99% do plástico que chega ao mar vai parar no fundo dos oceanos



11 Agosto 2020

Foto: Carlos Minguell | OCEANA EUO

A Oceana publicou um relatório sobre os efeitos desastrosos do plástico no fundo do mar na Europa. A partir de imagens de suas expedições, parte delas inéditas, confirma-se que o lixo que se acumula nas praias ou na superfície representa apenas 1% do plástico total que é despejado nos oceanos. Os 99% restantes acabam a centenas de metros de profundidade e colocam em risco áreas de alto valor biológico, como montanhas, cânions e escarpas submersas.

A diretora da campanha de combate à poluição marinha por plásticos da Oceana na Europa, Natividad Sánchez, explica que o estudo pretende conscientizar sobre a realidade invisível das profundezas marinhas, que acabam abrigando a maioria dos plásticos despejados no oceano. “Medidas como limpeza de praias e coleta de resíduos na superfície marinha são muito necessárias, mas totalmente insuficientes se quisermos enfrentar a raiz do problema dos plásticos no oceano. É essencial reduzir a fabricação de plásticos de uso único e que a legislação elimine os mais problemáticos", defende.

O fundo do mar abriga grande biodiversidade e é uma região estratégica para alimentação e reprodução de espécies como corais, cetáceos e tubarões. O relevo submarino, no entanto, atua como um local de passagem de lixo plástico, que com a ajuda das correntes acaba acumulado nas profundezas, criando grandes aterros sob o mar. Além disso, devido às baixas temperaturas e à falta de luz, a degradação desses resíduos é mais lenta do que na superfície, de modo que os plásticos ali permanecem por séculos.

"Em apenas alguns anos, oásis da vida como montes submarinos e cânions estão se tornando aterros de lixo plástico. O caso do mar Mediterrâneo é muito preocupante por causa da pressão humana que recebe e da grande profundidade de suas águas ", reforça o diretor da Oceana de Expedições na Europa, Ricardo Aguilar.

Recomendações

Diante desse quadro, a Oceana propõe uma série de recomendações para as nações europeias. Uma delas é mapear zonas de risco para identificar locais suscetíveis ao acúmulo de lixo marinho. Também é preciso avançar na investigação dos protocolos de retirada de plásticos para saber como poderia ser feito sem prejudicar espécies frágeis.
Por outro lado, é fundamental a redução da produção de plástico no planeta. É necessário substituir os plásticos de uso único por materiais reutilizáveis, assim como banir anéis de embalagens de bebidas e balões. Juntos, esses dois itens são a principal causa de morte por ingestão de plástico para muitas espécies, por sufocamento e fome. A Oceana propõe, ainda, o estabelecimento de um imposto sobre plásticos de uso único, como copos, recipientes de alimentos, embalagens e lenços umedecidos na Europa.

Cenário brasileiro

O Brasil é o maior produtor de plástico da América Latina. Em 2019, foram produzidos 6,5 milhões de toneladas de produtos transformados de plástico, sendo 2,92 milhões de toneladas (44%) de plástico de uso único (embalagem e descartável). Apesar da sua importância, a reciclagem do plástico representa cerca de 7,5% no país.

“Ser um grande produtor de plásticos traz uma grande responsabilidade no combate à poluição causada por esse material. Isso passa por regulações que limitem os itens que podem ou não ser feitos de plástico. Precisamos impedir que uma série de objetos desnecessários, especialmente os de uso único continuem a ser produzidos”, alerta o diretor-geral da Oceana Brasil, o oceanólogo Ademilson Zamboni.

A Oceana defende a redução na produção do material como único caminho possível para diminuir a pressão sobre os oceanos. É preciso também que as empresas ofereçam ao consumidor alternativas sem plástico com preço acessível. É direito de cada cidadão optar por não poluir e ajudar a preservar o meio ambiente.