“A lagosta faz parte da nossa cultura, da nossa história e da nossa sobrevivência!” - Oceana Brasil
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Outubro 29, 2021

“A lagosta faz parte da nossa cultura, da nossa história e da nossa sobrevivência!”

O TEMA: 

Há décadas, pescadores artesanais do Ceará, dependem da pesca da lagosta para a sobrevivência de suas famílias. Foto: Christian Braga/Oceana

Na praia da Redonda, em Icapuí, Ceará, o dia começa cedo. Às 4h30, as lâmpadas das casas iluminam os manzuás (armadilha seletiva de pesca) e as iscas começam a ser preparadas. Na beira da praia, as jangadas são aprontadas. Antes do sol nascer, dezenas de pescadores já estão mar adentro. Movidos pelos ventos, eles seguem na tradicional missão de pescar a lagosta-vermelha, principal meio de sobrevivência de centenas de famílias na região.

“A lagosta é o ouro do pescador”, explica Paulo Crispim, que se dedica à pesca artesanal há muitos anos. O Ceará é o principal produtor de lagosta no país, responsável por cerca de 65% das exportações. Em todo o país, a pescaria movimenta anualmente mais de 70 milhões de dólares em exportações e gera milhares de empregos diretos e indiretos. Apesar da importância socioeconômica, a pesca da lagosta está à beira do colapso. E o principal motivo é a ineficiência na gestão dessa pescaria.

Diariamente, Paulo Crispim utiliza a força dos ventos para conduzir sua jangada mar adentro para pescar lagosta. Foto: Christian Braga/Oceana

“A queda da produção de lagosta é muito grande ao longo dos anos. Nós tínhamos uma produção anual de 11 mil toneladas [em 1991] e hoje só temos 4.500 toneladas”, disse Tobias Segundo, pescador e coordenador do Sindicato de Pescadores e Pescadoras Artesanais de Icapuí. “Nós temos muito medo da atividade se tornar economicamente inviável para nós”, completou.

Tobias Segundo, pescador artesanal da Praia da Redonda, se preocupa com o colapso da pesca da lagosta. Foto: Christian Braga/Oceana

Segundo estudo publicado pela Oceana, a população de lagosta-vermelha (Panulirus argus) sofreu uma redução de mais de 80% desde o início dessa pescaria em 1950 por consecutivas falhas na gestão da pescaria, como nas medidas de ordenamento, no controle e no monitoramento. Estima-se que, em 2015, o estoque pesqueiro da lagosta se encontrava em sobrepesca, com um total abaixo dos 18% de sua capacidade máxima de reprodução.

Para proteger a espécie e garantir o futuro da atividade, em dezembro de 2019, os pescadores artesanais recomendaram à Secretaria de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SAP/Mapa) a adoção de um limite anual máximo de captura para a pesca da lagosta.

“Esse documento [que recomendou a adoção de limites de captura] trazia todas as propostas que foram construídas com pescadores, empresários, cientistas… Se ele fosse aplicado na prática, teríamos a garantia da preservação da lagosta. Mas nem uma letra sequer desse documento foi posta em prática. Ele está engavetado”, lamenta Tobias

Principal meio de sobrevivência de centenas de famílias no Nordeste, a lagosta-vermelha (Panulirus argus) está em sobrepesca. Foto: Christian Braga/Oceana

Para definir a quantidade máxima de captura de uma espécie, é preciso realizar avaliações do estoque pesqueiro, que levam em conta, sobretudo, a produtividade das populações. Dessa maneira, busca-se um equilíbrio entre o que a pesca retira do ambiente e a capacidade natural de regeneração dos estoques. Essa medida tem se mostrado eficiente em todo o mundo e por isso foi reivindicada pelos pescadores de todo o Nordeste, preocupados em garantir a continuidade da pesca da lagosta para as próximas gerações.

“O pescador artesanal da comunidade da Redonda faz de tudo para proteger a lagosta”, disse Tobias. “Nós dedicamos parte de nossas vidas em defesa da pesca da lagosta porque ela faz parte da nossa cultura, da nossa história e da nossa sobrevivência”, revelou, com a determinação de quem continuará atuando para a continuidade dessa atividade.