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Janeiro 27, 2022

Como podemos recuperar a pesca, que está no limite?

O TEMA: 

Foto: Reprodução Sea Around Us

O reconhecido cientista pesqueiro Daniel Pauly fala sobre a urgência de recuperar populações pesqueiras no mundo*

Membro do Conselho Diretor da Oceana e fundador da iniciativa “Sea Around Us”, o cientista pesqueiro Daniel Pauly é uma das principais referências mundiais em pesca. Segundo suas recentes pesquisas, as mudanças climáticas estão reduzindo o tamanho de determinadas espécies de peixes pela escassez de oxigênio.

Em sua nova biografia, ele é chamado de “denunciante dos oceanos” (The Ocean’s Whistleblower, em tradução livre) por um motivo justo. Pauly, que leciona na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, passou as últimas décadas documentando o rápido declínio dos peixes nos mares. Apesar do preocupante cenário mundial de sobrepesca, Pauly diz que ainda podemos recuperar pescarias em risco de colapso.

Em entrevista à Scientific American, Pauly fala sobre como suas primeiras experiências no Sudeste Asiático o convenceram de que a ciência pesqueira havia se tornado prisioneira da indústria, promovendo métodos destrutivos de pesca, como o arrasto, que devastam ecossistemas marinhos e ameaçam a subsistência de pescadores artesanais.

Pauly é reconhecido por ter ajudado a desenvolver um novo tipo de ciência, que foca mais na ecologia do oceano e no que os peixes precisam para prosperar. Ele cunhou o termo “síndrome da mudança de linha de base” para descrever como alguns cientistas ignoram a abundância biológica de antigamente e normalizam os parcos recursos pesqueiros de hoje. Essa “amnésia coletiva”, como ele a descreve, tem levado pesquisadores a avaliar mal a magnitude do desastre ecológico que está ocorrendo nos mares.

Em seu mais influente projeto de pesquisa, Pauly reuniu centenas de cientistas para criar um banco de dados global que documentasse os impactos da pesca sobre os ecossistemas marinhos. A equipe descobriu que os governos subestimam constantemente suas capturas e que a pesca está perto de entrar em colapso em todo o mundo. Se as tendências atuais continuarem, Pauly alerta que os oceanos acabarão como ferros-velhos marinhos, dominados por águas-vivas e plâncton.

No entanto, existem soluções. Para ele, se os países interditarem a pesca na parcela de oceanos conhecida como o alto-mar e se acabarem com os subsídios governamentais, as populações de peixes se recuperarão. E, claro, o mundo também precisa, em última análise, controlar a mudança climática. Atualmente, Pauly está pesquisando como o aquecimento global leva os estoques de peixes em direção aos polos e torna os peixes menores.

Você nasceu em Paris, filho de um soldado estadunidense negro e de uma francesa branca, e cresceu na Suíça, longe do oceano. Depois de algumas reviravoltas, você se tornou funcionário do governo alemão na Indonésia, na década de 1970, onde trabalhou em um barco de pesquisa, como parte de um projeto para introduzir a pesca industrial no país.

Sim, hoje eu me arrependo disso. No sudeste da Ásia, as traineiras [embarcações de pesca, geralmente utilizadas para a pesca de arrasto] devastaram o habitat dos recifes – esponjas gigantes e corais moles que estruturaram o habitat. Essa pesca transformou um ecossistema produtivo e diverso em uma mistura lamacenta. Nós simplesmente não sabíamos o que estávamos fazendo. Não tínhamos nem palavras para descrever esse tipo de destruição ecológica na época. As traineiras também incentivavam a captura de peixes para exportação. Pouco sobrou para os pescadores locais. Na Indonésia, encontrei essa pobreza entre os pescadores. Eles saíam com três ou quatro homens e voltavam com um quilo de peixe. A introdução da pesca industrial nesse ambiente foi uma loucura.

A pesca de arrasto permitiu que a indústria pesqueira explorasse locais que antes eram inacessíveis.

Isso mesmo. Essa expansão da pesca eliminou todas as maneiras que os peixes tinham de se proteger naturalmente de nós. A profundidade era uma proteção, o frio era uma proteção, o gelo era uma proteção, os terrenos rochosos eram uma proteção. Com os sucessivos avanços tecnológicos, agora podemos ir a todos os lugares onde os peixes costumavam estar protegidos.

