Iniciativa OpenTuna: transparência nos dados de pesca



25 Maio 2021

Ademilson Zamboni 

O principal desafio da gestão pesqueira no Brasil é, hoje, a produção e acesso à informação. Como tenho dito nesta coluna, jamais conseguiremos fazer uma gestão pesqueira qualificada no país enquanto não tivermos dados confiáveis e, sobretudo, acessíveis. 

Por isso, a Oceana, em parceria com a Aliança do Atlântico para o Atum Sustentável (Aliança do Atum) e a Global Fishing Watch (GFW), lançou os primeiros resultados da iniciativa OpenTuna. No dia 19 de abril apresentamos ao público a plataforma online www.opentuna.org, que disponibiliza os dados de mapas de bordo e de rastreamento por satélite da frota de espinhel de superfície que captura atuns, praticamente em tempo real. 

Trata-se de iniciativa tem por objetivo promover a sustentabilidade da atividade por meio da modernização da coleta e sistematização de informações, transparência e adoção de medidas para melhorar as práticas a bordo, visando reduzir as capturas acidentais (bycatch).

O atum é um recurso importante no segmento da pesca e gera aproximadamente seis mil empregos diretos e indiretos no Brasil. Somente no Atlântico Sul, movimenta aproximadamente US$ 4 bilhões de dólares por ano.

É bastante conhecido no setor atuneiro o problema que o Brasil enfrentou entre 2016 e 2017, quando estivemos perto de ter as pescarias de atum proibidas por não enviar dados de captura à Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), informações fundamentais para quantificar os estoques pesqueiros e estabelecer cotas de captura para cada nação.

Pode ser uma imagem de 1 pessoa e corpo d'água Foto: Oceana

Uma das principais fontes de dados para esse relatório nacional sobre a produção de atuns são os mapas de bordo, obrigatórios para toda a frota. No Brasil, entretanto, esses dados ainda estão sendo aportados pelo setor produtivo majoritariamente na forma de formulários de papel, o que torna a compilação das estatísticas e sua submissão extremamente morosas. Lamentavelmente, até o momento o governo brasileiro não possui um sistema eficaz para coleta e envio de dados à ICCAT.

Com o OpenTuna, criamos um modelo que permite obter dados confiáveis sobre a pescaria. Ali estão reunidas informações sobre as quatro principais espécies-alvo da frota brasileira: albacora-bandolim (Thunnus obesus), albacora-branca (Thunnus alalunga), albacora-laje (Thunnus albacares) e espadarte (Xiphias gladius) – bem como do bycatch. As informações estão inclusive abertas para cruzamentos de dados com uso de filtros como período, espécies e portos de desembarque.

Os dados de rastreamento da frota participante do OpenTuna também foram voluntariamente abertos para a Global Fishing Watch, que monitora a movimentação de embarcações de pesca comercial do mundo todo. Os algoritmos da plataforma permitem identificar mais de 70 mil navios de pesca, bem como determinar o tamanho, a potência do motor e o tipo de pesca de cada barco, onde pescou e por quanto tempo.

O OpenTuna ainda é um piloto que inova ao criar uma referência, que deveria ser adotado para toda a frota brasileira. A transparência nas informações de pesca facilitará o trabalho de pesquisadores e do próprio governo, contribuindo para consolidação de uma cadeia produtiva menos opaca quanto à sua operação e sustentabilidade, com pescados de melhor qualidade e rastreabilidade total da produção.

Artigo publicado em 13 de maio