Super El Niño: o que é, por que preocupa e como pode afetar sua vida  - Oceana Brasil
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Junho 18, 2026

Super El Niño: o que é, por que preocupa e como pode afetar sua vida 

Por: Oceana

O El Niño é um fenômeno climático natural que começa no oceano. As águas do Pacífico central e oriental ficam mais quentes do que o normal, gerando uma reação em cadeia que altera o clima em todo o mundo. Foto: Agência Brasil/ Bruno Peres

 

O oceano pode mudar significativamente o clima de onde você mora ainda neste ano. Modelos climáticos apontam uma altíssima probabilidade de consolidação de um Super El Niño nos próximos meses. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, afeta todo o planeta. No caso do Brasil, há uma variação de impactos entre as diferentes regiões do país, que vão desde excesso de chuva e alagamentos até secas intensas.  Mas o que isso significa de verdade? Por que devemos nos importar? E, principalmente, como podemos nos preparar para isso? 

O que é um El Niño? 

O El Niño é um padrão climático natural que começa no oceano. Periodicamente – mas é difícil precisar de quanto em quanto tempo –, as águas do Pacífico central e oriental ficam mais quentes do que o normal, gerando uma reação em cadeia que altera o clima em todo o mundo – não apenas nos ambientes marinhos – e que pode durar, em média, entre 9 e 12 meses. 

Em condições oceânicas normais, ventos constantes (chamados de ventos alísios) sopram para o oeste através do Pacífico, empurrando a água quente para a Ásia e a Austrália. Com isso, permite que a água mais fria suba ao longo das costas oeste das Américas do Norte e do Sul. Mas, durante um El Niño, esses ventos alísios podem perder força ou até mesmo inverter sua direção. Assim, a água quente retorna às Américas e aquece o ar acima dela, alterando a formação de nuvens e de tempestades. 

Além do El Niño, um outro fenômeno bem conhecido é a La Niña – que gera as condições opostas: ventos alísios mais fortes que o normal empurram a água quente em direção à Ásia, fazendo com que águas frias subam no leste do Oceano Pacífico.  

Em ambos os casos, os efeitos dessas alterações podem ser sentidos a milhares de quilômetros de distância e de formas diferentes ao redor do mundo. O El Niño, especificamente, costuma gerar: 

  • No norte dos Estados Unidos e no Canadá, condições mais secas e quentes; 
  • Na costa leste da América do Sul, que inclui o Brasil, temperaturas mais altas, que originam aumento de chuvas ao sul e de seca mais ao norte; 
  • Na costa oeste das Américas (do Canadá ao Peru), chuvas mais intensas, aumentando os riscos de inundações e deslizamentos de terra; 
  • Na Austrália e no sudeste Asiático, as condições podem ficar mais quentes e secas, aumentando o risco de estiagem, escassez de água e incêndios florestais. 

Em termos gerais, os padrões de tempestades também tendem a mudar. Furacões e ciclones no Oceano Pacífico costumam ficar mais fortes nos anos de El Niño, aumentando o risco para países insulares, como Japão e Filipinas. Por outro lado, no Atlântico, a atividade dos furacões diminui. 

O que isso significa para a vida marinha? 

O El Niño não apenas altera os padrões climáticos, ele transforma ecossistemas inteiros. Quando a água mais quente se espalha pelo leste do Pacífico, bloqueia a água fria e rica em nutrientes que costuma subir das profundezas do oceano ao longo das costas oeste das Américas. Essa água fria é a base das cadeias alimentares oceânicas e, sem ela, pequenos organismos, como o plâncton, têm dificuldade para sobreviver. Como eles, por sua vez, servem de alimento para peixes pequenos, e esses peixes pequenos servem de alimento para animais maiores, os efeitos se propagam por toda a cadeia alimentar. 

Sem peixes suficientes, animais como leões-marinhos, aves marinhas e golfinhos precisam ir muito mais longe para encontrar comida ou correm o risco de passar fome. Algumas espécies que preferem água fria, como os pinguins de Galápagos, também podem estar em risco. Além disso, recifes de coral também enfrentam maiores riscos de branqueamento e mortandade devido às temperaturas mais quentes. 

Todas essas mudanças acabam por interferir diretamente na pesca, já que quando as águas mudam de temperatura os peixes migram (e, em alguns casos, até desaparecem). Com isso, diminui drasticamente a atividade pesqueira, que é essencial para a geração de alimento, trabalho e renda em países como Peru e Chile.  

