Plataforma Global Fishing Watch revela frotas ilegais na pesca de lula na Coreia



03 Setembro 2020


Um estudo publicado na revista Science Advances revela a pesca ilegal generalizada por parte de frotas ocultas, as chamadas dark fleets, ou seja, embarcações que não divulgam publicamente sua localização nem aparecem em sistemas públicos de monitoramento. Elas operam nas águas situadas entre as duas Coreias, o Japão e a Rússia, que estão entre as áreas mais disputadas e mal monitoradas do mundo.

Intitulado Illuminating Dark Fishing Fleets in North Korea (Revelando frotas pesqueiras ocultas na Coreia do Norte), o estudo foi liderado pela Global Fishing Watch, plataforma criada pela Oceana, SkyTruth e Google para monitorar os movimentos de embarcações de pesca comercial em todo o mundo. A pesquisa exigiu uma cooperação internacional sem precedentes, envolvendo cientistas da Coréia do Sul, Japão, Austrália e Estados Unidos.

Foram encontradas mais de 900 embarcações de origem chinesa em 2017 e mais de 700 em 2018, que provavelmente violaram as sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) ao pescarem em águas norte-coreanas. Em 2017, após os testes de mísseis balísticos da Coreia do Norte, o Conselho de Segurança da ONU adotou resoluções para sancionar o país, e algumas delas proíbem outros países de pescar na região. 

Entre 2017 e 2018, as embarcações mapeadas devem ter pescado uma quantidade de “lula voadora do Pacífico” quase tão grande quanto o Japão e a Coreia do Sul juntos, ou seja, mais de 160 mil toneladas, no valor de 440 milhões de dólares. No entanto, como essas embarcações não costumam portar a devida documentação, provavelmente são barcos desprovidos de autoridade oficial chinesa, que operam sem registro, sem bandeira e sem licença. 

As embarcações não identificadas representam um enorme desafio para a gestão das reservas de lulas, com quedas de 80% e 82% nas capturas registradas desde 2003 em águas sul-coreanas e japonesas, respectivamente. As “lulas voadoras do Pacífico” são o produto mais valioso da indústria de frutos do mar da Coreia do Sul, um dos cinco principais consumidos no Japão e, até as sanções recentes, o terceiro maior produto de exportação norte-coreano.

“O tamanho da frota envolvida nessa atividade ilegal é de cerca de um terço de toda a frota de pesca em águas distantes da China. É o maior caso conhecido de pesca ilegal praticada por embarcações originárias de um país nas águas de outro”, afirma Jaeyoon Park, analista de dados sênior da Global Fishing Watch e principal autor do estudo. “Sintetizando dados de vários satélites, criamos uma imagem consistente e inédita da atividade pesqueira em uma região sabidamente obscura”, explica.

Impacto devastador

O estudo também descobriu que cerca de 3 mil embarcações norte-coreanas pescaram ilegalmente em águas russas em 2018. “Provavelmente a concorrência das traineiras industriais chinesas está expulsando os pescadores norte-coreanos e os empurrando para as águas russas perto dali”, disse Jungsam Lee, do Instituto Marítimo da Coreia. “Os barcos de madeira dos norte-coreanos, menores, estão mal equipados para essa viagem de longa distância.”

Centenas de barcos norte-coreanos acabaram sendo levados pelas águas para as costas japonesa e russa nos últimos anos. Esses incidentes geralmente envolvem fome e mortes, e muitas vilas de pescadores no litoral leste da Coreia do Norte passaram a ser chamadas de “vilas das viúvas”.

O desacordo em relação às fronteiras nas águas entre as Coreias, o Japão e a Rússia impediu a gestão conjunta da pesca e dificultou os esforços de cada país, devido à falta de avaliações abrangentes das unidades populacionais.

As cúpulas intercoreanas de 2018 destacaram a necessidade de construir a paz por meio da cooperação nas águas, criar uma área de gestão conjunta da pesca e combater a pesca ilegal. Atingir essas ambições louváveis dependerá de informações imparciais, nas quais todos os lados possam confiar.

“A pesca global tem sido dominada por uma cultura de confidencialidade e ocultação desnecessárias. Obter uma visão abrangente da atividade pesqueira é um passo importante em direção a um gerenciamento de pescas verdadeiramente sustentável e cooperativo, e o monitoramento por satélite é uma parte essencial da solução”, enfatiza o professor Quentin Hanich, da Universidade de Wollongong, e coautor do estudo.

Metodologia

Para realizar o estudo foram usadas quatro tecnologias de satélite. Uma delas é o Sistema de Identificação Automática (AIS, na sigla em inglês), um mecanismo de prevenção de colisões que transmite constantemente a localização no mar. O AIS fornece informações detalhadas sobre embarcações, mas é usado por apenas uma fração delas. Por isso foram acrescentadas imagens de radar que podem identificar grandes embarcações.

A tecnologia proporciona imagens noturnas que captam a presença de embarcações de pesca usando luzes para atrair peixes ou fazer operações noturnas, e imagens ópticas de alta resolução, que oferecem as melhores “provas” visuais da atividade e do tipo das embarcações. Essa combinação nunca havia sido usada em grande escala para revelar publicamente as atividades e capturas estimadas de frotas inteiras.

“Agora, essas novas ideias são possíveis graças aos avanços no ‘aprendizado de máquina’ e ao crescente volume de imagens de alta resolução e alta frequência que não estavam disponíveis há alguns anos”, disse David Kroodsma, diretor de pesquisa e inovação da Global Fishing Watch e coautor do estudo. “Nós mostramos que é possível rastrear embarcações de pesca industrial que não estejam comunicando suas localizações”.

Global Fishing Watch

O Global Fishing Watch (GFW) é um observatório da pesca criado em 2016 pela Oceana, SkyTruth e Google para promover a sustentabilidade do oceano por meio de maior transparência. Consiste em uma plataforma online com tecnologia de ponta que fornece, a qualquer pessoa, acesso gratuito para monitorar e acompanhar as atividades dos maiores navios de pesca comercial do mundo, quase em tempo real. 

Em 2017, a Indonésia se tornou o primeiro país a disponibilizar seus dados privados do programa de rastreamento de embarcações pesqueiras por satélite (VMS) por meio da plataforma GFW – colocando instantaneamente no mapa 5 mil embarcações de pesca comercial menores, que não usam o AIS. O Peru também passou a compartilhar seus dados do VMS em outubro de 2018, e o Panamá, em outubro de 2019. O Chile disponibilizou seus dados recentemente, em março de 2020. A Costa Rica e a Namíbia também assumiram compromissos públicos de divulgar seus dados no GFW.

“A parceria desses países com a Global Fishing Watch mostra o interesse dos governos em coibir a pesca ilegal, não regulamentada e não reportada, permitindo compreender melhor a atividade pesqueira. Com isso, é possível desenvolver políticas públicas mais coerentes com a realidade, protegendo as espécies e, ao mesmo tempo, garantindo o futuro da pesca”, afirma o diretor-geral da Oceana Brasil, Ademilson Zamboni. 

Brasil

No Brasil, o Programa de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite (PREPS), criado pelo governo federal em 2006, é de adesão obrigatória para barcos com arqueação bruta igual ou superior a 50 ou com comprimento total igual ou maior 15 metros.  No entanto, os dados gerados são fechados, com acesso restrito a alguns órgãos governamentais, e são pouco usados para gestão pesqueira nacional.