Fevereiro 2, 2026
“No Brasil, a demora política – e não a falta de conhecimento – pode ser uma das maiores ameaças à pesca sustentável”
Por: Oceana
O TEMA: Save the Oceans, Feed the World
Liesbeth van der Meer é vice-presidente sênior da Oceana, ocupando uma posição de liderança global na conservação dos ecossistemas marinhos. Chilena, ela iniciou sua trajetória profissional na aquicultura de salmão, e foi justamente a desilusão com a indústria de criação da espécie que a inspirou a recalcular a rota e se dedicar à proteção dos oceanos.
Na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá – um dos centros de pesquisa pesqueira mais respeitados do mundo –, Liesbeth concluiu seu mestrado em gestão de recursos naturais e sustentabilidade ambiental, com foco em economia pesqueira, contribuindo para projetos de renome internacional, como o Fisheries Economics Research Unit (FERU) e o Sea Around Us. Desde 2013 ela lidera campanhas na Oceana pela recuperação de espécies, por mais transparência nas pescarias e pela revisão da Lei da Pesca chilena.
Em visita ao escritório no Brasil, ela falou à Oceana Entrevista sobre os desafios e conflitos da gestão pesqueira atual, semelhanças do setor pesqueiro no Brasil e no Chile e a importância da atuação da Oceana em um cenário global de crescente pressão sobre os ambientes marinhos.
Por que a atuação da Oceana se torna estratégica no cenário ambiental global atual?
A Oceana é uma organização não governamental que atua há mais de 20 anos protegendo os oceanos do mundo. O que nós fazemos é conservar ambientes marinhos e a pesca, além de ajudar a reduzir a poluição em locais que são extremamente importantes. Estamos presentes em quase todo o mundo.
Mas o mais importante que a Oceana faz é entender que a conservação precisa ser feita com as pessoas, por exemplo, com a pesca artesanal.
Nós trabalhamos com a pesca artesanal para que as comunidades de pescadores tenham melhores condições para exercerem sua atividade, mas também para que ajudem a conservar o espaço em que convivem.
Nós também trabalhamos com a pesca industrial para diminuir as ameaças que existem nessas grandes operações. Por exemplo, quando alguém pesca peixes pelágicos, que são as sardinhas e as anchovetas, por exemplo, esses peixes também são alimento de outras espécies, como tartarugas, golfinhos e baleias. Então, é por isso que o trabalho que fazemos é tão importante: nós queremos conservar os oceanos para alimentar o mundo.
O que isso significa? Que é preciso cuidar desse mar, que é tão abundante em muitas partes do mundo, para poder fornecer alimento às pessoas, mas também às espécies. Essas espécies que se alimentam dos peixes e que convivem em um sistema que é extremamente perfeito.
A tensão entre a proteção da biodiversidade marinha e os interesses econômicos do setor pesqueiro é um fenômeno global e recorrente que, frequentemente, resulta em perdas ambientais e econômicas. Você pode citar exemplos de políticas ou soluções que demonstram capacidade de conciliar esses dois objetivos?
Há um enorme benefício em regular as pescarias com base no conhecimento científico. Um dos melhores exemplos que temos é o carapau-chileno (Trachurus murphyi). É uma espécie que esteve quase esgotada no ano de 2013. Mas criamos uma nova lei e, com base em dados científicos, a cota de pesca foi estabelecida no Chile. Naquele momento, pescávamos 300 mil toneladas. Hoje, pescamos mais de 1,2 milhão de toneladas. Isso representa um enorme ganho econômico. Portanto, se você dedicar tempo para regular adequadamente as pescarias, obterá os resultados desejados, mas é preciso ter paciência.
A cota e a relação com a recuperação da espécie começaram a ser observadas no ano de 2020. Isso significa que foram necessários apenas sete anos para recuperar totalmente uma pescaria que estava quase esgotada e trazer a espécie de volta ao status de plenamente explotada, sendo hoje explorada de forma sustentável – uma mudança que representa ganhos de 850 milhões de dólares.
Apesar das diferenças estruturais entre os setores pesqueiros do Chile e do Brasil, é possível identificar similaridades na atuação e nas estratégias da Oceana nos dois países?
Na Oceana Chile, nosso trabalho é orientado por três princípios centrais. Primeiro, as pescarias precisam ser recuperadas, não apenas administradas em declínio. Segundo, as cotas devem ser definidas estritamente de acordo com critérios científicos, baseados em avaliações robustas de estoque. Terceiro, essas cotas devem ser efetivamente implementadas e fiscalizadas.
