“No tema do plástico, a gente precisa de muitas microrrevoluções”  - Oceana Brasil
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Julho 10, 2026

“No tema do plástico, a gente precisa de muitas microrrevoluções” 

Por: Oceana

O TEMA: Plásticos

Por meio da comunicação e do engajamento digital, o projeto Verdes Marias influencia milhares de pessoas a adotarem hábitos mais sustentáveis, guiadas pelo lema “menos lixo, mais orgânicos e uma vida mais consciente”. Foto: Carolina Prado Pinto

 

Em 2018, as irmãs Mariana, Maria Carolina e Maria Clara Bombonato Moraes se uniram para criar o projeto Verdes Marias. Por meio da comunicação e do engajamento digital, elas influenciam milhares de pessoas a adotarem hábitos mais sustentáveis, guiadas pelo lema “menos lixo, mais orgânicos e uma vida mais consciente”. Juntas, elas entenderam que “se você unir sustentabilidade com entretenimento, você acessa as pessoas”.  

Nesta edição da Oceana Entrevista, aproveitando a realização do movimento global Julho Sem Plástico, conversamos com Mariana e Maria Clara. Elas nos contam sobre o surgimento do projeto, explicam como utilizam as redes sociais como ferramenta de conscientização ambiental e nos revelam ainda de que forma o combate à poluição por plástico ganhou destaque em suas atuações digitais. 

Para começar, vocês poderiam nos contar o que é o projeto Verdes Marias 

Verdes Marias é um movimento para inspirar as pessoas a levarem uma vida mais sustentável por meio de microrrevoluções, que são as pequenas atitudes que a gente pode fazer no dia a dia. Há sete anos, nós montamos o projeto:  eu [Mariana], publicitária e jornalista; Clara, jornalista e atriz; e a Carol, fotógrafa e arquiteta. Nós sempre gostamos muito de comunicação, uma ferramenta fortíssima para mudança de comportamento, especialmente em relação à sustentabilidade. Atualmente, sou eu e a Clara que estamos na ativa, a Carol não está mais presente no dia a dia do Verdes Marias. 

A nossa ideia com esse projeto é olhar para três eixos: menos lixo, mais orgânicos e uma vida mais consciente; além de pensar como podemos trazer soluções relacionadas a esses três temas. No fundo, quando a gente fala de “menos lixo”, não estamos falando de lixo especificamente. Claro, ele é um problemão, mas estamos considerando o consumo e a forma como consumimos: O que a gente consome? Por que consumimos? Qual é o material? De onde vem e para onde vai esse material depois que vira lixo? As pessoas são muito afastadas desse tema, mas o lixo impacta todo mundo, inclusive, estilo de vida, olhar de mundo, posicionamentos de vida. A gente descobre muitas coisas das pessoas só olhando para o que elas chamam de lixo. 

Quando falamos “mais orgânicos”, não estamos nos referindo apenas a maçã, banana, mas também aos cosméticos que usamos, às roupas que vestimos. Por que chamamos de orgânico o que é ou deveria ser o natural? Deveria ser o que está mais abundante nas prateleiras dos lugares. 

E quanto a “uma vida mais consciente”, isso passa por muitos aspectos, não só a forma como a gente consome e tem consumido ao longo dos anos – porque consumo é escolha. Mas também cabe considerar a saúde mental e a nossa relação com a natureza, que está muito afastada. Então, é um tema muito relevante. Que a gente possa lembrar as pessoas de tirarem o sapato, de se relacionarem e valorizarem a natureza, de entenderem a necessidade de mantermos a floresta em pé. Uma vida consciente envolve tudo isso.  

Como a influência digital se tornou uma ferramenta para abordar meio ambiente no dia a dia? 

A gente usa o meio digital porque é o que está disponível agora. Temos a sorte de viver numa geração em que todo mundo pode ter voz, não só alguns grupos detentores da comunicação.  Poder usar as redes sociais para falar de sustentabilidade para nós é uma super oportunidade. E começamos a usar a influência digital da forma que acreditamos, que passa por comunicar sustentabilidade e meio ambiente de forma simples, leve, acessível. Eu acredito cada vez mais que quanto mais pé no chão, mais leve, mais acessível for a nossa comunicação, com mais públicos a gente fala. 