Depois de trabalhar no Sudeste Asiático, você foi para a África Ocidental e o Peru. As frotas de pesca no mar estavam levando os pescadores artesanais à falência. Você escreveu que isso não é apenas um problema econômico, é um problema de saúde.

Cinquenta por cento ou mais da proteína consumida em muitas regiões pobres vêm do pescado. Nesses países, a maior parte das calorias vem dos carboidratos, seja do milho, da mandioca ou do arroz. A única maneira desses carboidratos serem nutricionalmente eficientes é acrescentando um pouco de peixe. Além disso, os micronutrientes – as vitaminas, os vários minerais e metais, como o zinco –  vêm dos peixes. 

Seu trabalho com uma equipe de pesquisadores no grupo que você fundou, o “Sea Around Us”, foi fundamental para estabelecer o fato de que a pesca industrial estava destruindo rapidamente os estoques locais de pescado em todo o mundo. Você basicamente criou um enorme conjunto de dados que provou que estávamos pescando de forma insustentável. Como conseguiu isso?

Compilar as capturas de todos os países de 1950 a 2018 foi um trabalho imenso que envolveu cerca de 300 pesquisadores. Encontramos uma captura muito maior do que o relatado oficialmente. Muitos países tinham uma visão completamente distorcida de suas próprias pescarias: a pesca recreativa não era incluída nos totais de captura, nem a pesca ilegal e a pesca artesanal local. Descobrimos que as capturas vêm diminuindo drasticamente em todo o mundo desde 1996.

Alguns cientistas afirmaram inicialmente que a culpa não era da pesca, e sim das flutuações naturais nas populações de peixes. Isso me lembra do argumento de que a mudança climática é um fenômeno natural, então, não precisamos nos preocupar com ela.

Eu já ia dizer isso.

Os países também negaram estar praticando a sobrepesca.

Eu me lembro de uma conversa com a ministra da pesca da Austrália. Ela disse que o pescado do país está sendo explorado de forma sustentável. Mas você olha as estatísticas, e a captura está diminuindo, diminuindo, diminuindo. Então, o que será que ela quer dizer? No Canadá, a captura de bacalhau caiu para 1% ou 2% de seu valor na década de 1950. Se um país pode, de alguma forma, manter uma pesca tão escassa, eles chamam de “exploração sustentável”, mas o padrão é tão baixo que não faz sentido.

Você disse que, se a destruição humana dos mares continuar sem controle, eles acabarão como ferros-velhos marinhos dominados por águas-vivas e plâncton.

Já está acontecendo. Zonas mortas sem oxigênio estão se espalhando; os peixes estão cada vez menores devido à captura e também ao aquecimento global.

Isso não é apenas um desastre ecológico, mas, no longo prazo, também não é do interesse da indústria pesqueira.

Descrevi a forma de pesca em que você devasta uma área e depois passa para outra, como um esquema de pirâmide. Bernie Madoff [especulador de Nova Iorque condenado por comandar a maior pirâmide da história] conseguia dinheiro de investidores e depois pagava com o que recebia de novos investidores. Isso funciona desde que você encontre novos investidores, certo? Mas você acaba ficando sem investidores – ou seja, fica sem novas áreas para pescar – e tudo vem abaixo.

Sua última pesquisa tratou do impacto das mudanças climáticas sobre o tamanho dos peixes. Você pode falar sobre isso?

O grande problema que nós, mamíferos, enfrentamos é conseguir comida suficiente para manter nossa temperatura. Os peixes não precisam manter a temperatura, então, basicamente, eles comem muito menos. O problema deles é obter oxigênio suficiente em vez de comer alimentos suficientes. Os peixes respiram pelas guelras. À medida que o peixe cresce, seu volume cresce mais rápido do que a superfície de suas guelras. Além disso, conforme fica mais quente, a água contém menos oxigênio e os próprios peixes ficam mais quentes. E quando os peixes ficam mais quentes, eles precisam de mais oxigênio. Então você tem uma situação completamente problemática: os peixes são espremidos. E o resultado é que eles estão ficando cada vez menores.

