Abril 1, 2026
Por que plásticos no oceano são tão prejudiciais?
Por: maiaradourado
O TEMA:
Nesta edição de Mar Aberto: especialistas respondem, Daniel Pauly, cientista pesqueiro, fundador e pesquisador do projeto Sea Around Us, no Instituto de Oceanos e Pesca da Universidade de Colúmbia Britânica, e membro do Conselho da Oceana, responde a essa pergunta e afirma: “precisamos desplastificar o mundo”.

Até a década de 1950, os animais na Terra, incluindo os marinhos, lidavam basicamente com detritos e resíduos orgânicos ou objetos produzidos ou derivados de plantas e animais. Isso incluía madeira, fibras, carne em decomposição, ossos ou outros materiais que poderiam ser degradados por bactérias e fungos e, assim, transformados novamente em nutrientes ou convertidos em minerais que não causavam poluição. Por muito tempo, esses organismos microscópicos reciclaram matéria orgânica na Terra e em nossos oceanos e, literalmente, mantiveram o nosso mundo limpo.
Isso mudou radicalmente com a chegada dos plásticos.
Os químicos consideram os plásticos “orgânicos” porque, como a maioria das substâncias vivas, eles são formados por cadeias de átomos de carbono. No entanto, a maioria dos plásticos deriva do petróleo e é formada por longas cadeias de átomos de carbono com estruturas que as bactérias nunca encontraram em seus 3 bilhões de anos de existência. Assim, cada pedaço de plástico que jogamos fora, de sacolas plásticas a lâminas de barbear descartáveis e frascos vazios de detergente, pode permanecer no ambiente por séculos ou até mais.
Os plásticos não podem ser queimados com segurança porque algumas de suas cadeias de carbono, sob altas temperaturas, se ligam e formam compostos que se tornam verdadeiros Frankenstein [1], como as dioxinas, que são altamente tóxicas para todas as formas de vida, incluindo nós, seres humanos[2]. E a maior parte dos plásticos também não pode ser reciclada com segurança devido aos milhares de produtos químicos adicionados em sua composição, muitos dos quais são tóxicos e acabam sendo incorporados aos produtos reciclados [3].
Assim, enquanto o alumínio pode ser reciclado infinitamente, o plástico apenas passa por downcycling.
Ou seja, plásticos de alta qualidade, como os usados para fabricar colheres descartáveis, são transformados em plásticos de qualidade inferior, como os utilizados na fabricação de bancos de praça (e cabe dizer que nós não precisamos de tantos bancos de praça assim).
Mas o mais provável é que os resíduos plásticos acabem em aterros sanitários ou no meio ambiente, inclusive nos ecossistemas marinhos [4].E, quando se trata de oceanos, é importante distinguir entre dois tipos de poluentes plásticos: macro e microplásticos.
Os macroplásticos compõem o lixo que vemos flutuando na superfície do mar ou próximo a ela, onde formam gigantescas “manchas de lixo” – cada vez maiores – nos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Esse tipo de poluição representa uma ameaça crescente para aves e tartarugas marinhas, baleias e outros mamíferos do mar, que podem confundir esses resíduos com alimentos e morrer em agonia, com o estômago cheio de lixo volumoso e indigerível [5].
Esses animais também podem se enroscar em pedaços flutuantes de plástico e se afogar. Em outros casos, anéis plásticos podem se prender ao pescoço ou ao corpo, causando mutilações graves e imenso sofrimento até a morte, devido aos ferimentos infeccionados.
Pior ainda são os microplásticos – invisíveis a olho nu, mas causam grande impacto.
São pedaços minúsculos, muitas vezes quase imperceptíveis, que atualmente podem ser encontrados em todos os mares do mundo.
Para entender completamente os impactos e dos microplásticos, precisamos analisar outra propriedade desagradável das longas cadeias de carbono: elas tornam o plástico lipofílico, que é uma forma técnica de dizer que os plásticos repelem a água (razão pela qual capas de chuva são feitas com fibras plásticas).
Acontece que a maioria dos piores venenos que a indústria química produz – como DDT, PCB e dioxinas, dentre outros – também são lipofílicos.
Assim, cada pedaço de microplástico que está no oceano funciona como uma minúscula esponja para os vários venenos que as indústrias química e energética descartaram no ambiente, seja em cursos d’água ou no ar, e que acabam chegando no mar, onde passam a se acumular.
Esses produtos químicos aderem a essas micropartículas, transformando-as em minúsculas pílulas de veneno que acabam sendo ingeridas por pequeninos animais semelhantes a insetos, chamados de zooplâncton, que armazenam substâncias lipofílicas na gordura de seus pequenos corpos [6]. Esse processo é chamado de bioacumulação.
Posteriormente, esse zooplâncton já contaminado é consumido por pequenos peixes, como sardinhas e anchovas, que, por sua vez, são comidos por atuns e aí… “bom apetite”!
É por isso que precisamos desplastificar o mundo com urgência, começando pela redução do absurdo volume de plásticos de uso único produzidos e descartados.
* *Artigo de Daniel Pauly, originalmente publicado na Oceana Magazine de 2023; e novamente em 2024, na publicação Pergunte ao Dr. Pauly: Respostas para a conservação dos oceanos (em tradução livre, disponível em inglês).
Referências:
1. Referência ao romance Frankenstein (1818), de Mary Shelley, em que a criatura é formada pela junção de partes de diferentes corpos — razão pela qual o termo é frequentemente usado como metáfora para composições feitas de “retalhos”.
2. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S187802961630158X
3. https://ipen.org/documents/plastics-toxic-additives-and-circular-economy
4.https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.1700782
5. https://usa.oceana.org/reports/choked-strangled-drowned-plastics-crisis-unfolding-our-oceans/
6. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0025326X12005942
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