O desafio de reduzir a poluição marinha por plástico em tempos de pandemia de Covid-19



31 Julho 2020

Foto: Enrique Talledo | OCEANA

O cenário é de mudanças. Em quatro meses, o modo como interagimos com as pessoas e com o planeta mudou radicalmente com a pandemia global do novo coronavírus (Covid-19). Essa nova realidade exacerbou uma crise que já estava em curso: o uso excessivo de plástico descartável.

O plástico é um material sintético, que não existe na natureza e que, portanto, não se degrada – uma vez produzido fica para sempre no planeta. Nos oceanos, ele nunca desaparece, impactando a vida marinha e comprometendo populações de espécies, muitas delas fonte de alimento. 

A reciclagem do plástico, apesar de ser tão importante, representa menos de 9% do total do material produzido anualmente no mundo e cerca de 7,5% no Brasil, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR). Diante desse cenário, governos, empresas e cidadãos têm a responsabilidade de rever os atuais padrões de produção e consumo do material. 

“O destino do lixo, quando não é tratado, passa a ser incerto e boa parte dele acaba nos oceanos”, explica a engenheira Sílvia Astolpho, mestre em saúde pública e especialista em gestão ambiental. “Esse caminho pode ser feito inclusive por resíduos descartados em cidades distantes do mar”. 

Segundo Astolpho, materiais descartados de forma inadequada são carregados pelas águas das chuvas e pela ação do vento caindo em canais de drenagem de uma bacia hidrográfica, que recebe água poluída e a despeja no mar.

A avaliação sobre os hábitos de consumo, especialmente considerando o problema do descarte inadequado e da falta de tratamento, esbarra ainda em um importante aspecto: a pandemia Covid-19. A pesquisadora explica que o tempo de sobrevida do novo coronavírus em materiais plásticos é de 2 a 3 dias, por isso o descartável não necessariamente é sempre a melhor opção. 

Apesar da redução das atividades de coleta de lixo nas cidades, para diminuir a exposição de trabalhadores ao vírus, sabemos que funcionários de empresas de limpeza e catadores estão trabalhando, portanto, é fundamental lembrar que o material contaminado descartado coloca suas vidas em risco.

Não se nega a importância do plástico para questões de higiene, mas é preciso que seja utilizado quando for realmente necessário. “É preciso manter o foco na saúde pública. Mas não podemos deixar a pandemia abrir espaço para o consumo inconsciente e desnecessário de materiais que sequer foram feitos para serem reciclados, e acabam nos rios e oceanos, como é o caso dos plásticos de uso único”, afirma a cientista marinha da Oceana no Brasil, a engenheira ambiental Lara Iwanicki.

Atitudes simples, que podem ser praticadas durante o isolamento social, reduzem o risco de transmissão e ajudam a proteger os oceanos, tais como:

• Sempre que possível, prefira máscaras reutilizáveis às descartáveis. 

• Sempre que puder, opte por outro tipo de material em vez de plástico quando for usar algo descartável ou por algo que não seja descartável e possa ser higienizado com segurança por você, como copos, pratos, canudos, talheres, mexedores de bebidas e marmitas. 

• Preferir serviços de entrega de estabelecimento que, além da segurança contra o Covid-19, oferecem embalagens alternativas ao plástico como as biodegradáveis. Lembre-se de que o isopor é um tipo de plástico com baixas taxas de coleta e reciclagem, que acaba em aterros ou são descartados incorretamente. Prefira utilizar seus talheres domésticos em vez de receber talheres descartáveis – você pode pedir para não enviarem.

• Consumir produtos com responsabilidade – comprar somente o necessário. Evite o consumo em excesso e principalmente o desperdício. Vale também usar e abusar da criatividade para transformar objetos fora de uso em novos, proporcionando momentos de descontração e trazendo reflexos positivos ao meio ambiente.

• Separar os resíduos mesmo que a coleta seletiva na cidade esteja suspensa durante a pandemia. Uma vez separado, o material fica mais fácil de ser selecionado pelos catadores que ainda estão trabalhando. Isso ajuda a reduzir o contato com os resíduos e o risco de contaminação. É interessante também entrar em contato com associações de catadores para que recolham os materiais que separou – essa é uma forma de ajudar a dar um destino melhor para o lixo e impedir que acabe nos oceanos.

• Preferir produtos a granel ou com embalagens alternativas ao plástico. Se essa opção não existe para seus produtos preferidos, entre em contato com os fabricantes e motive-os a fornecer essa alternativa.

• As empresas precisam pensar em formas de oferecer aos seus clientes seus produtos sem o uso de plástico.

• Consumidores podem pedir às empresas que ofereçam a eles seus produtos sem ou com a menor quantidade possível de plástico.

• Prefira produtos de limpeza ecológicos com embalagens e fórmulas biodegradáveis sempre que possível.

• Roupas de materiais sintéticos, como o poliéster, geram microplásticos que vão parar nos sistemas de tratamento de esgoto, no mar e até mesmo nos alimentos e bebidas que ingerimos.