Setembro 10, 2026
Pesca de arrasto por embarcações estrangeiras agrava a insegurança alimentar
Por: Oceana
O TEMA: Save the Oceans, Feed the World
Todos os dias, frotas estrangeiras de arrasto de fundo retiram peixes ricos em nutrientes das águas de países que enfrentam alguns dos mais altos níveis de desnutrição e insegurança alimentar do mundo. Um novo estudo concluiu, contudo, que se essa captura permanecesse no consumo doméstico em vez de ser exportada, a ingestão de nutrientes de até 10,6 milhões de pessoas poderia se tornar adequada em 35 países, especialmente na África Ocidental.
Liderada por cientistas da Oceana e publicada na revista npj Ocean Sustainability, a análise aponta que essas embarcações estão criando um desequilíbrio global na distribuição de nutrientes. Isso porque elas transferem pescados de locais onde a população apresenta altas taxas de deficiência de nutrientes essenciais, como proteínas, ferro e zinco, para países que apresentam maior segurança nutricional. Além disso, promovem também um forte impacto ambiental, já que a prática do arrasto de fundo deixa um rastro de danos que pode demorar décadas para ser recuperado.
“Por trás dos números existem comunidades reais. Em muitos países costeiros, o peixe é uma das fontes mais acessíveis de nutrientes essenciais para a saúde e o bem-estar das pessoas”, afirma o autor principal do estudo e cientista sênior marinho da Oceana, David Costalago.
Na Guiné-Bissau, por exemplo, a maioria da população (99,9%) apresenta deficiência de cálcio – um número que poderia ser muito menor, caso houvesse uma ingestão adequada desse nutriente por meio do acesso ao pescado retirado do país. O mesmo aconteceria em países como Guiné, Gâmbia, Serra Leoa e Costa do Marfim, por exemplo, que, segundo o estudo, poderiam registrar algumas das maiores melhorias no acesso a nutrientes essenciais, caso os pescados capturados ali fossem mantidos nos mercados locais.
“Os alimentos aquáticos estão entre as fontes naturais mais ricas de nutrientes que faltam à alimentação das pessoas em todo o mundo, incluindo vitamina B12, ferro, zinco, cálcio e ácidos graxos ômega-3”, explica o consultor científico da Oceana, Chris Golden, coautor do estudo e professor associado da Harvard T.H. Chan School of Public Health, uma das instituições mais prestigiadas do mundo na área de saúde pública.
Segundo ele, os “resultados mostram que a forma como as pescarias são administradas e como os produtos do mar circulam pelos mercados globais pode ter implicações profundas para a nutrição humana, especialmente em países onde as deficiências nutricionais continuam amplamente disseminadas”.
Ganhos globais
Milhões de pessoas em todo o mundo poderiam se beneficiar de um acesso mais justo aos recursos alimentares aquáticos. O estudo recomenda, para isso, que os governos incorporem a segurança alimentar e nutricional à gestão pesqueira e aos acordos internacionais de acesso à pesca, aumentem a transparência sobre as atividades de embarcações estrangeiras e priorizem políticas que garantam que as comunidades locais se beneficiem dos peixes capturados de forma sustentável em suas próprias águas.
“Os formuladores de políticas públicas devem assegurar que os acordos de acesso à pesca e as decisões de gestão pesqueira considerem explicitamente a segurança alimentar e nutricional ao lado dos objetivos econômicos e ambientais. Fazer isso pode ajudar a garantir que os recursos marinhos beneficiem melhor as pessoas que mais precisam deles”, afirma Costalago.
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