Outubro 31, 2025
“Sem um oceano saudável, a gente não vai ter vida na Terra”
Por: Oceana
O TEMA: Save the Oceans, Feed the World
Bióloga e doutora em Ciências do Mar pela Universidade de Cádiz, na Espanha, Marinez Scherer foi escolhida como uma das 20 enviadas especiais setoriais para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em novembro, em Belém (PA). Nesse seleto grupo de autoridades globais, ela representa a agenda de oceanos, contribuindo para fortalecer os temas marinhos na pauta climática e atuando como ponte estratégica entre os mais diversos atores e os tomadores de decisão.
Marinez é professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde coordena o Laboratório de Gestão Costeira Integrada (LAGECI) e atua na gestão pública e na cooperação internacional. Nesta Oceana Entrevista, ela fala sobre a importância de colocar os oceanos na agenda política e, especialmente, no coração das pessoas – pois, só assim, a sociedade terá interesse, força e ferramentas suficientes para proteger o principal regulador climático do planeta.
Quais são os principais desafios que envolvem a proteção dos oceanos e a emergência climática?
O primeiro desafio é o fato de que as pessoas não têm conhecimento ou uma percepção de que clima e oceanos estão relacionados. Precisamos que os oceanos sejam integrados nas negociações, nas discussões climáticas, para além da COP, no mesmo nível que floresta e energia. Não é uma questão de tirar floresta e energia do lugar delas, mas elevar o oceano ao mesmo nível.
E, sendo ele o principal regulador climático, é muito estranho que isso ainda não seja central! Porque se não tivermos um oceano saudável, trabalhando para enfrentar as mudanças climáticas, não tem outra coisa que possamos fazer: a gente não vai ter vida na Terra. Principalmente, a vida humana, mas também não vai ter mais agricultura, estabilidade nas nossas cidades, estabilidade climática…
Então, nós precisamos dele, com toda a biodiversidade que tem ali e nos ecossistemas costeiros. Ele precisa estar no centro e nós precisamos reconhecer e entender a necessidade de proteger, conservar e restaurar o oceano e a zona costeira, de qualquer maneira.
É a partir desse reconhecimento que você vai ter políticas públicas, financiamento, apoio da sociedade. Ao ter esse reconhecimento, a gente consegue fazer os projetos de restauração dos ecossistemas que nos protegem. Daqueles que capturam carbono, como manguezais e marismas. Dos que nos ajudam na adaptação, como os recifes de coral – que também são berçário de um número enorme de espécies, inclusive de valor comercial, e ainda possuem um valor intrínseco deles mesmos, fundamental para algumas atividades como o turismo. E das dunas costeiras também, com sua vegetação, porque são elas que vão impedir, principalmente nas cidades costeiras, que a gente sofra tanto [com as mudanças do clima].
Precisamos proteger o oceano, como um todo, porque ele é o responsável pelo clima. Além de capturar 90% do calor excedente da Terra, ele ainda captura CO2, o gás carbônico – que é o que gera a acidificação. Ele captura carbono, que faz uma reação química na água, gerando a liberação de ácidos. Mas o nível dessa acidificação já está praticamente o dobro do que na era pré-industrialização. Fala-se que, até 2100, é possível que ele esteja em torno de 3,5 vezes mais ácido do que no princípio. Isso faz com que a gente tenha um problema de toda a cadeia trófica do oceano. Nós já extrapolamos essa capacidade do oceano e isso segue piorando, o que vai gerar consequências muito ruins para todos.
De uma forma geral, como está esse cenário? O que ainda pode ser feito?
Essa é uma questão que a gente tem que tratar logo e isso só vai acontecer com a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, com a redução da queima de combustíveis fósseis. Porque por mais que existam ecossistemas de captura de carbono, se o oceano não estiver saudável, sozinhos eles não dão conta. Ele está capturando, mas está tendo um custo muito alto para o ecossistema, para o ambiente oceânico, para a biodiversidade. Numa retroalimentação, isso vai ter um custo alto para a própria humanidade.
Não é um cenário bom. Mas os mesmos relatórios que apontam esses problemas também mostram que com ciência (e consciência), com acordos multilaterais onde as pessoas se juntam, nós realmente conseguimos. Nós revertemos o buraco da camada de ozônio! Foi feito um mutirão, com várias ações no mundo inteiro e nós diminuímos. Então, a gente consegue. É uma questão de realmente colocar isso na pauta e chamar a atenção necessária para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, restaurar e conservar os ecossistemas.