Os peixes também estão se mudando para águas mais frias.

Os peixes precisam permanecer na temperatura à qual estão adaptados, porque seu sistema enzimático funciona melhor a uma determinada temperatura. Portanto, com o aquecimento do mar, isso significa que a Carolina do Sul e a Carolina do Norte entrarão em conflito porque os estoques de peixes da Carolina do Sul se mudaram para a Carolina do Norte. Essas migrações estão ocorrendo em grande escala. Nos trópicos, os peixes que vão embora não são substituídos por mais nada.

Você diz que devemos parar de pescar em alto-mar para ajudar a recuperar os estoques de peixes.

A pesca no chamado alto-mar gera apenas cerca de 5% ou 6% das capturas globais, principalmente de atum. A parte central dos oceanos é, na verdade, um deserto. Os atuns são como os camelos do Saara. Eles nadam de um oásis para outro. O atum não é um peixe que as pessoas pobres nos países em desenvolvimento comam, portanto, limitar sua captura não teria impacto na segurança alimentar.

Se o alto-mar é responsável por uma porcentagem tão pequena da captura, de que forma o seu fechamento para a pesca salvará as populações de peixes?

A pesca existiu intacta durante centenas de anos porque não conseguíamos ir atrás do último peixe. Mas agora podemos fazer isso. E você não apenas captura o peixe que deseja, mas também mata todo o resto no processo – há uma enorme captura acidental. Fechando o alto-mar à pesca, damos aos peixes um santuário onde eles possam se recuperar. A pesquisa mostra que os santuários livres de pesca ajudam a reconstruir os estoques, alguns dos quais irão se mudar para as águas costeiras, onde poderão ser capturados.

Há negociações internacionais em curso na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre o fim dos subsídios dados pela maioria dos países ricos às suas frotas de pesca industrial. Você está esperançoso?

Tenho alguma esperança. Eu mesmo pesquisei subsídios. Muitos pescadores hoje em dia não pescam pelo peixe. Eles pescam pelos subsídios. Eles não conseguiriam trabalhar sem subsídios enormes. Portanto, sim, eliminá-los reduziria muito a sobrepesca. Na verdade, as questões da pesca não são problemas difíceis ou impossíveis de tratar. Precisamos pescar menos e criar santuários onde as populações de peixes possam ressurgir. 

Ao longo de sua carreira, você fez ciência que visa ajudar as pessoas. Qual é o seu conselho para os jovens cientistas?

Meu conselho é escolher problemas globais e não locais. Precisamos atacar os problemas que alimentam as políticas. E precisamos de soluções que funcionem em todo o mundo. 

Você tem fama de ser viciado em trabalho, de alguém que enfrentou problemas científicos ambiciosos. Houve mais pressão para provar que era capaz do que aconteceria com um cientista branco?

Sim. Mas a forma como eu vivenciei isso é um pouco diferente. O que me motivava é que eu estava levando uma vida privilegiada e trabalhando com colegas do mundo em desenvolvimento, que eram tão inteligentes e instruídos quanto eu, mas recebiam um décimo do que eu recebia. Eu me sentia responsável para com as pessoas com quem eu trabalhava e os países onde trabalhava.

Algumas universidades estão tentando aumentar a participação de alunos de grupos minoritários nas ciências. Elas estão fazendo o suficiente?

O problema é que esses garotos não confiam que podem ser cientistas. Os estudantes oriundos de minorias e de origem pobre pensam em ser médicos ou advogados, mas não cientistas, porque, francamente, cientistas não ganham dinheiro. O que você entende quando está realmente envolvido na ciência é que a maioria das pessoas na profissão ama o que faz. Elas nem conseguem acreditar que estão sendo pagas para fazer aquilo. A ciência, à sua maneira, é tão criativa quanto as artes. Os jovens empobrecidos não sabem disso. Eles não sabem que fazer ciência é divertido e que não precisa ser robô ou nerd para fazer ciência.

  • Essa entrevista, feita pelo jornalista Richard Schiffman, foi publicada pela revista Scientific American em setembro de 2021 e editada para republicação pela Oceana.