Os danos causados pelas indústrias de bebidas, tabaco e ultraprocessados se somam aos gerados pelo plástico, um dos focos de discussão da audiência pública realizada no último dia 8, na Câmara Federal
Na última terça-feira (8), organizações da sociedade civil participaram da Audiência Pública “Impactos ambientais e na saúde causados por tabaco, álcool e ultraprocessados”, realizada na Câmara dos Deputados, em uma sessão conjunta das Comissões de Defesa do Consumidor e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Na audiência, pesquisadores e representantes de organizações como a Oceana, ACT Promoção de Saúde, Observatório do Clima, Associação de Combate aos Poluentes (ACPO), Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS) e Universidade de São Paulo (USP), alertaram sobre o duplo impacto causado pelas indústrias do tabaco, de bebidas e de alimentos ultraprocessados à saúde e ao meio ambiente.
A produção e o consumo desses produtos “estão diretamente associados a elevados índices de mortalidade e adoecimento”, considerou Adriana Pinheiro, assessora de incidência política do Observatório do Clima.
Esses problemas, por sua vez, se agravam ainda mais com a geração de um alto volume de resíduos plásticos e com a contaminação de bebidas e alimentos por aditivos químicos presentes nesse tipo de material.
Para Lara Iwanicki, diretora de advocacy e estratégia da Oceana, o plástico de uso único já deixou de ser um problema puramente ambiental. “É uma questão também socioeconômica e de saúde humana. A gente precisa olhar isso de uma forma um pouco mais holística”, avaliou.
O plástico integra toda a cadeia produtiva desses setores. “Os ultraprocessados e o plástico andam juntos. As grandes commodities, como trigo e soja, usam muito plástico em suas culturas, que causam grandes danos ao solo e a saúde”, explicou Thais Mauad, médica e professora do Departamento de Patologia da Universidade de São Paulo, também presente na audiência.
Segundo Mauad, a relação do plástico com os ultraprocessados pode ser ainda mais tóxica no contato desse material com os alimentos. “Toda vez que a embalagem plástica entra em contato com o alimento quente, ácido ou gorduroso, o contaminam fazendo com que a gente ingira além do próprio microplástico, as substâncias químicas do plástico”, explicou a pesquisadora.
Medidas e propostas
Durante a audiência, as organizações apontaram caminhos para a construção de políticas públicas que, se concretizadas, podem frear os danos socioambientais causados por indústrias destes setores.
“Porque o que está acontecendo hoje é que os lucros são divididos entre os acionistas das grandes empresas poluidoras e o ônus é compartilhado entre todos nós. Essa é a realidade que precisa mudar”, considerou Paula Johns, diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde.
Para isso, as organizações defendem a inclusão do plástico de uso único no imposto seletivo, que vem sendo debatido no âmbito da Reforma Tributária. A medida busca taxar produtos considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, a exemplo de bebidas alcóolicas, cigarros, bebidas açucaradas e veículos a combustão.
“O plástico, está mais do que comprovado, tem um impacto ambiental e para a saúde humana. Então, ele atende todos os critérios para estar no Imposto Seletivo”, considerou Lara Iwanicki.
Outra medida que pode ajudar a conter a poluição por plástico é a aprovação do Tratado Global Contra a Poluição por Plástico, que deve entrar em sua última rodada de negociação em Genebra, na Suíça, entre os dias 5 e 14 de agosto.
A expectativa é de que “esse Tratado seja de fato juridicamente vinculante e traga regras para todo o ciclo produtivo do plástico, desde a produção de polímeros, produtos químicos, produtos de uso único, design, reciclagem, enfim, toda a cadeia produtiva”, afirmou Iwanicki.
No âmbito doméstico, o Projeto de Lei (PL) 2524/2022, conhecido como PL do Oceano Sem Plástico – que propõe soluções factíveis para a crise do plástico -, encontra-se há um ano e meio parado na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, sob a relatoria do senador Otto Alencar (PSD-BA).
Para a diretora de advocacy e estratégia da Oceana, “esse é um projeto de extrema importância porque trata da Economia Circular do Plástico, de metas de reuso, de restrição para produtos descartáveis, e busca fazer com que o Brasil acompanhe minimamente o que já existe na legislação internacional”.
Em apoio ao PL 2524/2022, mais de 80 organizações se uniram à Oceana na campanha Pare o Tsunami de Plástico, que hoje possui mais de 85 mil assinaturas em uma petição que demanda a aprovação do Projeto de Lei e o fim da poluição por plástico no Brasil.
MOST RECENT
Abril 14, 2026
Abril 7, 2026
Pesca de arrasto prejudica segurança alimentar de comunidades costeiras, aponta nova pesquisa
Abril 1, 2026
Março 30, 2026
“A geração da poluição por plástico está muito longe do mar”