Aí vem outro desafio que é a conservação de áreas costeiras e marinhas, de verdade e não só no papel. Nas regiões mais costeiras, as áreas de uso múltiplo fazem mais sentido, claro, porque elas têm povos e comunidades que vivem daquilo e esses modos de vida precisam ser identificados e assegurados de maneira sustentável. Mas nas áreas oceânicas, precisamos de regiões com restrições para que o ecossistema possa se recuperar. Precisamos de áreas marinhas protegidas com uma boa gestão e mais áreas de proteção integral.
Como a COP30 pode contribuir nesse desafio imenso que é a proteção dos oceanos e ecossistemas marinhos?
Eu acho que a gente está em um bom momento para o oceano. Nós tivemos a UNOC (Conferência das Nações Unidas para os Oceanos) com a presença de 64 chefes de Estado – isso nunca tinha acontecido em uma conferência específica para o oceano. Tivemos também o lançamento, pelo presidente Lula e o presidente Macron, do Brasil e da França, das NDCs azuis [sigla, em inglês, para Contribuições Nacionalmente Determinadas – neste caso, com foco em oceanos e ecossistemas marinhos], chamando os países para que, quando dissessem quais são as suas contribuições para a diminuição dos gases de efeito estufa, incluíssem soluções baseadas no oceano e nos ecossistemas costeiros. Isso também nunca tinha acontecido. E nós temos feito, junto com instituições internacionais, essa cobrança. Tudo isso pode se ver refletido ou discutido na COP.
Além disso, acabamos de ratificar o Tratado do Alto-Mar, que está para entrar em vigor. Nós não podemos ignorar que grande parte do oceano é de águas internacionais. É a primeira vez que uma COP tem enviados especiais e, com isso, é a primeira vez que tem um enviado especial para o oceano. Só esse passo já demonstra que o oceano não está fora da discussão, ele está sendo visto.
Mas, realmente, nós precisamos fazer como o mar: fazer barulho até que as pessoas escutem. Para que quando ministros e representantes de Estado falem nos seus discursos, apareça o oceano!
Nós estamos fazendo um levantamento de todas as soluções baseadas no oceano e nas áreas costeiras através de um formulário que se chama Mutirão Azul. Essas medidas espelham o plano de aceleração de soluções oficial do grupo de ação da COP, mas permitem que comunidades locais, pequenas organizações não-governamentais, empresas e academia mostrem para a presidência da COP que tem coisa sendo feita, que saídas para os problemas estão sendo pensadas. Não só no Brasil, no mundo. E depois, poder também entregar isso para a presidência da COP31.
O que a sociedade pode ganhar com essa outra forma de perceber a importância dos oceanos?
Acho que esse reconhecimento da importância do oceano vai ser essencial, inclusive para que possamos ultrapassar barreiras no grupo da ciência. Nós precisamos fazer com que as pessoas entendam realmente. Mas, por outro lado, eu entendo a dificuldade, porque a gente não mora no oceano, a gente o vê de longe. A gente olha para ele e não vê nada lá. Mas entender isso é uma questão de física, uma questão de química. Como é que se traduz isso de maneira que as pessoas se apaixonem pelos oceanos? É disso que nós precisamos.
Eu sou educadora. Eu só entendo mudança de comportamento ou de percepção de alguma coisa através da emoção. Você pode sentar e ler 300 livros, mas se aquilo não te afeta, se tu não sente isso lá dentro, dificilmente alguma coisa vai mudar. A gente precisa de inspiração relacionada ao oceano.
Se você for na rua agora, sair ali fora e perguntar para qualquer um: “Ah, você sabe o que é a COP?” Vamos dizer que a pessoa saiba. “Quais são os temas? O que é importante para mudança do clima?” Vão responder que é a floresta, a Amazônia. E não é que não seja importante, não é isso. Mas onde está o principal regulador climático? Essa resposta não está na boca das pessoas. Está faltando essa conexão, essa emoção e dá para caber mais coisa aí nessa resposta.
Diante de tudo isso, qual é a sua principal missão como enviada especial pelos oceanos na COP30?
Eu acho que essa ideia dos enviados especiais, de uma maneira geral, é muito boa. Porque você conecta a sociedade, a academia e as empresas à COP. Quando fomos convidados, recebemos a incumbência de ser uma “caixa de ressonância” com a seguinte missão: fazer uma integração, uma conexão, levando os anseios dos grupos para a presidência da COP.
Isso é inédito e nunca aconteceu em nenhuma outra Conferência do Clima. Era uma discussão muito limitada. Com os enviados especiais, se abriu um leque de discussão com muitos setores da sociedade, não só nacionais, mas de discussões internacionais. E com o oceano não é diferente.
As organizações internacionais que historicamente vêm trabalhando com oceano e clima ganharam um canal de acesso às discussões e à presidência da COP.
