Março 31, 2026
Pesca com auxílio de botos é reconhecida como patrimônio cultural do Brasil
Por: Oceana
O TEMA: Proteger habitats
Diante de ameaças ambientais e sociais, registro busca assegurar a continuidade da tradição cooperativa típica do Sul do país, um dos poucos lugares do mundo onde isso acontece
Em estuários do litoral sul do país, especialmente em Laguna (SC) e na barra do rio Tramandaí (RS), pescadores artesanais desenvolveram uma relação complexa e curiosa com os botos para a pesca da tainha. A prática, transmitida de geração em geração – tanto entre os pescadores quanto entre os botos – foi registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural do Brasil.
O reconhecimento ocorreu no dia 11 de março, em reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, destacando os saberes tradicionais envolvidos na pescaria, que incluem conhecimentos ecológicos, técnicas pesqueiras e, sobretudo, a relação afetiva entre humanos e botos. O resultado disso é uma parceria que dá certo, pois promove o respeito aos ecossistemas marinhos e garante alimento para as duas espécies.
“Esse reconhecimento como um patrimônio cultural nacional é de suma importância para a pesca artesanal, pois significa reconhecer essa ligação, essa cooperação que é de extrema importância para a nossa região. Defender a pesca com auxílio dos botos é defender a cultura, o modo de vida e a tradição das comunidades pesqueiras”, afirmou Valmira Gonçalves, secretária-executiva da Regional Sul do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP-Sul). A entidade foi a responsável por propor formalmente o registro ao Iphan, com a intenção de preservar a atividade e os modos de vida a ela associados, diante de ameaças ambientais e transformações socioeconômicas, como o crescimento urbano e a especulação imobiliária.
Cooperação e afeto
A pesca com auxílio de botos é considerada uma prática única, também chamada de pesca cooperativa, já que depende de uma colaboração entre seres humanos e cetáceos, algo que acontece em poucos lugares do mundo. Funciona assim: os botos, da espécie Tursiops truncatus, conduzem e cercam os cardumes, aproximando as tainhas dos pescadores e sinalizando o momento certo para o lançamento da tarrafa. Essa forma de comunicação vai sendo aprendida conforme as famílias de pescadores convivem, conhecem e se conectam com as famílias de botos, seus parceiros de trabalho.
Segundo o biólogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ignacio Benites, coordenador do projeto Barra dos Botos, essa é uma interação frágil do ponto de vista ecológico, pois reúne duas espécies de forma coordenada, para se beneficiar na captura de alimentos.
“Para acontecer, precisa ter três elementos: um animal predisposto a se acercar do homem, um ser humano predisposto a se acercar do animal e um ambiente propício. Nós temos botos que atuam na Barra há 40 anos. O Geraldão, por exemplo, que, quando teve o primeiro filhote, virou Geraldona e, hoje, nada com cinco crias na Barra e pesca com seus netos. Os pescadores conhecem todos os botos, pelo jeito e parentesco, pela forma de pescar e mostrar o peixe. São animais selvagens e não domesticados, não são obrigados a pescar, mas entram na Barra e conhecem os pescadores”, relatou em entrevista para a Oceana.
A pesca com botos é documentada na região desde meados do século 19 e se estrutura com base na reciprocidade, na confiança e na parceria. O reconhecimento dessa prática como um patrimônio cultural imaterial do Brasil fortalece a identidade das comunidades da pesca artesanal da região Sul, valorizando seus costumes e as formas de sociabilidade que integram a cultura local e o ambiente estuarino.
O pescador Rinaldo Florentino, de Laguna, vive da pesca com botos, de onde tira a maior parte de sua renda e sustento. Para ele, esse foi um processo audacioso e espetacular. “O reconhecimento como patrimônio cultural serve também para proteger mais essa espécie de botos. Há uma tendência de que a população deles vá diminuindo devido à escassez, ao assoreamento e à poluição, mas estamos aqui para proteger esses pequenos cetáceos. Essa é a minha contribuição”, explica.
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