E isso somado ao fato de que trabalhei minha carreira inteira com sustentabilidade e a Clara com TV, jornalismo e trabalhos relacionados. A Clara traz o entretenimento, e eu trago essa parte mais acadêmica.  Juntas, entendemos que se você unir sustentabilidade com entretenimento, você acessa as pessoas. Nós percebemos a importância de fazer desse tema algo leve, divertido, mas que traga o que precisa ser dito. 

Pode nos falar um pouco mais sobre como as microrrevoluções podem transformar a sociedade? 

Criamos esse conceito de microrrevoluções porque é uma palavra que traz todo mundo para perto. Nós gostamos muito de mostrar como somos capazes de ser agentes de transformação. O que é uma microrrevolução? Transformar seu escritório, sua cidade, mudar seus hábitos, votar melhor. Tudo isso são microrrevoluções. É um conceito que acaba trazendo e agregando mais pessoas. E as ações podem ser infinitas. Desde olhar para o seu consumo, para o tipo de postura diante do seu descarte, como você pode votar melhor nas eleições, qual a escola dos seus filhos, quais os seus hábitos. Quando você sai de casa, você leva sacolinha? Você escolhe cerveja em lata?  São várias atitudes que podemos escolher e que contribuem para isso. 

Quando você fala para o indivíduo fazer uma coisa muito grande, muitas vezes ele não tem nem vontade ou não se sente capaz. Mas se você fala, começa pequeno, ele fala: “ah, isso eu sou capaz de fazer”.  Isso é algo que começa pequenininho e vai crescendo. Então, essa é uma forma de não deixar ninguém de fora, porque as pessoas falam “ah, é para evitar o plástico, eu consigo fazer isso. É para trocar o transporte individual pelo transporte coletivo sempre que possível? Isso eu consigo fazer algumas vezes”. Entendeu? Então, dessa forma é possível começar a educar as pessoas a perceberem que elas também fazem parte desse processo de mudança.  

E essas microrrevoluções podem transformar a sociedade porque todas as mudanças que já aconteceram na humanidade, tanto para bom quanto para ruim, contaram com pessoas. A gente sempre ouve: “Ai, mas os governos que têm a capilaridade para fazer mudanças, as empresas que têm o orçamento…”. Mas por trás de todos os governos, de todas as empresas, têm um conjunto de pessoas; e são essas pessoas que podem fazer com que a gente tenha um impacto menor e sofra menos com as mudanças, principalmente as mudanças climáticas que estão chegando numa velocidade bem rápida. 

Como vocês têm dialogado com a audiência sobre a poluição por plástico e quais dicas dão para quem quer reduzir o uso de descartáveis, mas não sabe por onde começar? 

No Verdes Marias, começamos a perceber como esse tema é ainda muito distante das pessoas. Ninguém tem a menor noção de que o plástico pode ser um problema, de que ele traz questões para saúde. As poucas pessoas que já sabem que o plástico tem questões, as atribuem apenas às questões ambientais – o que muita gente ainda não se importa – e não ao fato de que isso impacta diretamente a saúde. O nosso diálogo tem destacado mais o impacto à saúde do que ao próprio meio ambiente 

O que fazemos é puxar o simples: o consumo do dia a dia, as coisas que estão próximas, a escova de dente, a roupa de poliéster, os potinhos de plástico, coisas desse tipo. A gente se aproxima mais do que a pessoa é capaz de mudar. O que sempre recomendamos é começar a olhar para isso, buscar primeiro tirar os [plásticos] de uso único – canudinho, copinho, garrafinha de água, cotonete. Tudo que você usa uma vez só e descarta, que são os mais fáceis de assimilar e tirar, e depois começar a olhar para as outras coisas da sua casa. 

“Será que isso de plástico eu não posso trocar por outro material, de vidro, de pano? Será que não posso trocar a minha roupa por uma roupa de algodão?” Outra coisa que a gente tem sentido também é que quando você pressiona muito, as pessoas espanam. Elas reagem como se tivessem um pequeno burnout, do tipo “eu não vou conseguir!” “Isso é muito complexo!” e desencanam, vão quase que para o extremo oposto. Outro dia uma pessoa me ligou e falou: “Ai, Mari, eu tô muito preocupada porque eu não consigo tirar tudo”. Eu falei: “Não tira tudo. Vai tirando devagar”.  Vai fazendo essas escolhas devagar, porque isso gera muito estresse. Mas o principal é a gente ir aos poucos e começar a enxergar o [o problema do] plástico. 