Para tornar isso possível, dois elementos adicionais são essenciais: reduzir a pesca ilegal e garantir o acesso a dados de alta qualidade. O Chile oferece um exemplo concreto de como isso funciona na prática. Uma lei de pesca clara e longas séries históricas de dados permitem que os tomadores de decisão comparem a trajetória dos estoques ao longo do tempo e adotem medidas de manejo corretivas de forma oportuna. Embora a pesca ilegal continue sendo um desafio, ferramentas como sistemas de rastreabilidade já estão melhorando a transparência, o compliance e a fiscalização.
A Oceana Brasil está perseguindo os mesmos objetivos, fundamentados na gestão baseada em ciência, transparência e fiscalização. No entanto, no Brasil, atrasos na tomada de decisão e longos debates no Congresso têm retardado a adoção de medidas eficazes de gestão pesqueira. Essa falta de ação oportuna aumenta a incerteza para os pescadores e eleva o risco de colapso dos estoques, demonstrando que a demora política – e não a falta de conhecimento – pode ser uma das maiores ameaças à pesca sustentável.
Juntas, essas experiências mostram que, quando a ciência orienta as decisões e as políticas são implementadas sem demora, as pescarias podem se recuperar e gerar benefícios ecológicos e econômicos duradouros.
Como a assimetria entre as capacidades científicas e de monitoramento dos países pode afetar a implementação do Tratado do Alto-Mar? Quais as consequências disso para a gestão pesqueira global?
Em alto-mar, as pescarias são regulamentadas por Organizações Regionais de Ordenamento Pesqueiro (OROPs), que são tratados internacionais que reúnem países para criar regras comuns, definir cotas e garantir o cumprimento desses acordos. Esse sistema tem funcionado notavelmente bem e trouxe benefícios claros tanto para as pescarias quanto para o oceano.
Um bom exemplo é a Organização Regional de Ordenamento Pesqueiro do Pacífico Sul, que coordenou com sucesso a gestão dos países sobre a lula e o carapau-chileno. Por meio de regras baseadas em ciência e cooperação, os países têm respeitado amplamente suas cotas, e espécies que antes estavam sobrepescadas se recuperaram.
É por isso que o Tratado do Alto-Mar é tão importante. Embora ele não regule diretamente as pescarias, estabelece princípios comuns que podem orientar essas organizações e fortalecer a proteção no alto-mar – uma área que está fora das Zonas Econômicas Exclusivas nacionais (ZEEs). Essas águas representam 64% do oceano global e, como os peixes não reconhecem fronteiras políticas, a regulação coordenada é essencial.
O Tratado representa um primeiro e necessário passo rumo à governança e à proteção do maior espaço oceânico compartilhado do planeta.
Quais são os maiores desafios globais para a proteção dos oceanos? E de que forma o Brasil se insere nesse cenário?
Na minha avaliação, os maiores desafios globais para a proteção dos oceanos estão ligados à intensificação e diversificação das pressões humanas sobre o ambiente marinho. Hoje, não se trata apenas da pesca excessiva, mas de uma ocupação crescente dos espaços costeiros, da expansão de grandes pescarias industriais e da introdução de novas atividades no oceano, como a exploração de petróleo e gás, a energia eólica offshore e, mais recentemente, a possibilidade da mineração em águas profundas – uma fronteira que até pouco tempo atrás sequer era considerada. Soma-se a isso a expansão da aquicultura, muitas vezes com a introdução de espécies carnívoras exóticas, como o salmão, em ecossistemas onde elas nunca existiram, gerando impactos ecológicos significativos.
Esse conjunto de atividades reflete o crescimento da população humana e a transferência progressiva das pressões ambientais, antes concentradas em terra, para os oceanos, que passam a ser sobrecarregados de forma sem precedentes.
O grande desafio do nosso tempo é evitar que os oceanos sigam o mesmo caminho de degradação já vivido em muitos ecossistemas terrestres, garantindo que continuem sendo uma fonte essencial de oxigênio, biodiversidade, alimento e meios de subsistência.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição estratégica: como país megadiverso e detentor de uma extensa costa e uma vasta área marinha, tem a oportunidade – e a responsabilidade – de adotar políticas públicas baseadas na ciência, fortalecer a governança oceânica e liderar, regional e globalmente, esforços para a proteção e o uso sustentável dos oceanos.
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