Recentemente, temos visto uma movimentação positiva do Brasil pela proteção dos oceanos, com a ratificação ao acordo da OMC para subsídios à pesca, a aprovação do Tratado do Alto-Mar no Senado e a publicação da Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico (ENOP) e do Decreto sobre Logística Reversa de Embalagens Plásticas. O que isso representa no posicionamento do Brasil?
O Brasil tem um potencial muito grande de liderar a pauta do oceano. Nós temos tanto capacidade técnica como um oceano imenso. E temos soluções, dentro e fora do governo, baseadas no oceano e no clima. Eu vejo isso crescendo.
Nós sempre pensamos no perigo de estarmos discutindo, discutindo e quando passar a COP, [a discussão] morre. Mas já temos conversado com as equipes dos possíveis países que vão sediar as novas rodadas da Conferência para que esse processo também continue. Os enviados especiais, por exemplo, continuam até a COP31, e isso sustenta e dá continuidade.
Além disso, as ações que estão indo para o Plano de Aceleração oficial, da agenda de ação da UNFCC [sigla, em inglês, para Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima], já contam com organizações responsáveis por seu avanço. Claro, precisa de mais financiamento, precisa de mais capacitação, mas já vamos encaminhando e assegurando que essas ações tenham líderes e continuação até 2028, quando teremos a renovação das metas do Global Stocktake [processo oficial, criado pelo Acordo de Paris para, a cada cinco anos, avaliar o processo global na luta contra as mudanças climáticas].
Da mesma forma, esperamos que as ações definidas pelo governo brasileiro também continuem. Foi criada uma estrutura e uma ideia por trás para que isso realmente não morra na praia. Eu acho que Belém está conseguindo discutir o tema e está se oferecendo para ser uma conexão com a COP31. Na parte do oceano, a gente sempre fala isso: é mais um passo, é uma via que estamos pavimentando e vamos continuar pavimentando. Quanto mais tivermos nossas pedrinhas colocadas aqui na COP30, melhor. E estamos fazendo um bom trabalho nisso, com as organizações envolvidas e em cada um dos eventos até aqui, mostrando que esse assunto está crescendo.
As discussões sobre sistemas alimentares têm surgido na COP30 como parte dos pacotes de ação e soluções no campo climático. Do ponto de vista do enfrentamento à mudança do clima, quais compromissos a Conferência pode assumir para garantir mais resiliência para as comunidades que vivem da pesca?
A agenda de ação [para oceanos] e toda essa discussão com a sociedade que eu mencionei está sendo feita na mesma estrutura do Plano de Aceleração de Soluções da COP, que é baseado nos chamados ocean breakthroughs [na tradução livre, “avanços para os oceanos”]. São metas globais que estão sendo desenvolvidas, baseadas na ciência, para tratar determinados temas ligados ao oceano, que já existem e que têm pessoas responsáveis.
Temos cinco ocean breakthroughs: um para descarbonização do setor de transporte marítimo, um para energias renováveis, um para alimentos provenientes de ambientes aquáticos, um para conservação e outro para turismo costeiro e vulnerabilidade da linha de costa. Já temos aí um de comida vinda do mar de maneira sustentável.
Acho que nós também vamos discutir isso na COP em um novo breakthrough para populações indígenas e comunidades locais, justamente para trabalhar essas frentes e ver quais são as metas. Para entender como a gente faz para diminuir a vulnerabilidade das populações costeiras e manter esses modos de vida, que estão muito vinculados à pesca – não só à atividade em si, mas à qualidade e à quantidade do pescado. Para que essa relação continue, precisamos da proteção dos manguezais, dos corais, de tudo junto.
O plano de ação está vinculado a esses cinco breakthroughs que já existem, mais os que estão sendo gestados, como o de populações indígenas e comunidades locais e o de empreendedorismo e inovação.
Tudo isso embalado em um guarda-chuva de planejamento e gestão sustentável do oceano, porque tudo que estamos fazendo é para ter um oceano saudável.
Várias ações, como áreas marinhas protegidas, gerenciamento espacial marinho, gestão costeira integrada, planos de clima, planos de adaptação, e até coisas como, por exemplo, bacias de drenagem e a poluição que entra no mar, tudo isso fica dentro desse guarda-chuva de planejamento e gestão sustentável do oceano. O plano de ação é tudo isso e já é mais um caminho para essa pauta não ficar escondida também.
Essas comunidades têm participado da discussão?
O breakthrough das populações indígenas e comunidades tradicionais está sendo desenvolvido. Já foram feitas algumas oitivas e conversas regionais no mundo. Não tivemos ainda na América Latina, mas a ideia é trazer as comunidades para discutir e construir junto.
