Embarcações chinesas saqueiam águas na região de Galápagos



22 Setembro 2020

Uma nova análise da Oceana identificou cerca de 300 embarcações chinesas saqueando as águas da Reserva Marinha de Galápagos, principalmente em busca de lulas. Na região, elas são essenciais para a dieta de espécies icônicas de Galápagos, como focas e tubarões-martelo, assim como para muitas espécies de importância para a pesca comercial, incluindo atum e espadarte, que contribuem para a economia local.

Usando a plataforma da Global Fishing Watch, fundada pela Oceana em parceria com Google e SkyTruth, a Oceana analisou dados de embarcações de pesca encontradas perto das Ilhas Galápagos, de 13 de julho a 13 de agosto de 2020. Segundo a observação da Oceana, durante esse período, a frota chinesa registrou mais de 73 mil horas de pesca. A análise aponta que 99% das atividades pesqueiras visíveis próximas às Ilhas Galápagos foram levadas a cabo por navios de bandeira chinesa.

“Durante um mês, o mundo observou e se perguntou o que a enorme frota pesqueira da China estava fazendo nas ilhas Galápagos, mas agora sabemos”, disse a analista de pesca ilegal e transparência da Oceana nos EUA, Marla Valentine. “Esse esforço de pesca enorme e contínuo por parte da frota chinesa ameaça as raras espécies que habitam a região das Ilhas Galápagos e todos que dependem delas para obter alimento e sustento. A situação deve levantar sérias preocupações sobre o impacto da frota chinesa sobre os oceanos”, alertou.

A Oceana também documentou embarcações chinesas que, aparentemente, estavam desativando seus dispositivos públicos de rastreamento, fornecendo informações conflitantes sobre identificação de embarcações e adotando  práticas de transbordo potencialmente suspeitas. Tudo isso pode possibilitar atividades ilícitas, aponta o relatório.

LABORATÓRIO VIVO

As Ilhas Galápagos são uma área remota, a quase 900 km da costa do Equador, e já foram um “laboratório vivo” que inspirou a teoria da evolução de Charles Darwin. A área é um oásis para a vida selvagem oceânica, e mais de 20% de suas espécies marinhas não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. A Reserva Marinha de Galápagos, que também é Patrimônio Mundial da Unesco, cobre mais de 133 mil km2 ao redor das ilhas.

A China é, de longe, a maior nação pesqueira do mundo, com uma frota de pesca em águas distantes estimada em  até 17 mil embarcações (em comparação com cerca de 250 a 300, tanto da União Europeia quanto dos Estados Unidos), e representa 40% do esforço de pesca global. A China também é a pior nação do mundo segundo o índice de pesca Ilegal, Não Declarada e Não Regulamentada (IUU, na sigla em inglês), e sua frota tem se envolvido repetidamente em violações relacionadas à sobrepesca de espécies de tubarão em perigo, invasão ilegal de jurisdição, documentação falsa de licenciamento e de pesca, e trabalho forçado.

As ações da frota chinesa que opera próximo às Ilhas Galápagos contrariam as  regras de pesca implementadas pela China nos últimos meses para supostamente melhorar a sustentabilidade da indústria pesqueira e as medidas de proteção ao oceano.

DADOS ABERTOS

A plataforma Global Fishing Watch (GFW) é um observatório da pesca criado em 2016 pela Oceana, SkyTruth e Google para promover a sustentabilidade do oceano por meio de maior transparência. A plataforma registra informações como “esforço de pesca aparente”, baseado em dados coletados por satélites e receptores terrestres, como as informações sobre velocidade e direção do Sistema de Identificação Automática (AIS). 

A partir dessa tecnologia, qualquer pessoa tem acesso gratuito para monitorar e acompanhar as atividades dos maiores navios de pesca comercial do mundo, quase em tempo real. Países como a Indonésia, o Peru, o Panamá e o Chile já firmaram parcerias com a GFW e disponibilizaram seus dados de pesca na plataforma. A Costa Rica e a Namíbia também assumiram compromissos públicos de divulgar seus dados por meio da Global Fishing Watch.

“Proteger os oceanos da atividade criminosa exige um esforço de todos os governos. Somente com cooperação e transparência será possível coibir essas práticas que colocam em risco o futuro de muitas espécies, além de prejudicar quem atua na legalidade”, afirmou o diretor científico da Oceana no Brasil, Martin Dias. “É urgente atuar para que todos os frutos do mar sejam seguros, pescados legalmente, de origem responsável e honestamente rotulados”, reforçou.

No Brasil, o Programa de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite (PREPS), criado pelo governo federal em 2006, é de adesão obrigatória para barcos com arqueação bruta igual ou superior a 50 ou com comprimento total igual ou maior 15 metros.  No entanto, os dados gerados são fechados, com acesso restrito a alguns órgãos governamentais, e são pouco usados para gestão pesqueira nacional.