Setembro 29, 2025
Canadá divulga primeiros planos obrigatórios para recuperar espécies sobrepescadas
Por: Oceana
O TEMA: Recuperar os estoques pesqueiros
Estratégias irão impulsionar a economia e fortalecer a segurança alimentar; no Brasil, 92% das populações de peixes não possuem planos de gestão
O governo do Canadá divulgou, neste mês de setembro, 12 novos planos de base científica, com cronogramas e metas claras, para restaurar as populações de peixes que se encontram esgotadas ou reduzidas pela pesca excessiva. Se implementadas de forma eficaz, essas estratégias podem fortalecer as pescarias costeiras e indígenas, construir ecossistemas mais resilientes e garantir segurança alimentar a longo prazo. Além disso, ao buscar restabelecer a abundância dos pescados nos oceanos, elas também podem revitalizar as economias locais e garantir meios de subsistência para as gerações futuras.
“Os planos de recuperação são a base para o trabalho de pescadores canadenses no presente e no futuro. O governo federal [do Canadá] deu um passo há muito aguardado e vital, e esse compromisso permanente será fundamental para o sucesso das pescarias”, disse Rebecca Schijns, cientista pesqueira da Oceana no Canadá. “Queremos muito vê-los implementados, assim como outros compromissos com a restauração de todas as populações sobrepescadas. É assim que construímos resiliência diante de um futuro em transformação”, complementa.
Os novos planos abrangem as principais pescarias canadenses. No Oceano Atlântico, engloba peixes forrageiros icônicos, como a cavalinha e o arenque; o bacalhau, que possui forte importância econômica e cultural para o país; e peixes de fundo, como o linguado-americano, o linguado-de-inverno e a merluza-branca. Já na costa do Pacífico, os planos incluem espécies cultural e ecologicamente importantes, como o salmão-rei e o arenque.
Estratégias combinadas
Um plano de recuperação é uma estratégia científica de gestão pesqueira planejada para restabelecer uma população sobrepescada ou esgotada para níveis saudáveis e sustentáveis, enquanto possibilita a continuidade da pesca de forma responsável, quando possível.
Os 12 planos apresentados pelo Canadá contêm elementos essenciais, como:
- Objetivos e cronogramas mensuráveis para orientar a recuperação a longo prazo;
- Metas claras de recuperação, algumas visando atingir a zona saudável;
- Limites de pesca ou moratórias, quando necessário, para dar às populações a chance de se recuperarem;
- Transparência e rastreamento, para monitorar o progresso e fazer ajustes.
O caso do arenque do Pacífico, por exemplo, pescado no arquipélago de Haida Gwaii, se destaca como modelo de gestão pesqueira colaborativa e de alta qualidade. Desenvolvido em conjunto pelo Conselho da Nação Indígena Haida, pelo Departamento de Pesca e Oceanos do Canadá (Fisheries and Oceans Canada) e pela agência de governo responsável pelos parques canadenses (Parks Canada), o plano prioriza uma abordagem ecossistêmica e inclui efetivamente os Sistemas de Conhecimento Indígena, levando em conta que a espécie não é apenas um recurso pesqueiro, mas parte fundamental do ecossistema marinho e da cultura Haida.
“O plano de recuperação do arenque do Pacífico se baseia no compromisso de um trabalho conjunto, feito em um espírito de reconciliação e definindo como será um ecossistema de arenque recuperado, de forma a incluir aspectos ecológicos, culturais, sociais, econômicos, de governança e de gestão”, afirma Russ Jones, representante da Nação Haida.
Segundo ele, “o plano incorpora o conhecimento tradicional Haida, considera uma estrutura espacial mais precisa do que propunham as avaliações de estoque anteriores, e estabelece pontos de referência consensuais para avaliar avanços”. Além disso, explica Jones, “adota uma abordagem cautelosa à reabertura das pescarias e prioriza a pesca comercial de baixo impacto”.
Modelo de gestão
Evidências globais e análises realizadas pela Oceana mostram que a maioria das populações de pescados sobrepescadas podem ser restabelecidas quando são implementados e aplicados planos científicos de recuperação. O lançamento desses 12 primeiros planos comprova que o Canadá começou a tomar as medidas necessárias para tornar isso possível. Com uma implementação eficaz, esse processo pode preparar o terreno para a recuperação das pescarias em grande escala, garantindo oceanos saudáveis que forneçam pescado sustentável, apoiem economias costeiras e protejam a biodiversidade.
No Brasil, por exemplo, os dados da Auditoria da Pesca Brasil 2024 mostram que 92% das populações de peixes não possuem planos de gestão. “O Canadá poderá ser um modelo para todo o mundo ao implementar esses avanços. Para falar em oceanos abundantes e pescarias sustentáveis, precisamos, obrigatoriamente, falar em instrumentos de gestão que transformem a ciência em regras que garantam o uso equilibrado dos recursos. E agora, mais do que nunca, esses planos também precisam incorporar ferramentas de adaptação às mudanças climáticas. O Brasil, infelizmente, ainda não faz nada disso”, alerta o diretor científico da Oceana, Martin Dias.
MOST RECENT
Abril 29, 2026
Abril 24, 2026
Abril 14, 2026
Abril 7, 2026
Pesca de arrasto prejudica segurança alimentar de comunidades costeiras, aponta nova pesquisa