícios, já que as embarcações industriais têm muito mais capacidade de captura.
O novo Acordo sobre a Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional (BBNJ) vem sendo apontado como uma inovação importante, um caminho possível. O que ele pode mudar na maneira como lidamos com esses estoques que, como sabemos, não conhecem fronteiras?
Essa é uma grande pergunta no momento. O Acordo BBNJ é uma inovação muito importante, mas ele não resolve sozinho a gestão das pescarias em áreas além da jurisdição nacional, porque essa continua sendo, principalmente, a função dos RFMOs [sigla, em inglês, para Organizações Regionais de Ordenamento Pesqueiro]. O que ele traz de novo é um conjunto de ferramentas para proteger a biodiversidade, especialmente por meio de medidas baseadas em áreas.
Na prática, isso abre uma oportunidade grande para que o BBNJ, os RFMOs e também a UNFCCC [sigla, em inglês, para Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima] trabalhem de forma mais coordenada. Como as mudanças climáticas estão afetando a distribuição dos estoques e a saúde dos ecossistemas marinhos, essas agendas precisam conversar entre si para fortalecer a conservação, melhorar a gestão pesqueira e aumentar a resiliência climática.
Durante a COP30, a Oceana publicou um documento com recomendações para tomadores de decisão com sugestões de caminhos para pescarias mais resilientes frente às mudanças climáticas. Na sua avaliação, o que os governos precisam fazer para se adaptar a essa nova realidade dos oceanos?
A gestão oceânica na região latino-americana precisa focar em medidas adaptativas e baseadas em ecossistemas, que aumentem a resiliência dos estoques pesqueiros e dos ecossistemas às mudanças climáticas. Isso tem que ser inclusivo, envolvendo academia, pescadores artesanais, indústria e ONGs, criando espaços formais para integrar diferentes saberes e interesses.
Alinhar as estruturas institucionais com as dinâmicas ambientais de grande escala na região pode gerar uma gestão mais eficaz, pescarias resilientes e melhor conservação da biodiversidade para espécies em movimento. Por exemplo, enquanto os países do Oceano Atlântico Sudoeste [porção do Oceano Atlântico que banha Brasil, Argentina e Uruguai, e é uma das áreas oceânicas mais vulneráveis à emergência climática] expandem suas Áreas Marinhas Protegidas (AMPs) para atingir as metas 30×30 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), uma rede ampla de AMPs transfronteiriças pode fortalecer a conservação regional. Partindo das grandes AMPs já criadas na Argentina e no Brasil, essa rede poderia proteger melhor a biodiversidade, recuperar estoques sobrepescados, manter serviços ecossistêmicos, aumentar a conectividade ecológica e fortalecer a resiliência climática.
No artigo recém-publicado sobre o Oceano Atlântico Sudoeste, por que você e os demais autores afirmam que a região vive um momento decisivo?
Na região do Oceano Atlântico Sudoeste [SWAO, na sigla em inglês], as narrativas emergentes estão cada vez mais apresentando a cooperação regional não só como resposta às lacunas da governança global, mas também como uma oportunidade para afirmar a autonomia estratégica e uma gestão compartilhada dos recursos marinhos. Isso ficou evidente no recente encontro da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
À medida que o Brasil sedia uma série de reuniões das Nações Unidas sobre temas ambientais (como a COP30, de mudança do clima; a COP15, de espécies migratórias; o Simpósio BBNJ; e a Conferência da Década do Oceano, no ano que vem), a região enfrenta um momento decisivo: permanecer reativa a estruturas externas de governança ou desenhar proativamente marcos que reflitam prioridades regionais, equilibrem preocupações com soberania e integrem as evidências científicas à tomada de decisão de uma forma mais eficaz.
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