Por que o Brasil precisa acompanhar o estado de seus estoques pesqueiros? - Oceana Brasil
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Setembro 25, 2026

Por que o Brasil precisa acompanhar o estado de seus estoques pesqueiros?

“Acompanhar e avaliar os estoques não é uma tarefa pontual, mas um trabalho permanente”, explica o professor Luis Gustavo Cardoso. Foto: Oceana/ Rodrigo Gorosito

 

Há anos, a Oceana vem lutando contra o apagão de dados que tanto prejudica a pesca brasileira. A primeira Auditoria da Pesca Brasil, ainda em 2020, já destacava que o país pescava no escuro, sem saber o que pesca, quanto pesca ou qual a situação das populações de pescado. Mas por qual razão isso é importante, afinal? Oceanólogo e doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), o professor Luis Gustavo Cardoso explica à série Mar aberto: especialistas respondem a quem isso importa e por quê.

 

Professor Luis Gustavo Cardoso, homem de cabelo e barba pretos, de terno e gravata
Dr. Luis Gustavo Cardoso. Foto: Acervo pessoal.

Imagine uma fazenda de gado. Se os abates superarem por muito tempo o nascimento e o crescimento dos animais, o rebanho diminui e a produção pode colapsar. Com os recursos pesqueiros acontece algo parecido: crescimento e reprodução repõem biomassa, enquanto mortalidade natural e pesca a reduzem. A pesca excessiva e sem controle pode diminuir a quantidade de pescado a níveis em que a atividade colapsa. Por isso, é preciso estimar o tamanho do estoque e a sua capacidade de reposição de forma rotineira para definir retiradas sustentáveis.

Acompanhar um estoque começa por saber onde ele começa e onde termina. Peixes da mesma espécie nem sempre pertencem ao mesmo grupo. A corvina encontrada no Sul do Brasil, por exemplo, pode formar um estoque diferente daqueles que vivem em outras partes da costa. Cada estoque tem sua própria área de reprodução e sua própria dinâmica. E se todos forem reunidos na mesma conta, o resultado pode enganar: um diminui, outro permanece estável, e a média esconde o problema. Antes de decidir quanto pescar, portanto, é preciso responder a uma pergunta mais básica: qual estoque está sendo pescado?

Numa fazenda, o rebanho pode ser observado e contado com relativa facilidade. Já os peixes vivem sob a água, deslocam-se livremente e não podem ser contados diretamente. Por isso, não basta observar a quantidade de pescado desembarcada. Uma captura estável pode esconder o aumento do número de barcos ou o uso de equipamentos mais eficientes. Seria como avaliar o tamanho de um rebanho apenas pelo número de animais abatidos, sem saber quantos ainda restam no campo. Para estimar o estado de um estoque, as avaliações combinam dados de captura e esforço de pesca com informações sobre tamanho, idade, reprodução, recrutamento, mortalidade e seletividade da pesca.

Para subsidiar o manejo sustentável, as avaliações formulam modelos matemáticos que procuram responder a três perguntas: qual é o tamanho atual do estoque; qual é a intensidade da pesca; e se esse nível de exploração pode ser mantido no longo prazo. Também permitem comparar cenários de manutenção ou redução da pressão. Nenhum modelo é uma bola de cristal: os resultados dependem dos dados e das hipóteses adotadas. Por isso, avaliações confiáveis devem ser reproduzíveis e explicitar métodos, incertezas e limitações.

Sem informação atualizada, a gestão pesqueira navega quase às cegas. As medidas podem chegar tarde, impor restrições desnecessárias ou aplicar a mesma regra a estoques que vivem situações diferentes. Quando se sabe o que está acontecendo, é possível escolher melhor: ajustar limites de captura e de esforço, rever tamanhos mínimos, definir períodos de defeso e proteger áreas importantes.

A ciência não faz essas escolhas sozinha. Decidir exige considerar também a vida das pessoas, a economia e a cultura de cada pescaria. Mas a ciência pode iluminar o caminho: mostra as opções, os riscos e as consequências de cada decisão.

Há outra razão para cuidar dos estoques pesqueiros: em muitos casos, o pescado selvagem chega à mesa com um custo ambiental menor do que outras proteínas animais. A pesca não exige pastagens nem plantações destinadas à produção de ração. Em geral, utiliza menos insumos e pode deixar uma pegada de carbono menor. Isso, porém, não vale para toda pescaria. O impacto depende da espécie e da forma de captura. Ainda assim, estoques saudáveis e bem manejados podem fornecer alimento com baixo custo ambiental. Se essa fonte desaparece, a demanda por proteína não desaparece, mas migra para outras formas de produção, muitas vezes mais impactantes.

Os resultados observados no mundo mostram o que uma boa gestão pode fazer. Onde os estoques são pouco acompanhados e a gestão é frágil, a pressão de pesca chega a ser três vezes maior e a quantidade de peixes no mar cai pela metade, em comparação com regiões melhor administradas. O caminho inverso também funciona: em estoques intensamente monitorados, a identificação de níveis críticos de biomassa permite adotar medidas para reduzir a pressão de pesca e, com isso, criar condições para que a biomassa volte a crescer. Essa recuperação, no entanto, leva tempo. Por isso, acompanhar e avaliar os estoques não é uma tarefa pontual, mas um trabalho permanente.

No Brasil, o desafio é ampliado pela extensão da costa e pela variedade de pescarias, das industriais às artesanais, que frequentemente capturam várias espécies. Não existe um modelo adequado para todas elas. O país precisa de abordagens compatíveis com os dados disponíveis, sem abrir mão de critérios mínimos de qualidade, além de estatísticas consistentes, pesquisas permanentes e participação das instituições científicas e de quem produz conhecimento no mar.

Acompanhar os estoques permite agir antes que a escassez vire crise, verificar se as medidas funcionam e corrigir o rumo. Não se trata de escolher entre pescar e conservar, mas de criar condições para continuar produzindo alimentos de baixo custo ambiental.