O que faz com que um El Niño seja “Super”? 

O Super El Niño é como um El Niño ainda mais intenso. Ele ocorre quando as temperaturas oceânicas sobem muito acima do normal, fazendo com que inundações, secas e tempestades fiquem mais severas e generalizadas ao redor do globo.  

Entre 2015 e 2016, tivemos um Super El Niño que demonstrou do que esse fenômeno é capaz, causando inundações catastróficas no Peru, incêndios florestais muito extremos na Indonésia, chuvas e alagamentos no sul do Brasil, além de fazer com que 2016 fosse um dos anos mais quentes já registrados até então. 

Além disso, vale destacar que, apesar de esse ser um fenômeno natural, cientistas vêm observando como as mudanças climáticas podem tornar os eventos do Super El Niño mais comuns ou mais intensos. Isso acontece porque, à medida que os oceanos aquecem, eles podem fornecer mais energia aos processos que influenciam o fenômeno, potencializando os eventos climáticos extremos e, consequentemente, seus impactos associados. Assim, com muitas comunidades e ecossistemas já sob pressão, é mais necessário do que nunca acompanhar as previsões e entender os possíveis efeitos do Super El Niño de 2026. 

No início de junho, o secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, informou que a ciência é clara sobre a chegada do El Niño nos próximos meses. “O mundo deve tratar isso como o alerta climático urgente que é. As condições do El Niño vão intensificar um mundo já em aquecimento. Os impactos serão ainda mais fortes e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora. A única resposta eficaz é uma ação climática equivalente à crise: acabar com o vício em combustíveis fósseis, acelerar a transição para as fontes renováveis, proteger os mais vulneráveis e fornecer sistemas de alerta precoce para todos”, declarou. 

E o Brasil, como fica nesse cenário? 

Se o ritmo do aquecimento das águas do Pacífico continuar pelos próximos meses, o Brasil deve sentir consequências significativas. “O El Niño tem impactos de seca no norte e no leste da Amazônia e no norte do Nordeste, durante o primeiro semestre do ano. Para o Sul do Brasil, o impacto é na primavera, com o aumento das chuvas”, explicou em entrevista o meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Gilvan Sampaio.   

Especialista no tema, ele lembra que o Sul do Brasil teve episódios de chuvas muito intensas durante o El Niño de 2023 e, depois, sofreu outro impacto entre abril e maio de 2024. Da mesma forma, isso pode voltar a ocorrer agora, com efeitos prolongados. Segundo ele, “a depender da intensidade, o principal impacto nos próximos meses serão temperaturas mais altas do que a média histórica. E se o El Niño persistir no segundo semestre de 2026, poderá ter impactos no ano que vem”. 

Sampaio também indica que o inverno um pouco mais quente no Sul, Sudeste e em parte do Centro-Oeste pode trazer problemas como atraso na próxima estação chuvosa. “Hoje, os reservatórios do Sudeste estão com problemas. Persistindo a seca, o problema pode ser potencializado para o ano que vem.” Já na Amazônia, o El Niño pode provocar secas no norte e no leste, ocorrendo no primeiro semestre do ano, que é o período chuvoso na região. 

Como os países podem se preparar? 

Felizmente, cientistas agora conseguem detectar as condições do El Niño (e do Super El Niño) com meses de antecedência, o que nos dá tempo de preparação. Isso pode demandar de governos e comunidades costeiras o reforço das defesas contra inundações, implementação de programas de conservação de água, preparo de estoques alimentares de emergência e ações prioritárias e estratégicas para tornar as pescarias e as comunidades mais resilientes, como recomenda a Oceana desde o ano passado 

“Quanto mais precoce o alerta, maiores as chances de as comunidades se protegerem”, explica Ana Silverio, cientista da Oceana. “O El Niño é um poderoso lembrete de que tudo na Terra está interligado: uma alteração em uma parte do oceano pode remodelar o clima em todo o planeta. E, considerando que o nosso clima continua mudando, nunca foi tão importante entender e se preparar para eventos como um Super El Niño”, conclui ela. 

*Texto produzindo a partir do artigo What a Super El Niño could mean for our planet this year, de Ana Silverio, publicado originalmente no site internacional da Oceana.