Pesca de arrasto prejudica segurança alimentar de comunidades costeiras, aponta nova pesquisa - Oceana Brasil
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Abril 7, 2026

Pesca de arrasto prejudica segurança alimentar de comunidades costeiras, aponta nova pesquisa

Pescadoras e pescadores artesanais, responsáveis por mais de 90% da força de trabalho da pesca marinha no mundo, sofrem com competição injusta com a pesca industrial de arrasto.
Foto: Oceana/Rodrigo Gorosito

 

Caso brasileiro é reconhecido internacionalmente como exemplo bem-sucedido de recuperação das espécies após afastamento da prática da costa gaúcha

 

A recém-publicada pesquisa O impacto da pesca de arrasto de fundo na segurança alimentar revela que a nutrição e a renda de comunidades costeiras estão sendo afetadas pela pesca industrial de arrasto. Segundo o estudo, a prática cria uma competição injusta com a pesca artesanal, degrada habitats marinhos e ainda desloca peixes e outras espécies marinhas para locais diversos, prejudicando os sistemas alimentares daqueles que mais dependem do oceano.

A pesquisa contesta a ideia de que o arrasto de fundo é essencial para alimentar uma população global crescente – uma narrativa amplamente difundida pela indústria pesqueira. Liderado pelo professor Rashid Sumaila, economista pesqueiro da Universidade da Colúmbia Britânica e membro do Conselho da Oceana, e pela cientista pesqueira Anna Schuhbauer, o estudo avalia casos em todo o mundo. Entre eles está o do Brasil, que afastou a pesca de arrasto nas 12 milhas náuticas do Rio Grande do Sul, após anos de mobilização de pescadores e pescadoras artesanais da região, com o apoio da Oceana.

“Nossa pesquisa mostra um padrão consistente de competição negativa nos nove estudos de caso, em que o arrasto industrial entra em conflito direto com os sistemas alimentares locais”, explica Anna Schuhbauer. “Em Goa [na Índia], isso significou a redução do acesso a frutos do mar para famílias que, há muito tempo, dependem deles. No Alasca [nos Estados Unidos], o salmão continua sendo central para as comunidades indígenas do Delta Yukon Kuskokwim, onde as pescarias industriais de arrasto seguem danificando habitats marinhos e causando o declínio do salmão por meio da captura incidental. Mas o Rio Grande do Sul, no Brasil, mostra que isso não é inevitável: onde a proibição do arrasto é aplicada, o acesso local a pescados de preços acessíveis pode ser restabelecido.”

Caso bem-sucedido

Mobilização de pescadores no Rio Grande do Sul. Foto: Oceana / Marcos Jatahy

O estudo revela que, no Brasil, os estoques de peixes demersais, como pescada e corvina, vêm se recuperando desde o afastamento da pesca de arrasto na costa gaúcha. O resultado disso é o aumento do acesso à proteína saudável pelas comunidades locais e a diminuição dos conflitos entre frotas industriais e de pequena escala.

“A costa do Rio Grande do Sul é um dos ecossistemas mais produtivos ao longo do litoral brasileiro, sustentando estoques cruciais para a pesca artesanal. Por décadas, frotas industriais de arrasto operaram ali com pouco controle, contribuindo para o declínio das populações de pescado. Com o deslocamento dessas frotas para além do limite das 12 milhas, já se vê fortes sinais de recuperação – uma mudança que está beneficiando diretamente a pesca artesanal local”, destaca Ademilson Zamboni, diretor-geral da Oceana.

Em contraste, o estudo também mostra que a aplicação fraca das regras em outras regiões é justamente o que permite a continuidade da atuação das frotas industriais onde sua presença é proibida ou restrita. Assim, proteções que existem apenas no papel acabam minando a segurança alimentar e a renda das comunidades locais.

Desafios globais

Realizada pela coalizão Transform Bottom Trawling (que, em tradução livre, significa “Transformar o Arrasto de Fundo”), da qual a Oceana faz parte, e a ONG de conservação marinha Blue Ventures, a pesquisa aponta que 26% do total das pescarias marinhas globais vem da pesca industrial de arrasto de fundo. Mais de 99% dessa prática ocorre dentro de águas nacionais, frequentemente em áreas costeiras rasas que também são zonas essenciais para pescadores e pescadoras artesanais – responsáveis por mais de 90% da força de trabalho da pesca marinha no mundo. Com isso, o arrasto pode reduzir a quantidade de pescados disponíveis e, também, a possibilidade de as populações locais pagarem por eles.

“A questão central não é quanto peixe é capturado globalmente, mas quem realmente se beneficia disso”, reforça o professor Sumaila. “A pesca de arrasto de fundo pode gerar grandes números de captura, mas frequentemente o faz às custas do acesso a pescado nutritivo pelas comunidades costeiras, especialmente em regiões onde o peixe é um elemento central da alimentação.”

Os peixes são uma importante fonte de micronutrientes, como ferro, zinco, cálcio, vitamina B12 e ômega3, que podem ser ainda mais essenciais para populações costeiras de baixa renda. No entanto, o estudo identifica que a pesca de arrasto pode estar comprometendo essa segurança nutricional, ao desviar pescados para mercados de exportação (e, consequentemente, para consumidores de maior renda), destinar parte de suas capturas para a produção de farinha de peixe ou ração para aquicultura, reduzir a qualidade dos peixes disponíveis nos mercados internos e, ainda, prejudicar sistemas tradicionais de troca e compartilhamento de alimentos, dos quais dependem idosos e famílias de baixa renda.

Outro ponto importante destacado pela pesquisa é o impacto desproporcional sentido pelas mulheres. Representando cerca de 40% a 50% da força de trabalho global da pesca, elas são, muitas vezes, excluídas da cadeia produtiva quando o arrasto industrial direciona os pescados para unidades de processamento longe da costa, impossibilitando o exercício de atividades como beneficiamento e comércio, nas quais as mulheres possuem participação particularmente alta, sobretudo em regiões do Sul Global. Com isso, elas passam a enfrentar instabilidade financeira, perda de autonomia e de segurança alimentar doméstica.

Sustentabilidade e justiça social

Segundo Sumaila, a nova pesquisa fornece evidências claras de que a forma como pescamos é tão importante quanto a quantidade que pescamos. “Alinhar governança pesqueira com segurança alimentar e justiça social é essencial se quisermos alcançar objetivos globais de desenvolvimento e sustentabilidade”, explica.

Diante disso, a pesquisa sugere a adoção de medidas como:

  • Colocar a pesca artesanal no centro dos processos de tomada de decisão
  • Reconhecer impactos de gênero
  • Integrar segurança alimentar às políticas pesqueiras
  • Implementar Zonas de Exclusão Costeira de 12 milhas náuticas e garantir seu cumprimento
  • Congelar a área de atuação do arrasto, sem expansão para novas áreas
  • Redirecionar subsídios que hoje ampliam a capacidade pesqueira para o fortalecimento da pesca de pequena escala.

Acesse o estudo completo: O impacto da pesca de arrasto de fundo na segurança alimentar

Assista ao documentário 12 Milhas – Uma luta contra a pesca de arrasto, produzido pela Oceana.