Foto: © OCEANA / Eduardo Sorensen

Três bilhões de pessoas tiram seus alimentos ou seu sustento dos oceanos. São eles que produzem metade do oxigênio e absorvem um quarto do dióxido de carbono que produzimos. A cada ano, contribuem com cerca de 2,5 trilhões de dólares para a economia global. E eles estão em perigo: sofrem grande pressão pela pesca excessiva, poluição por plástico e aquecimento global.

Essas e outras questões foram tratadas no programa Matéria de Capa, exibido pela TV Cultura no dia 14 de março de 2021. Com 27 minutos de duração, o programa aborda diferentes perigos que ameaçam a saúde dos oceanos. No programa, a gerente da campanha de redução da poluição por plásticos da Oceana, a engenheira ambiental Lara Iwanicki, fala sobre os problemas na gestão pesqueira e sobre a poluição marinha por plásticos. A seguir, trechos da matéria:

 

Sobrepesca

A pesca excessiva desperdiça cerca de 2/3 de tudo o que é capturado nos mares a cada ano. As perdas ocorrem por diversos motivos. Em atividades como a pesca de arrasto, algumas espécies são descartadas porque não interessam do ponto de vista comercial, mas caem nas redes junto com outras e, ao serem devolvidas, nem sempre sobrevivem; a sobrepesca também causa danos quando a captura é feita fora da época adequada, eliminando aqueles indivíduos que ainda não alcançaram o período de reprodução; há ainda perdas por problemas no congelamento ou porque o produto chega tarde demais aos centros consumidores.

“A Oceana lançou um relatório bastante importante, chamado Auditoria da Pesca, que fez análise de 22 indicadores de como é feita a gestão pesqueira no país. O estudo mostrou que o Brasil está pescando no escuro. Não conhecemos os estoques pesqueiros, não temos transparência nas informações, os Conselhos Consultivos, que eram os CPGs, foram extintos. O país está bastante atrasado em gestão pesqueira se comparado com outros países”, explica Lara.

 

Colapso nas pescarias

O oceano é a maior fonte de alimentos que existe, mas cada vez mais os pescadores voltam para casa com as redes vazias. Cientistas alertam para um colapso de todas as espécies em menos de 50 anos. A razão é a pesca em excesso. Embarcações de arrasto, por exemplo, lançam redes com abertura de até 23 mil metros quadrados e parte do que é capturado é desperdiçado. Em algumas pescarias, esse desperdício chega a 90% do que é capturado. Como acabar com o problema? Pressionando políticos, porque eles têm o poder de tomar decisões. E os cidadãos têm a responsabilidade de cobrar seus representantes.

 

Lixo plástico no mar

Na vida marinha, os plásticos estão em toda parte, flutuando nas superfícies e ocupando as profundezas. Com o passar dos anos, eles se transformam em partículas cada vez menores, os microplásticos. Eles estão na água que bebemos, no alimento e até no sal. Essas partículas estão até no ar que respiramos.  Estamos vivendo um tsunami de resíduos plásticos. O que fazer para lidar com todo esse lixo? Quando reciclamos, a garrafa de água pode virar um frasco de xampu, mas ainda estará aqui. Por isso, a melhor saída é abandonar o plástico.

“Os estudos sobre os níveis globais de produção do plástico apontam que, desde 1950 até hoje, apenas cerca de 9% do plástico produzido foi reciclado. A maior parte do plástico está no ambiente. Então podemos observar que a reciclagem é uma solução que não consegue acompanhar o volume de produção do plástico. No Brasil esse cenário não é diferente – o país é o maior produtor de plásticos da América Latina, e 44% do que é produzido são plásticos de uso único, como copos, pratos, canudos, isopor de embalagens para delivery”, diz Lara Iwanicki.

 

Pacto global

Na tentativa de reverter os danos causados pelas atividades humanas aos oceanos, um grupo de 14 países, que representa 40% da costa mundial, firmou um acordo no âmbito do Painel de Alto Nível para uma Economia Oceânica Sustentável (Painel Oceânico) visando à adoção de práticas sustentáveis para exploração dos recursos oceânicos com metas a serem adotadas até 2025, um prazo curto para um projeto tão ambicioso.

“O acordo firmado por 14 países tem o potencial de melhorar tanto a qualidade dos oceanos em termos ambientais quanto trazer resultados econômicos. Quando um país assume um acordo desse, ele precisa trazer para a sua política pública ações que vão refletir essas metas, então o compromisso tem potencial para trazer fôlego para os oceanos desde que essas medidas sejam de fato implementadas por cada um desses países signatários do acordo”, afirma Lara Iwanicki. “O Brasil não assinou o acordo, o que é lamentável, porque o país tem mais 11 mil quilômetros de costa e a pesca é uma atividade importante”.

Os países que assinaram o acordo foram Austrália, Canadá, Chile, Fiji, Gana, Indonésia, Jamaica, Japão, Quênia, México, Namíbia, Noruega, Palau e Portugal.

 

Assista: TV Cultura/ Matéria de Capa: Oceanos, um tesouro em perigo

A seguir:

Maya Gabeira alerta para a poluição marinha por plásticos

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