Sem o arrasto, pescarias melhoram no Rio Grande do Sul - Oceana Brasil
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Abril 29, 2022

Sem o arrasto, pescarias melhoram no Rio Grande do Sul

O TEMA: 

Salomar do Canto pescou artesanalmente por 20 anos na região do município de Xangri-lá, na região norte do litoral do Rio Grande do Sul. Há dois anos, se aposentou da sua profissão principal, mas a pesca não saiu da sua vida. Aos 57 anos, ocupa dois postos de liderança dos pescadores na região. É presidente da Associação dos Pescadores de Xangri-lá, com cerca de 80 associados, e preside a Colônia Z-30, com aproximadamente 280 sócios, entre pescadores de água doce e do mar. Ainda, dá aulas nos cursos da marinha para condutores de barcos na região. Apaixonada pela atividade pesqueira e pela comunidade de pescadores, ela revela um novo ânimo com a volta das espécies de peixes que há muito não apareciam no litoral – o que só foi possível devido à suspensão da pesca de arrasto nas doze milhas náuticas do estado, desde 2018.

Como é o seu dia a dia na liderança da Colônia A-30 e da Associação dos Pescadores de Xangri-Lá?

Trabalho na minha própria casa, não temos uma sede própria. É lá que eu atendo todo mundo. O trabalho tem uma parte muito burocrática, que é de documentação, encaminhamento das carteiras de pesca. Também atuo nos processos de seguro-defeso, pedidos de licenças, auxílio-maternidade, entre outros trabalhos. Além disso, discutimos o dia a dia, acompanhamos se nossos direitos e obrigações estão sendo cumpridos, é um trabalho de contato com todo mundo, e que eu gosto muito de fazer. Além dessa função, eu adoro também trabalhar com a Marinha, nos cursos para condutores que eles fazem, onde dou cursos sobre peixes em geral, pescarias, armazenagem, congelamento, limpeza e também sobre as responsabilidades e direitos dos pescadores e as regras da Colônia e da Associação.

Qual é a sua avaliação da pesca no litoral gaúcho nos últimos anos?

Nós vimos uma melhora muito grande nas capturas depois de 2018, quando entrou em vigor a lei que proibiu o arrasto nas 12 milhas náuticas. As pescarias estão muito melhores agora, tanto na quantidade quanto na qualidade dos peixes. As pessoas estão pescando com mais capacidade. Está bonito de se ver.

Quando foi autorizada a volta do arrasto, ficamos muito tristes, mas já recuperamos a animação depois da decisão desse 25 de abril, quando a [Justiça Federal] voltou a garantir que o arrasto não continuará acontecendo, pelo menos por enquanto.

Na sua opinião, quais são os principais desafios da pesca no estado?

Nós ainda estamos esperando a decisão final do Supremo Tribunal Federal sobre o tema do arrasto. E esperamos ganhar! Mas tem vários outros pontos que precisam ser resolvidos. Eu citaria, em primeiro lugar, a questão da comercialização do peixe pelos pescadores artesanais. Nós temos as mesmas exigências de uma grande empresa e não temos condições de atender a tudo isso para termos os selos do Serviço de Inspeção Municipal, por exemplo. Precisamos de apoio para podermos beneficiar os peixes, e já estamos atrás disso, já que ninguém mais hoje em dia quer comprar o pescado in natura. Outro ponto importante é negociarmos a liberação da pesca do bagre, que aparece muito em todas as redes e temos que devolver para o mar. Este é um tema muito importante para os próximos anos. E vamos, como sempre, buscar essas soluções em grupo, porque eu tenho certeza de que juntos somos mais fortes, embora sejamos pequenos.

Como é ser mulher, pescadora e presidente de uma associação em um meio em que predominam os homens?

Realmente, é um meio muito masculino. Só alguns dos meus contatos do celular, por exemplo, são de mulheres. Lido com homens o tempo todo, mas acho que o fato de fazer minhas tarefas com muita dedicação e profissionalismo faz com que todos me respeitem muito. Nunca tive problemas com isso aqui.