Investigação da Oceana aponta fraude em 46% dos pescados vendidos em restaurantes e mercados do Canadá



12 Agosto 2021

Uma investigação realizada pela Oceana Canadá sobre fraude no pescado revelou que 46% das 94 amostras testadas em restaurantes e mercados das quatro principais cidades – Montreal, Ottawa, Toronto e Halifax – estavam rotuladas incorretamente, após resultados de testes de DNA. A substituição de espécies ocorreu, por exemplo, em todas as 24 amostras da espécie butterfish (no Brasil chamada de “gordinho”), pescada-do-Atlântico e albacora branca.

Além disso, foram encontrados 10 casos em que produtos rotulados como gordinho ou albacora eram, na verdade, peixe-prego, uma espécie que pode causar sintomas gastrointestinais agudos, como diarreia, vômito e náusea, e tem venda proibida em vários países. Já entre as 13 amostras rotuladas como pargo, sete eram de tilápia, que é uma espécie muito mais barata.

De acordo com o relatório, os próprios varejistas e restaurantes podem ser vítimas de fraude, e até mesmo produtos com rotulagem correta podem ter sido pescados ilegalmente ou ser provenientes de trabalho forçado sem que se saiba devido à pouca transparência das cadeias de fornecimento de pescado no Canadá. “Comprar peixe não deve ser um jogo de adivinhação. Os canadenses merecem confiar no pescado que comem”, disse Sayara Thurston, da Campanha contra a Fraude no Pescado, da Oceana.

A organização também divulgou uma pesquisa de mercado sobre a opinião dos canadenses em relação à rastreabilidade da origem dos pescados. O resultado mostra que 87% dos consumidores estão preocupados com a compra de produtos com rótulos incorretos – em 2020, esse índice foi de 76%. A pesquisa mostrou ainda que 86% dos canadenses se preocupam com a falta de ação do governo diante da rotulagem incorreta do pescado e da pesca ilegal no país.

O governo canadense se comprometeu a implementar um sistema para rastrear o pescado “da embarcação ao prato” em 2019, o que colocaria o país em uma sintonia maior com as melhores práticas aceitas no mundo todo. No entanto, nenhum plano ou cronograma foi apresentado até agora pelo governo.

Gato por lebre no México e no Peru

A substituição de espécies em mercados e restaurantes é uma prática encontrada em outros países, além do Canadá. Em 2019, o relatório Gato por Lebre, divulgado pela Oceana no México, mostrou que um em cada três peixes analisados não correspondiam ao que era anunciado, tanto no balcão da peixaria como nos cardápios dos restaurantes. A pesquisa detectou que 1/3 das 400 amostras observadas em restaurantes, supermercados e peixarias na Cidade do México, Mazatlán e Cancún eram fraudadas.

No Peru, a substituição de espécies também ocorre em níveis alarmantes. A investigação conduzida pela Oceana em parceria com a organização Pro Delphinus mostrou que 72% das 225 amostras analisadas não correspondiam ao nome dos peixes vendidos. Espécies com demanda e valor comercial altos, como a garoupa, eram frequentemente substituídas por peixes mais baratos, como panga produzido em aquicultura. Segundo o relatório, o prato principal do Peru, o ceviche, era onde mais aconteciam as substituições.

Brasil não tem rastreabilidade

No Brasil, a rastreabilidade dos pescados é extremamente precária, já que os sistemas de controle dos diferentes órgãos (como controle da pesca, controle sanitário e controle fiscal) não se conversam. Muitos sistemas ainda são baseados inteiramente em formulários de papel, o que dificulta ainda mais o rastreamento da origem dos produtos.

 A Oceana defende que o país implemente sistemas de rastreabilidade nas cadeias produtivas, assim como os que já existem hoje para outros setores, garantindo procedência e controle de qualidade do que é vendido para o consumidor. Medidas de controle e rotulagem para a identificação correta garantem não só a saúde da população, mas também são um importante aliado na gestão dos recursos pesqueiros e no combate à pesca ilegal.