Neste mês acontece o movimento global Julho Sem Plástico, que mobiliza pessoas a reverem seus hábitos de consumo para diminuir a geração de resíduo plástico. Como o Verdes Marias se soma e contribui para essa mobilização? 

Julho Sem Plástico é uma oportunidade para as pessoas começarem a observar seus hábitos de consumo, porque o plástico está tão enraizado culturalmente na nossa vida que nem percebemos. E quando tem uma tarefa, uma campanha, uma mobilização, elas se transformam em oportunidades. A primeira vez que eu soube do Julho Sem Plástico, eu fiquei muito motivada, apaixonada. Nós passamos o mês inteiro em função disso. E foi incrível, primeiro para se frustrar, entender que o buraco é muito mais profundo, que é muito mais difícil do que a gente imaginou. 

 A gente se mobiliza pela mudança. Então, quando eu percebi os desafios, eu pensei: “O que mais? Qual é o novo caminho que eu preciso tomar?” Mas acho que foi também mobilizador porque começamos a entender que esse tema ainda é muito incipiente para as pessoas. Quem é do meio conhece essa data [Julho Sem Plástico], mas a maioria das pessoas nunca nem ouviu falar. 

Tem que ter um esforço coletivo para a gente continuar puxando o Julho Sem Plástico para ajudar as pessoas a reverem seus hábitos. No Verdes Marias, mostramos quais são essas alternativas ao plástico, porque as soluções já existem. A gente só precisa de dinheiro e força política para a mudança. 

Já teve uma época em que a gente mostrava a nossa mudança de hábito. Agora o que a gente mais preza é mostrar primeiro como você reduz e, segundo quais são as alternativas. Somos bem apaixonadas por alternativas. Eu não gosto só de trazer o problema, gosto de trazer o problema atrelado a uma solução. E, no caso do plástico, algumas coisas têm soluções, outras não têm. 

Como dividir a responsabilidade pelo problema da poluição por plástico com a indústria e governo? 

 Acreditamos muito que a contribuição pessoal, o envolvimento das pessoas é fundamental, mas não dão conta de resolver o problema. São necessárias políticas públicas que possam direcionar esse problema de uma forma mais ampla, dar o caminho das pedras para as empresas, para os governos, para os indivíduos poderem contribuir.  

Projeto de Lei 2524/2022 olha para o problema e propõe um conjunto de soluções. A gente sempre fala que o problema [da poluição por plástico] é complexo, e não se resume a uma resposta única. O Brasil está na lista dos dez países que lideram a poluição por plástico no mundo, é o maior produtor de plástico da América Latina. A gente coloca 500 bilhões de itens de embalagens plásticas no mercado todo ano e despeja mais de 1 milhão de toneladas de resíduos plásticos no oceano.  

Os números são muito altos por aqui e precisam ser olhados o mais rápido possível, porque tem consequências ambientais, impactos na pesca, no turismo, na nossa saúde, na nossa vida como um todo. É fundamental que, de um lado, a gente tenha novas leis que possam regularizar o tema e, do outro, educação ambiental para as pessoas entenderem o porquê dessa lei.  

A campanha Pare do Tsunami do Plástico é isso:  faz pressão, traz o tema para a população, simplifica a linguagem, acessa outras pessoas. O mais importante agora é trazer mais pessoas para somar, levar a mais gente, ampliar o debate, levar a campanha para frente. Não precisa ser influenciador, jornalista… todo mundo comunica: o taxista pode levar para seus clientes, a padaria pode não oferecer sacolinha plástica e contar o porquê da ação, as crianças podem contar para os pais, todo mundo pode contribuir. Isso é o que a gente chama de mobilizar microrrevoluções. 

No tema do plástico, precisamos de muitas microrrevoluções: uma pessoa parando de consumir canudinho não tem impacto, mas 7 bilhões, certamente, sim. Então, é nisso que a gente acredita.