*Por Dana Miller, diretora de iniciativas estratégicas da Oceana
O mundo tem assistido aos melhores atletas de cada país competirem pelo ouro nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na Itália. O que os espectadores não conseguem ver é a montanha de resíduos plásticos descartáveis gerada durante as competições.
Nesse evento, a Coca-Cola tem vendido seus produtos em garrafas plásticas descartáveis. Não precisava ser assim. Os organizadores e a empresa, principal patrocinadora no setor de bebidas, deveriam ter feito as coisas de outra maneira, e melhor pelos atletas, pelos espectadores, pelas comunidades anfitriãs e pelo planeta.
Eventos esportivos globais influenciam investimentos significativos nas cidades-sede e, ao longo da história, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos vêm deixando como legado a construção e modernização de infraestrutura e sistemas de transporte.
Esse tipo de desenvolvimento deve ser feito de forma ponderada e sustentável para minimizar os impactos sociais e ambientais e garantir que se alcancem objetivos de longo prazo.
Os grandes eventos representam oportunidades também no enfrentamento à poluição por plástico com o estabelecimento de sistemas de embalagens reutilizáveis que possam ser operados por muito tempo, em instalações novas ou já existentes, para uso durante os Jogos, mas que se mantenham ativos após a cerimônia de encerramento.
Avanços nas Olímpiadas de Verão em Paris
Há dois anos, o comitê parisiense dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Verão e a Coca-Cola optaram por servir bebidas em copos reutilizáveis e mostrar ao mundo que formas de reuso são viáveis em eventos de grande porte.
Segundo os organizadores, houve uma redução de 70% no número de garrafas plásticas e de 52% de outros itens de plástico descartáveis no fornecimento de bebidas, em comparação com as Olímpiadas de Verão de Londres, em 2012. Além dos copos reutilizáveis, esses resultados também foram atribuídos à venda de garrafas de vidro retornáveis e ao incentivo a utilização de garrafas reutilizáveis de uso individual.
A demanda pelo aumento do reuso nesses eventos também partiu dos atletas. Nos preparativos para Paris, mais de 100 atletas de elite e organizações esportivas de todo o mundo pediram à Coca-Cola e à PepsiCo que aumentassem o uso de embalagens reutilizáveis e eliminassem o plástico descartável nas Olimpíadas e em eventos esportivos futuros.
Embora a implementação em Paris não tenha sido perfeita (alguns refrigerantes foram servidos em copos reutilizáveis, mas a partir de garrafas plásticas descartáveis, e o grafismo das Olímpiadas nos copos reutilizáveis fez com que eles se tornassem lembranças atrativas para levar para casa). Esses problemas representam oportunidades de melhoria, e não de impedimentos para justificar a manutenção do uso de descartáveis e manter as coisas como estão. Em vez de aproveitar os avanços obtidos em Paris, a Coca-Cola e os Jogos de Inverno Milão-Cortina retrocederam para o uso de plásticos descartáveis.

Garrafas de plástico reciclado ainda são descartáveis
Nas Olimpíadas deste ano, a Coca-Cola divulgou reiteradamente a adoção de garrafas PET 100% recicladas e o lançamento de campanhas para incentivar a reciclagem. A corporação também abandonou recentemente uma meta global de ampliar o uso de embalagens reutilizáveis, transmitindo a mensagem de que isso não é mais prioridade. Mas sejamos claros: as garrafas feitas de plástico reciclado ainda são projetadas para ser usadas uma única vez. Apesar dos bem-intencionados esforços de reciclagem, muitas ainda acabarão no meio ambiente e nos oceanos.
Além disso, pesquisas evidenciam que o processo de reciclagem do plástico é uma importante fonte global de poluição por microplásticos e representa riscos não apenas ao meio ambiente e aos oceanos, mas também à saúde humana. Em 2023, pesquisadores no Reino Unido detectaram microplásticos nas águas residuais de uma planta de reciclagem de PET, estimando que a instalação despeja entre 59 mil e 1,18 milhão de quilos de microplásticos por ano (6% do plástico produzido). O estudo também revelou grandes quantidades de microplásticos no ar ao redor da planta de reciclagem.

Eventos esportivos devem ser exemplo de sustentabilidade
As embalagens reutilizáveis são a melhor solução que a indústria de bebidas tem para minimizar sua contribuição à crise global gerada pela poluição por plástico. Em sistemas bem projetados, os copos reutilizáveis podem ser usados mais de cem vezes, reduzindo o desperdício e a pegada de carbono das embalagens. Em 2024, a Oceana estimou que um aumento de apenas 10 pontos percentuais nas embalagens reutilizáveis de bebidas até 2030 poderia eliminar mais de 1 trilhão de garrafas e copos plásticos descartáveis e impedir que até 153 bilhões desses recipientes chegassem aos oceanos e corpos d’água do mundo.
Ao fazer seu planejamento para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno de Milão-Cortina, a Coca-Cola e os organizadores do evento tiveram a oportunidade de estabelecer uma infraestrutura permanente para sistemas de reuso nos locais-sede, mas desperdiçaram essa chance de mostrar liderança e legado ambiental em um dos eventos mais assistidos do mundo.
Porém, nunca é tarde para voltar ao caminho certo. Sempre há espaço para uma volta por cima, um novo começo e a busca pelo ouro, principalmente quando se trata de proteger o planeta e os oceanos. Ainda há tempo para a Coca-Cola e os organizadores de eventos implementarem práticas sustentáveis e priorizarem embalagens reutilizáveis na Copa do Mundo de Futebol deste ano, nas Olimpíadas Especiais de Santiago, em 2027, e nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Los Angeles, em 2028. É possível mostrar ao mundo que as Olimpíadas, e todos os grandes eventos, podem ser mais do que um espetáculo: elas podem ser catalisadoras de um futuro mais sustentável.
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