Estudo aponta fraude em 72% dos peixes comercializados no Peru



10 Dezembro 2019

Foto: Jenn Hueting | OCEANA

A Oceana e a Pro Delphinus publicaram um novo relatório  revelando fraudes em frutos do mar e substituição de espécies no Peru, em níveis alarmantes. Com as conclusões do relatório, as organizações estão propondo a implementação de um sistema de rastreabilidade que permita o monitoramento de recursos marinhos, do mar à mesa.

O estudo revelou que 72% das 225 amostras analisadas não correspondiam ao nome dos peixes vendidos. Espécies com demanda e valor comercial altos, como a garoupa, eram frequentemente substituídas por peixes mais baratos, como panga produzido em aquicultura. Também se identificou que o tubarão-raposa era vendido como tollo*. 

Segundo o relatório, o prato principal do Peru, o ceviche, é onde mais acontecem substituições, e uma proporção chocante de 74% das amostras coletadas não corresponde ao nome vendido.
“Este é apenas um diagnóstico inicial da magnitude do problema, que afeta nossa economia e também põe em risco a sustentabilidade de nossos oceanos, devido à sobrepesca e a potencial ‘lavagem’ da pesca ilegal, o que contraria os esforços de preservação de espécies ameaçadas”, explica a diretora da Pro Delphinus, Joana Alfaro. Ela ressalta que esses resultados são mais significativos do que os de 2018, que revelaram taxa de substituição de espécies de 43%.

Alfaro diz que espécies com aparências físicas semelhantes também podem levar a erros. No entanto, a linha que separa a substituição de espécies e a fraude intencional em frutos do mar –geralmente motivada por preços mais altos – é tênue. “Mais da metade das amostras são fraudes potenciais. A espécie mais utilizada como substituto é o dourado-do-mar, vendido como robalo, garoupa ou olho-de-boi”, afirma.

Abrangência e metodologia

Esse estudo é o mais abrangente já feito no Peru, e cobre 39 pontos de venda em Lima, Chiclayo e Piura. A equipe de pesquisa coletou amostras de peixe fresco e de pratos preparados, como ceviche e tiradito, em restaurantes, supermercados e mercados de bairro. A pesquisa foi realizada entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, e consistiu em testes de DNA, método que compara uma sequência de DNA com um banco de dados global de espécies genéticas. 

Situações semelhantes já foram registradas em outros países. Em abril deste ano, por exemplo, pesquisa divulgada pela Oceana revelou que, no México, um em cada três peixes analisados não correspondiam ao que era anunciado, tanto no balcão da peixaria como nos cardápios dos restaurantes. No Brasil, operação de fiscalização do Ministério da Agricultura, realizada também em abril, mostrou que 40% das amostras analisadas eram fraudadas.

O que podemos fazer?

A cadeia de fornecimento da pesca no Peru envolve uma ampla gama de atores, desde pescadores até consumidores. A identificação das espécies geralmente é feita “a olho”, com base no conhecimento de pescadores e comerciantes. Os nomes também variam de acordo com o local de desembarque.

“A pouca informação e a falta de mecanismos de controle na cadeia do pescado tornam o problema muito complexo. Precisamos de um sistema que garanta a identificação adequada das espécies de peixes ao longo dessa rota, que é essencial para alcançar padrões de rastreabilidade”, afirma o diretor científico da Oceana Peru, Juan Carlos Riveros.
 
“Esse sistema exigiria que os intermediários fornecessem informações sobre como, quando, quem, onde e quais recursos marinhos são capturados, beneficiados ou vendidos. Além disso, seria uma maneira eficaz de garantir que estamos recebendo o que compramos, ao mesmo tempo em que se evita a pesca ilegal e se reduz a sobrepesca”, conclui.

* Nome comum da espécie em espanhol. 

Acesse o estudo na íntegra em http://bit.ly/fraudeysustitucion

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