Dr. Daniel Pauly alerta para a necessidade de reconstruir estoques e de fortalecer instituições responsáveis pela pesca no Brasil



06 Fevereiro 2019

"Precisamos reconstruir os estoques de espécies marinhas para garantir a pesca a longo prazo e, ainda, proteger a atividade dos impactos das mudanças climáticas”. Essa, entre outras declarações do renomado cientista Daniel Pauly, membro do Conselho Diretor da Oceana e coordenador do Sea Around Us, projeto da Universidade da Columbia Britânica (Canadá), foi oferecida a especialistas brasileiros em eventos em São Paulo e Belém realizados entre os dias 26 e 30 de janeiro. Pauly se apresentou no Fru.to, evento produzido pelo chef Alex Atala e pelo produtor cultural Felipe Ribenboim, com foco em discussões sobre a origem dos alimentos e o futuro da alimentação em todo o mundo, e também na XXIII Edição do Encontro Brasileiro de Ictiologia.  

As pesquisas e atividades de Pauly se concentram nos desafios da sustentabilidade da prática pesqueira e nos riscos que se apresentam para as espécies marinhas. Para ele, não há como pensar em um futuro garantido para a pesca sem o conhecimento profundo de como se compõe hoje o estoque de espécies, como era no passado, e como fazer para recuperá-lo. “Nós precisamos disso não apenas para garantir pescarias rentáveis, mas também para proteger espécies e pescadores dos impactos do aquecimento global e as condições dos oceanos”, afirma. Segundo ele, a transparência dos dados sobre a pesca é fundamental para que as políticas públicas que regem as atividades pesqueiras sejam feitas da melhor forma possível, além de possibilitar a realização de pesquisas de melhor qualidade sobre o tema.

Ainda de acordo com o pesquisador, as formas que governos têm, hoje, de ajudar na reconstrução dos estoques marinhos passam pelo ordenamento das pescarias, considerando limites de captura, utilizando ao máximo as tecnologias disponíveis para geração de dados e pela criação de grandes áreas de proteção da biodiversidade marinha.

Uma das alternativas atuais para a obtenção de estatísticas de qualidade é a utilização de novas tecnologias para promover o acesso aos dados pesqueiros em tempo real e com a maior qualidade possível. Um exemplo são os mapas de bordo eletrônicos, já utilizados em alguns países e testados no Brasil, como no projeto piloto idealizado pela Oceana para o monitoramento da pesca da Tainha em 2018. “O governo federal deve buscar esse tipo de modelo para que as informações sejam colhidas e disponibilizadas em tempo real. Isso possibilita melhores pesquisas, fiscalizações e manejo das pescarias de forma a garantir os estoques de peixes” afirma o diretor geral da Oceana no Brasil, o oceanógrafo, Ademilson Zamboni.

Além dos desafios tecnológicos, o cenário da pesca no país enfrenta ainda problemas relacionados à governança. “O Brasil não tem ido bem em relação às práticas da pesca sustentável e, sendo um país grande e maravilhoso, poderia fazer muito mais”, afirma Daniel Pauly. Como exemplo do que pode ser melhorado, citou as mudanças realizadas nas últimas décadas do órgão responsável pela pesca no Brasil, entre outros fatores. “A instituição a cargo das pescarias muda demais, vai de um lugar para outro dependendo do governo eleito, o que demonstra uma falta de continuidade nas políticas e instabilidade institucional”, disse. Ele também alertou para o fato de o Brasil não se dedicar a produzir e disponibilizar estatísticas sobre o tema. Segundo Pauly, o país está ao lado de alguns poucos países- membros da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), como a Coréia do Norte, que não submete os dados nacionais sobre as capturas realizadas.