Do ponto de vista do Mutirão Azul, no âmbito da COP30, vamos ter um workshop com alguns representantes de comunidades tradicionais e povos indígenas que foram convidados para a discussão, além da possibilidade de colocar, trazer essas soluções propostas por esses grupos dentro do próprio Mutirão Azul, que é aberto para todos. E é como eles mesmo dizem: “nada sobre eles, sem eles”. Então, acho que tem que crescer mais essa comunicação, participação e discussão com esses grupos e o breakthrough de populações indígenas e comunidades tradicionais pode ser muito legal para isso, como um pontapé para o reconhecimento dessa necessidade.
Qual sua avaliação sobre as ações do Brasil para o enfrentamento da poluição por plástico?
Eu acho que isso é uma crise global tremenda. Porque além de toda a discussão sobre as economias circulares e toda aquela questão de retirar o plástico, nós estamos longe de ter uma redução efetiva, que faça com que menos plástico acabe no oceano. Uma vez no oceano, ele é muito difícil de retirar. Então, a gente não pode mais deixá-lo entrar no oceano.
Para isso, primeiro é preciso diminuir o plástico de uso evitável. É preciso mudar essa lógica da utilização do plástico e do descarte. A partir daí é que nós vamos para a questão dos resíduos sólidos e do que é que se faz com eles.
Agora, esse é um tema que ganhou uma repercussão e ganhou um pouco da emoção também das pessoas. As pessoas já sabem que não pode ter plástico no oceano. Mas muitas ainda não entendem, por exemplo, a questão do microplástico. Porque, em geral, para as pessoas, ele é só uma coisa pequeninha, que você pode ver na areia, mas isso não é microplástico, esse problema é muito mais invisível.
A Oceana vem fazendo um trabalho excelente de comunicação e de trazer isso à tona e eu acho que é por aí, porque não tem nenhum problema de gestão ambiental que vai ser resolvido se não contar com a percepção e apoio da sociedade.
Isso é fato. As normas, as leis, os incentivos e os não incentivos, os tratados internacionais, eles só vão aparecer quando existir uma massa da sociedade que entende tal assunto como problema. A questão de que a gente precisa trazer o oceano para o coração das pessoas é isso.
Eu acho que o [combate à poluição por] plástico está em um bom caminho nesse entendimento, mas isso tem que estar refletido na indústria, na produção, no consumo. Porque uma coisa é a gente entender, outra coisa é deixar de consumir. E essa é uma crise urgentíssima porque o oceano não suporta mais acidificação e não suporta mais tanto plástico. Os seres vivos que estão ali não suportam mais e tudo isso faz com que, pouco a pouco, a gente perca o oceano como o maior regulador climático do mundo. É uma situação assustadora, mas não perdemos a esperança, se não a gente não estava aqui.
Quais são suas expectativas para os resultados da COP30 em relação aos oceanos?
Precisamos ter esse Plano de Aceleração de Soluções baseadas no oceano feito e entregue. Essa é uma meta clara da presidência [da COP]: de que a gente tenha esses Planos de Aceleração de Soluções antes da Conferência.
Agora, a minha meta pessoal é realmente fazer com que o oceano apareça nas negociações. Que naquele momento em que as pessoas falam sobre a importância das florestas, também mencionem o oceano. Na COP28 isso apareceu, mas na 29 já não apareceu mais. Temos que deixar de ser tão erráticos. O oceano realmente precisa estar no centro.
Vários grupos têm discutido, por exemplo, a ideia de ter um item da agenda de natureza da UNFCCC onde o oceano esteja colocado também, de forma permanente. O próximo passo deve ser esse, de trazer isso para a estrutura oficial. Também tem sido discutida a ideia de ter um grupo de negociadores globais pelo oceano, para estarem sempre ali a postos.
Se conseguirmos que o oceano entre nas negociações, que se comece a trabalhar nesse item de agenda e que esse grupo de negociadores faça, fale pelo oceano, eu acho que já seria um grandíssimo ganho.
Você tem alguma mensagem que deseja deixar para as pessoas nessa véspera de COP30, Marinez?
Nós precisamos nos lembrar que existe todo um processo formal dentro da UNFCC, mas essa COP é para as pessoas poderem falar também. Mandem suas soluções para o Mutirão Azul. Existem os próprios sites do governo, como o Brasil Participativo que também está aberto para receber soluções. Esse é um canal bastante importante, e nós temos que usar isso para mostrar que existem soluções baseadas na ciência. A gente tem que mostrar isso porque, se não, não vamos chegar no coração das pessoas.
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