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Agosto 6, 2026

Jornalismo, ciência e políticas públicas: o oceano no centro do debate da Abraji

Encontro com jornalistas no Congresso da Abraji discutiu a transversalidade e a diversidade de histórias que podem ser contadas pela pauta dos oceanos. Foto: Oceana/Nathalia Carvalho

 

O oceano cobre mais de 70% do planeta, produz metade do oxigênio que respiramos e é nosso maior aliado na luta contra as mudanças climáticas, absorvendo cerca de 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global.  Apesar de sua importância para a vida na Terra, ele ainda ocupa pouco espaço no noticiário brasileiro. Quantos veículos de imprensa o tratam como uma pauta estratégica? Quantas reportagens têm ajudado a investigar, informar e, sobretudo, pressionar os responsáveis pelas políticas públicas capazes de proteger os ecossistemas marinhos?

Foi com essa provocação central que o 21º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) realizou, na sexta-feira (31 de julho), o debate “De costas para o mar: por que o oceano ainda não virou manchete no Brasil?”. Mediado pela repórter Jéssica Maes, editora-assistente de Ambiente na Folha de S. Paulo, o encontro reuniu Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana e oceanólogo, e Bernardo Esteves, repórter na revista piauí e professor no curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Zamboni iniciou sua fala contextualizando a plateia, composta por mais de 60 jornalistas e estudantes de jornalismo, com expressivos dados sobre a importância do oceano para a própria existência humana e a atual situação do Brasil diante de desafios como a sobrepesca e a poluição por plástico.

“Considerando ilhas e reentrâncias, nosso litoral se estende por praticamente 11 mil quilômetros, repletos de ecossistemas ricos e muito especiais. Além disso, nós temos uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de mais de 3,65 milhões de quilômetros quadrados – uma área onde cabe a Índia, a Argentina ou o México. É muita água”, relatou. “Ainda assim, a gente continua com um problema sério de visibilidade, especialmente quando se trata de política pública, daquilo que é decidido, via de regra em Brasília, e que ainda é obtuso em termos de uma visão de mundo. Até mesmo alguns parlamentares que são de estados costeiros têm uma completa ignorância sobre o potencial e as necessidades de proteção que esse ambiente costeiro marinho tem.”

Para Esteves, esse desconhecimento é o maior desafio dos jornalistas na cobertura de oceano. Como exemplo, ele citou a reportagem que escreveu em 2025 sobre o recife na Foz do Amazonas, perto da área onde o Brasil quer explorar petróleo: uma formação gigante, mas sobre a qual ainda não se tem clareza de tamanho, composição e organismos que abriga – o que faz com que a exploração acarrete uma série de possíveis riscos também ainda não identificados.

O jornalista relatou seu assombro ao ouvir de fontes especialistas em oceano informações como o fato de que os mapas topográficos de Marte e da Lua são mais precisos do que os mapas existentes da topografia do fundo do mar, ou de que ainda havia espécies de baleias sendo descobertas poucos anos atrás. “A gente não sabe nem quanto peixe tem ou quanto se pesca. E fica difícil valorizar o que não sabemos dimensionar direito. Além disso, nós enxergamos o oceano como uma coisa uniforme, plana, temos dificuldade em compreender a complexidade que existe ali. Então, o desafio da cobertura [de imprensa] passa por esse caminho”, apontou.

Um oceano de pautas

Território, clima, negacionismo, exploração de petróleo, unidades de conservação, segurança alimentar e o papel da ciência foram alguns dos temas que seguiram embalando a discussão, permeada pelas perguntas e provocações feitas pelos jornalistas – e para eles. “Para mim, é difícil pensar em temas que sejam tão transversais como o oceano”, declarou a mediadora, Jéssica Maes.

Para inspirar os colegas de profissão a se aprofundar mais nesse tema, ela apresentou exemplos de reportagens sobre oceano produzidas nos últimos anos e sugeriu um outro olhar sobre as pautas. “Podemos falar de foz do Amazonas sem falar só de energia, falando também dos conflitos nas comunidades tradicionais, olhando para a biodiversidade e, especialmente, pensando que esse ano tem eleição – mesmo sabendo que meio ambiente tende a ser um ‘não-tema’ nessa eleição”, pontuou.

“A gente tem um oceano de pautas para se aprofundar”, brincou Bernardo Esteves, destacando que esse momento das campanhas eleitorais é fundamental para qualificar o debate. “No fim das contas, a formulação de políticas públicas é o que faz a diferença. Colocar em Brasília representantes alinhados com as questões ambientais, vale uma vida de sacola que é recusada no supermercado. E o nosso desafio, enquanto jornalistas, é achar as boas histórias que nos permitam falar disso. A gente precisa tornar interessante o que é importante.”

Zamboni reforçou que a participação da imprensa é fundamental para uma incidência de qualidade no Congresso Nacional, defendendo causas, pressionando por leis e políticas públicas de conservação do oceano e cobrando, de forma sistemática, por sua implementação. “Nós não damos conta – eu e meus colegas das organizações do terceiro setor – de comunicar sozinhos e gerar todas as medidas transformadoras ali. Precisamos de pessoas como vocês, que peguem aquilo, comuniquem os riscos que estão embutidos e, principalmente, quem ganha e quem perde com essas decisões”, convocou.

Encontros e redes

Além do debate, ao longo do dia, a Oceana também marcou presença no Congresso da Abraji com um estande, convidando os participantes a conhecer mais sobre suas campanhas, distribuindo publicações e coletando assinaturas para a campanha Pare o Tsunami de Plástico. O evento, realizado em São Paulo, é o maior encontro de jornalistas do país, reunindo cerca de 100 atividades, entre seminários, lançamento de livros e palestras, e mais de mil participantes.